Capítulo 2

1234 Words
Evelyn: Assim que entrei em casa, encostei-me à porta e escorreguei até o chão. As lágrimas desciam pelo meu rosto, enquanto minha mente tentava me convencer, mais uma vez, de que seria a última. Eu precisava seguir em frente. Mas não conseguia. Meu mundo gira e gira, mas sempre me deixa no mesmo lugar. A dor parece rasgar-me por dentro, ferindo cada parte do meu corpo até alcançar a alma. É como se eu estivesse sangrando por dentro. Abro a bolsa com as mãos trêmulas, retiro uma pequena garrafa de whisky, destampo e levo-a à boca, bebendo um gole direto. — Eu vou esquecer. Eu vou vencer… Murmuro, tentando crer nas próprias palavras. Faço força para me levantar, mas meu corpo não obedece. Dói tanto, mesmo depois de tantos anos. Ainda dói. — Eu vou conseguir… Repito, embora não tenha certeza. Tento mais uma vez, mas minhas pernas falham. Então, deito-me de costas no chão, braços abertos, olhos fechados. Sussurro em voz quase inaudível: " I had hoped you'd see my face Eu esperava que você visse o meu rosto And that you'd be reminded that for me, it isn't over E que se lembrasse de que, para mim, isso ainda não acabou Never mind, I'll find someone like you Deixa pra lá, eu vou encontrar alguém como você I wish nothing but the best for you too Eu desejo nada além do melhor para você também Don't forget me, I beg Não se esqueça de mim, eu imploro I remember you said Eu me lembro que você disse Sometimes it lasts in love, but sometimes it hurts instead Às vezes o amor dura, mas às vezes ele machuca em vez disso…" A garrafa escorrega da minha mão e rola para debaixo do sofá. Continuo repetindo cada verso da música, enquanto as lágrimas insistem em banhar meu rosto. — Alec… Sussurro, quase perdendo a consciência. O telefone começa a tocar. Uma, duas, três vezes, sem cessar. Eu não queria me mover. Mas tenho certeza de que é Daniel. Só ele insistiria tanto. Provavelmente para me dar alguma bronca. Respiro fundo, tentando manter o controle para que ele não perceba o estado em que estou. Faço força para me levantar e, desta vez, consigo. Caminho até o sofá e me acomodo, embora tudo em mim ainda pese. Pego o telefone e atendo de uma vez: LIGAÇÃO: — O mundo está se acabando? Pergunto, esforçando-me para conter a voz embargada, para não desabar. Do outro lado da linha, ele suspira antes de responder: — Você chegou atrasada, Evelyn. Onde estava? Fiquei preocupado, achei que aquele cara tivesse fugido… Corto-o antes que ele comece a dizer coisas que não quero ouvir. — Você sabe que cantar é apenas um hobby, Dani. Minha paixão é a enfermagem. Fui a uma entrevista hoje e consegui o emprego. — Por quanto tempo? Você nunca permanece nos seus empregos, Evelyn. Hoje foi seu primeiro dia no bar Luxe Lounge, e você se apresentou de maneira displicente. Por favor, não perca esse trabalho também. Foi difícil conseguir essa vaga para você lá. Estou tentando fazer com que você siga em frente e esqueça o seu passado. Sua sorte foi que todos amaram a sua apresentação, e o local já está lotado para o seu próximo show. O seu pagamento já caiu na conta. Não beba e não volte a usar dr… — Você já terminou? Interrompi, cansada. — Estou exausta, preciso dormir um pouco. Ele respira profundamente antes de continuar: — Estou ajeitando as coisas aqui. Acho que vou demorar mais do que o previsto. Não faça nenhuma besteira. Por favor. Ah… a Sara perguntou por você. — Tudo bem. Vou desligar agora. Ele suspira mais uma vez antes que a ligação seja encerrada. Deito-me recostada no braço do sofá e fecho os olhos. Mas tudo o que vejo são aqueles olhos âmbar. " Sometimes it lasts in love, but sometimes it hurts instead Às vezes o amor dura, mas às vezes ele machuca em vez disso…" Sussurro essas palavras antes de me entregar, enfim, ao mundo do sono. [...] Alec: Com as mãos enfiadas nos bolsos do casaco, permaneço de pé diante da ampla janela panorâmica do meu novo escritório, observando a imensidão da cidade que se estende lá fora. Ainda ouço, na minha mente, a voz de Evelyn cantando, ecoando como um fantasma que se recusa a partir. A porta se abre e Adrian aproxima-se, postando-se ao meu lado. Fitando a vista, comenta: — Fiquei preocupado com você, cara. O que houve? Você saiu daquele jeito do bar. Solto um riso anasalado, mas respondo: — Quero alugar uma casa. As informações estão no papel em cima da minha mesa. E não precisa se preocupar, não foi nada demais. Ele se vira para mim, n**a com a cabeça e, com um sorriso dúbio no rosto, pergunta: — Então você vai ficar? O que te fez mudar de ideia tão rápido? — Mudar de ares às vezes faz bem, Adrian. Talvez eu estivesse mesmo precisando vir para cá. Ele ri, balançando a cabeça, claramente descrente das minhas palavras, e retruca: — Você nunca gostou de advogar, Alec. Disse que não tinha certeza se ficaria, e agora já escolheu até casa, sem ao menos conhecer a cidade direito. Apesar de o seu pai ter sido sócio majoritário deste escritório há anos. Afasto-me da janela e caminho pela sala que um dia pertenceu ao meu pai. Tiro as mãos dos bolsos e começo a girar a aliança no dedo, um hábito que adquiri. — Para tudo existe uma primeira vez, Adrian. Ele fixa o olhar na minha mão, onde a aliança gira incessantemente, e pergunta: — Vai trazer sua esposa? Não me diga que brigou com ela e resolveu aceitar a proposta? Sorrio, mas é um sorriso sem humor. Não respondo. Na verdade, o que eu poderia dizer? Mas resolvo perguntar: — Todos os dias há apresentações ao vivo naquele bar de ontem? A cantora é boa. Voz excelente. Perfeita, eu diria. Um timbre diferente, único. Ele me observa, antes de responder: — Está pensando em trair sua esposa com a cantora, Alec? Inclino a cabeça levemente para o lado, pensativo e, ao mesmo tempo, confuso. — Não é do meu feitio ser traidor, Adrian. Apenas perguntei. Fiquei curioso sobre ela. Você a conhece? Tento disfarçar meu interesse. Adrian suspira: — Para ser sincero, não. Foi a primeira vez que a vi cantar também. Gostei muito da apresentação dela. Foi a melhor que já ouvi no Luxe Lounge. Mas no fim de semana ela vai se apresentar de novo. Ele vai até a minha mesa, pega o papel e, erguendo-o, completa: — Vou providenciar sua mudança. Antes que ele saia, peço: — Não quero que alugue nada em meu nome. Peça discrição ao proprietário. Contrato por tempo indeterminado. Viro-me novamente para a janela. Adrian me questiona: — Não me diga que está fugindo de alguém? Para ser sincero, sim, eu estava. Mas mais importante do que isso, eu não queria que aquela desgraçada fugisse. — Apenas faça o que pedi, Adrian. Por favor. Dessa vez, ele deixa a sala sem dizer mais nada. Eu te encontrei, Evelyn. E não vou permitir que fuja de mim outra vez. Fecho os olhos e, diante deles, surgem aqueles malditos olhos verdes. Respiro fundo, tentando manter o controle. Como nos velhos tempos… nós nos tornaremos vizinhos novamente.
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