Alec:
A noite já havia caído quando finalizei a arrumação das poucas peças de roupa no closet. Nada muito trabalhoso, a casa, mobiliada, exigiu apenas uma faxina minuciosa e algumas substituições para torná-la mais confortável, mais próxima do que costumo chamar de lar.
Com uma das mãos no bolso da calça de moletom, aproximei-me da janela do quarto, saboreando devagar um licor encorpado.
Faz quase seis malditos dias que observo a casa ao lado. E, mesmo assim, é como se ela estivesse vazia. Não a vejo. Não a ouço. Em raros momentos, percebo uma única luz acesa, como um sopro de vida escondido nas sombras. Em outros, avisto sua silhueta saindo em horários instáveis, sempre apressada, sempre sozinha.
Ontem, a flagrei cambaleando na entrada de casa, como se estivesse embriagada ou fraca. Ria como uma estolida, perdida em si mesma. Aquela não era a minha Evy. Não podia ser.
Segui seus passos em silêncio nos últimos dias e descobri que está trabalhando em um hospital. Isso não me surpreendeu. Sua verdadeira paixão sempre foi cuidar das pessoas. Cantar, embora seja uma parte dela, nunca foi um objetivo, era apenas uma extensão sensível da alma que ela carrega no peito.
Lá fora, as primeiras gotas de chuva começaram a cair, dispersas e silenciosas. Permaneço diante da janela, oculto entre as cortinas, observando, esperando que ela apareça. Hoje é noite de apresentação no Luxe Lounge. A segunda que assistirei. A segunda que ela não saberá que fui.
Mas o tempo passa, e ela não surge. Talvez nem esteja em casa. É possível que tenha saído direto do hospital para o bar.
Afasto-me da janela com um suspiro e sigo para o closet. Troco de roupa, pego um casaco, e saio.
Já no carro, a caminho do bar, passo a mão pelos cabelos, tentando organizar os pensamentos. Repasso mentalmente tudo o que aconteceu, todas as escolhas, todos os erros. E, por mais que tente, nada, absolutamente nada, faz sentido.
Alguns minutos depois, adentrei o luxuoso Luxe Lounge. O ambiente estava lotado, tomado por uma multidão de olhares ansiosos, taças tilintando e murmúrios abafados. Mas foi algo além do burburinho que capturou minha atenção de imediato.
Adrian.
Sentado a uma mesa mais afastada, o dedo percorria lentamente a borda do copo diante dele, em movimentos circulares que denunciavam a impaciência. Esperava por alguém, disso eu não tinha dúvida.
Desviei os olhos dele apenas quando as luzes do salão se apagaram por completo, subitamente. Um único holofote atravessou o escuro e repousou sobre ela.
Evelyn.
Estava estonteante.
Vestia um vestido longo preto de alças finas, com discretos brilhos que cintilavam sob a iluminação, e uma f***a frontal que revelava as pernas esguias com elegância. Apesar da magreza que agora denunciava, o vestido abraçava seu corpo com precisão, como se tivesse sido feito para ela, e apenas para ela.
Os cabelos caíam soltos, puxados para trás com leveza, como uma moldura intencional que deixava o rosto livre, mas não exposto. A maquiagem era discreta, com um toque de sofisticação que só realçava seus traços, e o batom vinho… esse, em especial, contrastava com sua palidez de um jeito quase c***l.
Ela inspirou profundamente, os ombros erguidos com uma altivez sutil. Aproximou-se do pedestal e, com a graça, ajustou o microfone à sua altura. Seus dedos envolveram-no com firmeza, como se ali estivesse o centro do seu mundo. Então, fechou os olhos e, no silêncio expectante da multidão, deixou que a primeira nota escapasse de seus lábios...
"♪Wish I could, I could've said goodbye
I would've said what I wanted to
Maybe even cried for you…
Queria poder, eu queria ter dito adeus
Teria dito o que queria
Talvez até chorado por você…"
***
"♪If I knew it would be the last time
I would've broke my heart in two
Tryin' to save a part of you…
Se eu soubesse que seria a última vez
Teria partido meu coração em dois
Tentando salvar uma parte de você…"
Com o coração disparado de forma desordenada, enfiei as mãos nos bolsos do casaco e me encaminhei, a passos contidos, para uma mesa mais afastada. No entanto, não pude deixar de perceber o olhar fixo de Adrian sobre ela, atento, absorto, quase sem piscar.
Respirei fundo, tentando conter a inquietação que aquilo me causava. Desviei o olhar dele e voltei a direcioná-lo apenas para ela. Continuou...
"♪Don't wanna feel another touch
Don't wanna start another fire
Don't wanna know another kiss
No other name falling off my lips
Não quero sentir outro toque
Não quero acender outro fogo
Não quero conhecer outro beijo
Nem outro nome escapando dos meus lábios..."
***
"♪Don't wanna give my heart away
To another stranger
Or let another day begin
Won't even let the sunlight in
No, I'll never love again
I'll never love again, oh
Não quero entregar meu coração
A outro estranho
Nem deixar um novo dia começar
Não deixarei nem mesmo a luz do sol entrar.
Não, eu nunca mais amarei
Eu nunca mais amarei, oh..."
Ela abriu os olhos devagar, e neles havia uma carga emocional tão intensa que por um instante pareceu viver cada sílaba entoada.
Meu peito ardeu. Cada nota que escapava de seus lábios era uma punhalada. Um corte limpo, profundo, de quem sabe onde fere.
Senti-me um maldito masoquista.
A mente me traiu, arrastando-me de volta para aquele maldito dia, anos atrás, quando acordei e o lado esquerdo da cama estava vazio.
Como ela ousa cantar esse tipo de música como se tivesse sido a parte mais ferida dessa história?
Ah, Evy... Eu a odeio tanto!
"♪When we first met
I never thought that I would fall
I never thought that I'd find myself
Lying in your arms, mmm, mmm
Quando nos conhecemos
Jamais pensei que me apaixonaria
Jamais pensei que me veria
Deitada em seus braços, mmm, mmm..."
****
"♪And I wanna pretend that it's not true
Oh baby, that you're gone
Cause my world keeps turning, and turning, and turning
And I'm not moving on
E eu quero fingir que não é verdade
Oh, amor, que você se foi
Porque o meu mundo continua girando, e girando, e girando
E eu não estou seguindo em frente..."
Minha respiração tornou-se irregular, e as mãos, ainda escondidas nos bolsos do casaco, fecharam-se em punho. Senti os olhos arderem, mas recusei-me a derramar mais uma lágrima sequer por ela.
Eu também faria com que ela conhecesse a minha dor, e pagaria por cada uma das noites que me destruiu em silêncio.
Levantei-me, impulsivamente, mas parei ao ouvir a próxima estrofe da canção. Foi quando uma única lágrima rompeu a barreira do meu orgulho e desceu, silenciosa.
"♪I don't wanna know this feeling unless it's you and me
I don't wanna waste a moment, ooh
And I don't wanna give somebody else the better part of me
I would rather wait for you, ooh
Eu não quero conhecer esse sentimento, a menos que seja entre você e eu
Eu não quero desperdiçar um momento sequer, ooh
E eu não quero dar a outra pessoa a melhor parte de mim
Eu prefiro esperar por você, ooh..."
Um sorriso amargo, quase sarcástico, escapou dos meus lábios. Talvez minha mente estivesse forjando uma ilusão, atribuindo significados onde não havia nada. Lancei um último olhar em sua direção antes de me afastar da mesa e deixar aquele lugar.
Mas havia algo que eu não podia negar, aquela não era a minha Evy. Ao menos, não a mulher que partiu anos atrás. Havia uma dor oculta nela, uma ferida silenciosa que saltava até nas notas que cantava. E eu descobriria. A qualquer custo.
Antes de atravessar a saída, virei o rosto por instinto. A última imagem que guardei foi Adrian de pé, aplaudindo-a com entusiasmo, como se ela lhe pertencesse.