– A Rejeição do Alfa Supremo
O silêncio tomou conta do Grande Salão.
A luz da Lua de Sangue iluminava o círculo de pedra, enquanto a Grande Sacerdotisa estendia o cajado em direção aos céus.
Uma energia antiga percorreu o ambiente.
As runas gravadas no chão começaram a brilhar intensamente.
Então aconteceu.
Do peito de Kael partiu um fio de luz prateada.
Do peito de Lyra surgiu outro.
As duas luzes cruzaram o salão diante dos olhos de centenas de pessoas e se uniram em um único brilho.
Um murmúrio espantado espalhou-se entre a multidão.
— Companheiros destinados...
— A Deusa escolheu...
— A futura Luna...
Todos olhavam para Lyra.
A jovem permaneceu imóvel.
Seu coração batia tão forte que parecia doer.
Sua loba chorava de felicidade.
"Nós o encontramos..."
Lentamente, Kael desceu os degraus do altar.
Cada passo fazia o salão prender a respiração.
Lyra também caminhou.
Não por escolha.
Era como se o próprio vínculo a conduzisse.
Quando pararam frente a frente, havia apenas alguns centímetros entre eles.
Ela ergueu os olhos.
Pela primeira vez, enxergou de perto o homem destinado a ser seu companheiro.
Ele era ainda mais bonito do que imaginara.
Mas seus olhos...
Estavam frios.
Gelados.
Sem qualquer sinal de alegria.
A esperança de Lyra vacilou.
Kael a observou de cima a baixo.
Seu vestido simples.
Suas mãos marcadas pelo trabalho.
A ausência de qualquer símbolo de uma família nobre.
Ao redor deles, o silêncio era absoluto.
Então Kael falou.
Sua voz era firme.
Fria.
Sem a menor emoção.
— A Deusa da Lua... cometeu um erro.
O salão inteiro ficou em choque.
Lyra sentiu como se o chão desaparecesse sob seus pés.
— Meu Alfa... — começou a Grande Sacerdotisa.
Kael a interrompeu.
— Eu sou o Alfa Supremo.
Voltando-se para todos os presentes, declarou em alto e bom som:
— Minha companheira deveria ser uma mulher capaz de governar ao meu lado. Alguém preparada para carregar o peso da coroa.
Seus olhos voltaram para Lyra.
— Não uma simples curandeira da vila.
As palavras atingiram Lyra como uma lâmina.
Ela tentou falar.
Nenhum som saiu.
Kael continuou, impiedoso.
— Você não possui posição.
— Não possui título.
— Não pertence a uma linhagem conhecida.
— Não foi criada para ser Luna.
Cada frase feria mais profundamente.
Maya deu um passo à frente, revoltada.
Helena segurou seu braço.
Lágrimas começaram a encher os olhos de Lyra.
Ela nunca havia sentido tanta vergonha.
Kael permaneceu impassível.
— Eu, Kael Draven, Alfa Supremo das Terras da Lua Eterna...
Ele respirou fundo.
As próximas palavras mudariam o destino de ambos.
— ...rejeito você como minha companheira destinada.
Um grito de dor escapou de Lyra.
O vínculo pareceu se partir.
Uma dor intensa atravessou seu peito.
Ela caiu de joelhos sobre o mármore frio.
O salão inteiro permaneceu em silêncio.
Nem mesmo os alfas visitantes conseguiam acreditar no que acabara de acontecer.
A Grande Sacerdotisa fechou os olhos.
Jamais, em toda a história das cinco alcateias, um Alfa Supremo havia rejeitado publicamente sua companheira destinada.
E, naquele instante, sem que Kael percebesse...
As runas antigas do templo começaram a brilhar em um tom azul intenso.
A profecia acabara de dar seu primeiro passo.