capítulo 2

728 Words
O céu amanheceu limpo no dia seguinte. A chuva da noite anterior havia lavado as folhas das árvores, e os primeiros raios de sol faziam o orvalho brilhar como pequenos cristais espalhados pela floresta. O canto dos pássaros misturava-se ao som distante dos martelos dos ferreiros e ao trotar dos cavalos que percorriam as estradas da Alcateia Draven. Faltavam apenas três dias para a Cerimônia da Lua de Sangue. E toda a alcateia parecia respirar expectativa. Lyra acordou cedo, mas a imagem do enorme lobo n***o ainda ocupava seus pensamentos. Enquanto penteava os cabelos diante do espelho, lembrava-se daqueles olhos prateados que pareciam enxergar além de sua alma. — Está distraída desde ontem — comentou Helena ao entrar no quarto com algumas roupas dobradas. Lyra sorriu sem graça. — Não consegui parar de pensar naquele lobo. Helena permaneceu em silêncio por um instante. — A floresta costuma colocar em nosso caminho aquilo que precisamos encontrar, não aquilo que esperamos. Lyra franziu a testa. — O que isso significa? Helena apenas sorriu. — Um dia você entenderá. --- Depois do café da manhã, Lyra e Maya seguiram para a praça da vila. O lugar estava completamente diferente. Barracas coloridas ocupavam quase todo o espaço, mercadores exibiam tecidos finos, joias de prata, armas ornamentadas e especiarias vindas das outras alcateias. O aroma de pão recém-assado misturava-se ao cheiro doce de maçãs caramelizadas e castanhas torradas. Músicos afinavam violinos e flautas enquanto crianças corriam entre as barracas, fascinadas com tantas novidades. — Nunca vi a vila tão cheia — comentou Maya. Lyra concordou. Era como se toda a região estivesse reunida para uma grande celebração. No centro da praça, um grupo de guerreiros treinava movimentos sincronizados com espadas de madeira. Próximo dali, artesãos montavam um enorme palco onde aconteceriam apresentações durante os dias de festividade. Uma senhora acenou ao ver Lyra. — Bom dia, querida! Era Dona Eliza, a padeira. — Helena está em casa? — Está, sim. A mulher entregou a Lyra uma pequena cesta. — Leve estes pães para ela. É uma forma de agradecer pelo remédio que preparou para meu marido. — Ela vai ficar muito feliz. Enquanto caminhavam, Maya observava tudo com entusiasmo. — Se eu pudesse, passaria o dia inteiro experimentando as comidas daqui. Lyra riu. — Você faria isso em qualquer lugar. --- Na mesma hora, os grandes portões da Fortaleza Draven se abriram. Uma longa comitiva cruzou a entrada principal. Na frente cavalgava um homem de cabelos castanhos, expressão séria e postura elegante. Era Victor Blackthorn, o jovem Alfa da Alcateia Blackthorn. Atrás dele vinham seus guerreiros, todos usando armaduras negras com detalhes verde-escuros e o símbolo de um lobo envolto por espinhos. Os soldados Draven abriram caminho em sinal de respeito. Do alto da escadaria principal, Kael aguardava os visitantes. Assim que Victor desmontou do cavalo, os dois se cumprimentaram com um firme aperto de mãos. — Seja bem-vindo à Fortaleza Draven. — É uma honra aceitar seu convite, Alfa Supremo. Apesar da cordialidade, ambos sabiam que aquela visita tinha um propósito maior do que a cerimônia. Os ataques dos renegados aumentavam a cada mês. Uma guerra parecia cada vez mais próxima. Enquanto caminhavam pelo enorme salão de entrada, Victor observava a arquitetura da fortaleza. Colunas de pedra n***a sustentavam o teto abobadado. Tapeçarias antigas retratavam batalhas históricas. Grandes janelas permitiam que a luz iluminasse o piso de mármore escuro. — Sua fortaleza continua impressionante — comentou Victor. Kael respondeu apenas com um discreto aceno. Não era um homem de muitas palavras. --- Na vila, Lyra e Maya deixavam a padaria quando ouviram o som de trombetas ecoando pelas ruas. Todos pararam para olhar. Mais uma comitiva atravessava o portão principal da alcateia. Cavalos brancos, bandeiras azul-prateadas e dezenas de guerreiros chamavam a atenção dos moradores. — Outra alcateia acabou de chegar — disse Maya. Lyra observava em silêncio. Pela primeira vez, percebeu o quanto o mundo era maior do que imaginava. Até então, sua vida havia se resumido à floresta, à vila e à casa onde crescera. Agora, líderes de diferentes territórios caminhavam pelas mesmas ruas que ela percorria desde criança. Sem perceber, levou a mão ao medalhão escondido sob sua blusa. Por um breve instante, a pedra azul em seu centro pareceu pulsar. Lyra retirou rapidamente a mão. Talvez tivesse sido apenas impressão. Ou talvez... O destino estivesse começando a despertar.
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