Teia de aranha

1056 Words
O rei estudou a menina em seu aposento. A contemplou silenciosamente trajada com uma camisa de algodão de manga longa e bufante branca, calças de couro envelhecido e botas pretas. Queria algemá-la e testar se ela aguentava mesmo dez chicotadas. A moça destoava do ambiente rico. O cabelo curto e desgrenhado com pontas incertas, mas que cheirava bem e parecia macio. Ele cedeu- lhe um sorriso e a soltou querendo iniciar seu jogo com ela. Lisa queria entender o que ele pensava. Por que a escolheu? Havia tantas servas mais bonitas e atraentes. Por que a escolheu se ela era uma tábua, agia como um garoto e tinha maus modos evidentes? Por que… — Lady Katharina é a viúva de meu irmão. — Contou o rei, avaliando a moça parada em pé na sua frente, semicerrando os olhos. Lisa abriu a boca num “ ah” inevitável. — Eu a tornei minha concubina para que ela continuasse a ter os privilégios de rainha. Mas em algum momento acho, penso, que ela confundiu minha benevolência com afeto. Nos deitamos algumas vezes para gerar um herdeiro para o trono como um acordo mutúo. Só isso. Lisa arqueou a sobrancelha. Ele era bem mais alto e mais velho que ela, viveu séculos, mas não aparentava a idade que devia ter, um ancião num corpo jovem. O rei não tinha que revelar sobre a vida matrimonial dele a uma serva. Achou uma gentileza da parte dele considerando que ele quem detinha o poder. E bem, como gentileza gera gentileza, ela ignorou sua vontade de matá-lo por ele ter assassinado sua família. Não era questão de vingar alguém da sua família. Não mesmo. Afinal, como poderia ser isso, sendo que ela mesma queria despachar a monarquia antiga da qual fazia parte para o reino dos mortos. Era mais uma questão de orgulho ferido, já que seu reino de vidro foi tomado e ela não pode defender. Sim, era mais orgulho que luto. Ela, a princesa que se gabava de ser a caçadora se tornou agora a caça de um impiedoso caçador mais forte que invadiu seu território. — Entendi, majestade. — já que estamos esclarecidos sobre isso, Dinah… Me diga… O que o ajudante de cozinha que será meu novo copeiro é seu? — Exigiu o rei no ouvido dela. Lisa estremeceu pela respiração quente do rei em seu pescoço. Dantalian tocou o ombro da menina e desceu sutilmente o começo da manga expondo o ombro dela e beijou a clavicula da moça, mordendo com força descomunal o pescoço alvo dela com as presas, arrancando um gole de sangue que bebeu e cheirou a pele pálida dela no pescoço. — Hm… — Lisa deixou escapar um gemido e não um grito como todas as outras antes dela, pela dor lacinante da mordida. O rei respirou aliviado. Resistente a dor e apreciadora da dor. Perfeita para saciar os seus caprichos perversos. Os olhos com íris douradas dele encontraram os dela, com sadismo desumano enquanto descia a mão pelo corpo ligeiramente musculoso dela pelas lutas de espadas. Lisa estremeceu reconhecendo o olhar dele no seu, era o mesmo olhar de desejo e vitória que ela tinha quando conseguia uma presa gigantesca na caçada. Ele parecia a querer tanto. Mas não entendia o que um homem como ele que poderia ter quem quisesse queria com ela. Ele que dominava tudo e todos. Lisa pensou no que responder. — Amigo, majestade. — Respondeu ofegante e honesta. Ela limpou a garganta e deixou os olhos castanhos encontrarem os dourados do monarca. — Ele é meu amigo. O rei estudou os olhos dela buscando algo mais. Captou o sentimento dela pelo rapaz ao notar o pesar que a palavra “ amigo” a trazia. Ele a fez erguer o queixo, o segurando firmemente com os dedos magros e pálidos e aproximou os lábios dos dela. — Mas você gostaria que ele fosse algo mais. — acusou, m*****o e apertando o queixo da moça. — Só esteja ciente…Não gosto de dividir o que é meu. Se o ajudante de cozinha colocar as mãos gordurosas dele em você… Eu mato vocês dois. Entendido, Dinah? — Sim, majestade. — Respondeu Lisa, surpresa que ele soubesse o que ela sentia por Desmond e que ele lembrasse de seu nome falso dito por Castor só uma vez. O rei recuou dois passos para longe dela, magnânimo. Ele rangeu os dentes, colocou um dos braços para trás das costas dele numa pose elegante, perdido em devaneios e mirou a vista do janelão de vidro. — Pode sair agora. Diga para a serva que te trouxe para chamar Katharina para mim. — Ordenou o ser mirando a lua, inconformado. Lisandra assentiu com a cabeça, mas ele já não a olhava mais. A menina se retirou do aposento que foi de seu pai, fechando a porta e seguiu pelo corredor iluminado com tochas em apoios nas paredes, começando a andar rápido e depois a correr aliviada e confusa. Lágrimas desciam de seus olhos por alguma razão. Lágrimas de puro alívio. Quando estava com o rei sentia constantemente que uma espada era apontada contra sua garganta. Viu Agatha sentada num banco estofado azul cochilando, parou de correr, a admirou dormindo, se aproximou dela e a tocou no ombro. A moça abriu os olhos azuis em alerta. Mirou Lisandra, confusa. — Já aconteceu? — questionou Agatha consoladora. — está doendo muito? Lisa deu de ombros, pensativa e negou com um meneio de cabeça. Talvez, ao contrário do que diziam os nobres, os deuses olhassem por crianças bastardas como ela também. Pensou Lisa. — Ele só queria conversar eu acho. Não fez nada além disso e de me morder aqui. — supos Lisa ingenuamente e mostrou a marca no pescoço. Agatha segurou a língua para não dizer que o rei mandou que preparassem um quarto para Lisa na ala principal aonde a garota mesmo sendo uma princesa nunca teve um aposento. — Disse que era para você chamar Lady Katharina. Agatha assentiu, pensativa se não era melhor Lisa ter ganhado o favor do rei. — No fim, o rei genocida tem algum caráter… Quem poderia supor. — Constatou Agatha para si e mirou a jovem menina de quem era dama de companhia e viu nascer quando tinha mero dois anos de idade. — Do que está falando, Agatha?
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