Lisandra pegou o seu já terceiro pãozinho com creme, se aproveitando que o rei a deu permissão, o mordeu e bebeu da caneca de leite sob o olhar atento de Desmond.Engoliu tudo ferozmente, já que quando ficava ansiosa com algo comia muito. O rapaz a mirava indignado.
— Sinceramente…Eu nem questiono mais. Ora, sua cabeça quase ter sido arrancada, sua família ter sido exterminada e você quase ser servida como jantar àquele maldito dragão, nada disso tira sua fome? O que pelos deuses tem de errado com você? — Exigiu Desmond da menina.
Estavam na cozinha onde no forno a lenha a cozinheira botava pães para assar. O cheiro de pão assado, manteiga derretida, carne cozinhando e especiarias se destacava.
O piso era de cerâmica alaranjada com desenhos abstratos marrons escuros e a parede era amarela. Velas com chamas laranjas e a luz do fogo dos fornos iluminava o ambiente.
Lisa se irritou com Desmond.
— Quer que eu faça o quê? Fique choramingando pelos cantos? — Questionou bruta e limpando a boca suja do creme do pãozinho. — e se o rei ver meu luto e me perguntar porque lamento? já pensou nisso? O melhor é agir como se nada estivesse acontecendo.
Desmond respirou fundo..
— sua família… — Sussurrou ele com os olhos lamuriosos para ela para que os outros não escutassem.
— Você e sua irmã são minha família. —Argumentou Lisa, distante e sem deixar os olhos irem atrás dos dele. —Os que morreram eram apenas pessoas com quem eu convivia. Estaria de luto se fosse você e Agatha com as cabeças no muro do reino. — resmungou Lisa no mesmo tom mínimo e dando o assunto por encerrado.
Era difícil estar de luto quando era tão maltratada.
Desmond ofegou comovido. Ele estudou a menina com a boca melada de creme.
Estendeu o braço por cima da mesa de madeira retangular e simplória da cozinha e mirou a moça, limpou a boca dela com o polegar, recuou a mão e a viu corar.
—- Teve sorte que os servos que te conhecem, além de mim, Castor e Agatha, foram mortos pelo dragão. Se fosse de outra forma teriam revelado sua real identi…
— Castor sempre foi uma raposa traiçoeira quanto a trocar de lados. Mas quando mais precisei ele ajudou. Nunca vou esquecer disso, Desmond. — Contou Lisa. — se não fosse por ele, eu teria morrido também.
— O que o rei ficou falando com você lá depois que o Castor saiu? — Exigiu Desmond de repente. — Bem, ele até te deu livre acesso a tudo no palácio e disse para todos os servos te tratarem bem.
Lisa corou e gaguejou. Ela de repente colocou o pãozinho de volta no pires, perdendo o apetite, o que era raro. Limpou as palmas das mãos do açúcar que havia no pão, às esfregando nervosamente e pirragueou.
— Ele disse que me quer para servi-lo no quarto. —- Informou a menina corada, soltando de uma vez e num murmúrio, desenhando uma estrela imaginária com a ponta do dedo na mesa.
Desmond abriu os olhos azuis ao máximo. Ele bateu a mão fechada em punho na mesa, furioso.
— Você só tem quinze anos. Ele é velho. Eu… Você disse que não… Óbvio.
Lisa respirou fundo, o mirando, furiosa.
— Ah, claro. Eu disse “ei olha aqui. Não vou me deitar com você não, velho, sabe quem eu sou, a princesa desse reino.” — Respondeu irônica e arisca. — Ele é o maldito rei que matou minha família , Desmond. O rei das cinzas e do fogo. O rei dragão e o rei fênix. Ele destrói tudo com fogo de dragão e como uma fênix renasce das cinzas. — resmungou ela num tom baixo sem saber mais o que dizer, dando de ombros e abrindo e fechando a boca. — Nenhum treinamento de espadas i****a me preparou para isso. Quer que eu morra, por um acaso? Que tipo de amigo você é? é só eu abrir as pernas para ele e continuar viva. Como poderia uma serva de prazer dizer não a um rei que pagou cinco moedas de ouro por ela? Cinco moedas de ouro. Uma moeda compra comida para cem trabalhadores por um mês. Tem noção do quanto cinco valem?
Desmond a mirou profundamente magoado que ela fosse rebelde em tudo, menos para defender sua honra. Sabia que era um pensamento egoísta, mas saber que ela serviria o rei como uma meretriz e nem esperneou como fazia com tudo deixava-o só fervendo de ódio.
— Ei, você… — Disse Agatha entrando na cozinha, apontando para Lisa e fingindo não conhecer Lisandra. Desmond fitou a irmã, curioso. — o rei está chamando você, menina. — Falou indo em direção à antiga princesa Lisandra que sabia agora ser só uma serva de prazer.
Lisandra se levantou da mesa e se posicionou ao lado de Agatha. Fez um meneio de adeus a Desmond e seguiu Ágatha para fora do cômodo em direção ao corredor que levava a ala principal dos quartos.
Agatha a estudou.
— O rei tomou para si o quarto do vosso pai, alteza. — Disse Agatha num murmúrio e estudou a menina ao seu lado. — Já esteve com um homem antes?
— Não. — Respondeu Lisa, honesta.
Agatha deu um profundo suspiro.
— Dói no começo. Apenas fique quieta e deixe ele se saciar como quiser. É rápido. — Respondeu Agatha.
Lisa não sabia se sentia aliviada, consoloda ou atordoada. Era um misto.
Elas duas pararam em frente à porta do aposento que pertenceu ao pai de Lisa e agora era de Dantalian.
— Ele tem o sangue de sua família em mãos. Mas se quiser continuar viva, suporte os toques dele e finja gemidos.— aconselhou Agatha e se retirou da porta, deixando Lisandra sozinha..
Lisa bateu na porta com a aldrava redonda que parecia uma argola. Ela analisou a intimidante porta em forma de arco e que era de ouro. Escutou um “ entre.”
Ela adentrou o aposento de tons azuis e brancos contemplando o elegante quarto. Nunca teve nem permissão para andar na ala principal do palácio o que dirá entrar num dos quartos.
Viu o rei sem camisa e apenas com uma calça de dormir leve. As bochechas dela ganharam cor. Viu as cicatrizes três tons mais pálidas na pele dele das costas dele. O longo cabelo loiro prateado dele solto.
" Ele é mais velho, mas é bonito." Se deu conta Lisa. " Podia ser pior."
Ela corou ao notar que aconteceria algo e o rei a olhava como se a desejasse. Lisa, em passos hesitantes, adentrou no aposento e fechou a porta do quarto.
Ela viu o janelão de vidro que mostrava a imagem do mar e suas ondas, e se focou na grandiosa lua no céu para evitar mirar o bonito rei. Analisou os dois candelabros com velas como se fossem a mais interessante decoração do quarto.
O rei caminhou até ela e a tocou no rosto.
Ela esperava ser subjugada, mas ele só a tocou no rosto com os polegares.
—- Sua esposa…--- O impediu a menina.
— Concubina. Não tenho esposa. — Argumentou o rei.
— Seja como for, serei a segunda. Isso parece errado para mim. — Respondeu Lisa.