6 - Yara

2112 Words
Acordei com o sol invadindo meu rosto e a cabeça latejando como se alguém tivesse batucando lá dentro com uma frigideira. Tentei me levantar devagar, mas o estômago revirou e tive que sentar de novo, os olhos apertados. O Abel ainda dormia, todo enroladinho no lençol, com o cabelo espetado pra cima. Pelo menos ele tava bem. Bati na cara devagar, tentando acordar de vez, quando escutei a voz da Catarina chamando da porta — Oxente, não precisa gritar desse jeito não... minha cabeça vai explodir, visse? — ela riu alto e entrou. — Bora lá em casa? Mãe fez um cuscuz com manteiga e café de coador. E tu não vai dizer não, porque ela já tá te esperando, disse que sonhou contigo essa noite. — Ela sonhou comigo? — Sonhou. Disse que viu tu vestida de branco, com flor no cabelo, andando na beira do mar. A véia é toda mística, tu vai ver. — eu ri, mas um nó apareceu na garganta. Me vesti devagar, ajeitei Abel com carinho, dei um banho rápido nele e seguimos. O caminho até a casa da mãe da Catarina foi cheio de conversa fiada, piada boba e risada solta. Mas no fundo, bem no fundinho, um pensamento martelava devagar na minha cabeça. Eu tava gostando daquilo. Gostava daquela gente barulhenta, das vozes na rua, da mãe dela falando alto e me abraçando como se me conhecesse de anos. Era tudo tão bom... bom até demais. E é isso que me deixava triste. Porque eu não podia ficar. Não de verdade. O Rio era só um esconderijo. Suspirei fundo, sorrindo amarelo quando a Catarina veio com um prato fumegando de cuscuz e ovo. — Come, mulher. Tu tá branca que nem papel. — É só a ressaca... — menti, forçando um riso. Mas no fundo, era medo. E uma vontade danada de poder ficar. Só que eu sabia. Sabia que cedo ou tarde, tudo isso ia acabar. E me doía demais pensar que eu já tava sentindo falta antes mesmo de ir embora. A casa da mãe da Catarina era aconchegante de um jeito que doía. Um cheiro de café fresco e incenso de arruda se misturava no ar, as paredes cheias de santinhos e fotos de família, e uma rede armada na sala que balançava devagar com o vento. — Ô minha filha, tu tá com uma cara... parece que a alma ainda tá na pista! — a mãe da Catarina brincou, gargalhando enquanto cortava banana pra Abel na mesa da cozinha. — Ave, tô mesmo, dona Zuleide — respondi, tentando sorrir. — Não tenho mais idade pra isso, não. — ela me olhou por cima dos óculos, rindo daquele jeito escandaloso. — E olha que tu é novinha ainda! Mas ó... isso é o corpo te dizendo que tu tá viva. Tem que dançar, tem que rir. Sonhei contigo essa noite. — Foi? — Foi sim. Tu andando no mar, carregando teu menino no colo. A água subia nas tuas pernas, mas tu nem se abalava. E tinha um homem de longe, todo de preto, te olhando. Não chegava perto, mas não tirava o olho. — A senhora tem cada sonho... — Minha filha, sonho é coisa séria. Tu é protegida. Mas esse homem... não sei. É como se tivesse um fio entre vocês. Tu ainda vai entender. Fiquei quieta, sentindo o coração bater diferente. Abel deu uma gargalhada com a colher de banana na boca, e aquilo me puxou de volta pro chão. — Esse menino é luz — ela disse, passando a mão no cabelo dele. — Já é da casa. Nesse momento, a porta da sala se abriu sem cerimônia, e as vozes chegaram primeiro que os corpos. — Chegamo, dona Zuleide! Traz o café! Tavão entrou com aquela imponência de sempre, largo nos ombros, sorriso fácil. O Águia logo atrás, discreto, com o boné abaixado e a mão enfiada no bolso. Os dois pareciam ainda mais à vontade na luz do dia. Menos festa, mais verdade. — Acordou, Yarinha? — Tavão falou, me lançando aquele sorriso sacana. — Com muito esforço — respondi, me ajeitando no sofá. — A mulher dançou, viu! — Catarina falou, vindo do corredor com o cabelo molhado. — d***o que diga. Na hora, fingi que não ouvi. Mas por dentro... o nome bateu forte. Não era só a lembrança da noite passada. Era o jeito que ele me olhava. Como se visse demais. Águia me cumprimentou com um aceno de cabeça, sentando perto da Catarina, que logo foi se aninhar no colo dele, toda cheia de risinho. A sala se encheu de conversa, de risada, de xícara tilintando no pires. Eu olhava aquela gente, aquele calor, e sentia um aperto estranho no peito. Um negócio bom e r**m ao mesmo tempo. Mas eu sabia. Às vezes, a gente encontra casa em pessoas. E isso é o que mais machuca quando a gente tem que ir embora. […] Depois do almoço, a casa da dona Zuleide ficou com aquele cheiro de comida quente misturado com riso. Era farofa de ovo, arroz soltinho, carne assada com bastante alho e vinagrete. Abel dormiu de barriga cheia no colo da Catarina, e por um instante, tudo pareceu um domingo de verdade. — Vamo sair? — o Tavão falou, jogando o prato vazio na pia com um barulho seco. — Vai rolar uma competição de som lá na praça. Tá geral indo. — Tô dentro — Catarina respondeu na hora. — Mas som de quê? — perguntei, rindo. — Vão cantar? — Cantar? — Tavão gargalhou. — É carro, Yarinha! Caixa de som, paredão! Vamo te mostrar como é que se faz barulho no Rio. Fingiram espanto com minha cara de quem não tava entendendo nada, e aí foi piada atrás de piada. Catarina disse que se eu não voltasse surda era porque não aproveitei direito. Abel ficou com a mãe da Catarina, que prometeu que ia dar banho, botar pra dormir, contar história e tudo mais. Coração apertou só um pouquinho, mas confiei. Pegamos o carro e descemos. O vento da estrada refrescava o rosto. Quando chegamos na praça, dava pra ouvir a batida de longe. Era um tremor no ar, uma vibração no peito. Os carros tavam enfileirados como se fossem palco, cada um com o porta-malas aberto, caixas de som gigantes apontadas pro mundo. — Isso aqui é arte — Águia falou baixo no meu ouvido, como quem fala sério. — Tu vai ver. Catarina já tinha sumido pra pegar cerveja, Tavão acenava pra todo mundo como se fosse o prefeito da praça, e eu... eu só tentava absorver tudo. Me encostei num dos carros, sentindo a vibração subir pelas costas, e fechei os olhos por um segundo. Foi quando senti. Aquele olhar. Abri os olhos devagar e vi ele ali, do outro lado da praça. d***o. De novo. Não tava rindo, nem cercado de mulher, nem com copo na mão. Só parado, de preto, com a mão no bolso e o olhar em mim. Como ontem. Como se fosse coincidência, mas a gente sabia que não era. Não sorri. Nem ele. Mas nossos olhos ficaram ali, presos. Até Catarina aparecer de novo com a cerveja gelada, me puxar pelo braço e me arrastar pra perto da muvuca. — Bebe, Yaya. Que hoje tu vai aprender a gostar de som no talo! E eu bebi. Dei um gole e deixei o ritmo me levar, mas com aquela sensação no fundo do estômago... de que tinha alguém me vendo por inteiro, mesmo no meio da multidão. Eu já tinha até dado uns goles na cerveja, e o som vibrava tanto que parecia massagear meus pensamentos. Ainda tinha gente dançando, rindo, carros estacionados com porta-malas abertos e caixas de som quase tremendo no asfalto. Um monte de som batendo junto e ninguém se importando com a mistura. Catarina tava animada demais, rindo com o Águia enquanto puxava minha mão. — Vamo ali com os meninos, pô! — ela gritou no meu ouvido, empolgada. A gente se aproximou de um grupo de homens perto de uma caminhonete preta, com o som no talo e as caixas iluminadas com LED azul. Tinha fumaça de churrasco no ar e cheiro de cerveja derramada no chão. E no meio deles, lá estava ele. Sentado no capô do carro, camisa preta colada no peito, corrente de ouro discreta e o olhar... aquele olhar que parecia atravessar qualquer multidão até parar em mim. Era como se ele já soubesse que eu tava ali antes mesmo de eu me aproximar. Ele não disse nada, nem sorriu. Só ergueu o queixo num cumprimento rápido, e isso bastou pra todo mundo ali dar espaço. O Águia deu um tapinha nas minhas costas e eu só consegui sorrir sem graça, desviando os olhos. Todo mundo ficou ali, conversando, trocando ideia, rindo alto. Era tudo muito leve. Ninguém tava preocupado com amanhã, com a hora. De vez em quando, eu sentia o olhar dele. Não era pesado, não era invasivo. Mas tava ali. Me lembrando do hotel, da noite anterior, de como tudo começou. E não parecia um peso. Parecia... destino. Catarina dançava agarradinha com o Águia, e Tavão brincava com um moleque que vendia pipoca. Eu fiquei ali, observando tudo com os olhos marejando, mas o coração quente. Era só mais um domingo qualquer pra eles. Mas pra mim, era o primeiro dia de uma vida que eu ainda nem sabia se podia ter. Eu continuei encostada na caminhonete, sentindo a brisa morna da tarde indo embora, quando ele veio. O d***o. Calmamente, como quem não tem pressa de nada, mas que sabe exatamente onde quer estar. — Tá gostando do movimento? — ele perguntou, voz firme, sem levantar demais o tom, como se só falasse pra mim. Eu virei o rosto devagar, e pela primeira vez, encarei de frente. Os olhos escuros dele não tinham pressa nem sede. Era só presença. Seriedade sem arrogância. — Tô — respondi, sem abaixar o olhar. — E tu? Gosta disso aqui tudo? — ele deu uma risadinha curta, quase um sopro. — Gosto. Mas tem dia que o barulho pesa. Hoje tá leve. O silêncio entre a gente não era desconfortável. Era denso. Quente. Como se o mundo ao redor estivesse em outra rotação. — Tô ligado que cê chegou tem pouco tempo — ele continuou. — E que tá tentando se ajeitar. — Tô tentando — respondi, firme. Ele assentiu, respeitoso. Sem aquele jeito de querer saber demais. Só escutando. Um homem que sabia ouvir. Isso me desarmou um pouco. — Cê tem jeito de quem aguenta muita coisa, mas não fala tudo que já passou. — E tu tem jeito de quem já viu tudo, mas não pergunta nada — devolvi, olhando direto nos olhos dele. Ele riu, dessa vez com mais vontade. Uma risada grave, bonita. Me fez sorrir também, sem perceber. — Tá certa. Cada um tem o tempo de contar o que quer. E tem coisa que nem precisa dizer — ele falou, e depois completou, num tom mais baixo: — Tem coisa que a gente sente no olhar. Fiquei quieta, mas não desviei. Eu não era menina assustada. Já tinha enfrentado homem pior com muito menos. Mas ele não me assustava. Me desconcertava, talvez. E isso, pra mim, era mais perigoso. — Vou pegar outra cerveja. Quer? — perguntei, firme, sem tentar parecer doce ou difícil. — Quero sim. E fui, sem pressa, sentindo que alguma coisa tinha mudado ali. Eu não tava sendo levada por nada. Eu tava escolhendo. Com os dois pés firmes no chão. E ele... ele viu isso. E respeitou. A noite já tava madura e eu senti o peso do cansaço bater. O som ainda explodia nos carros, mas meu corpo lembrava que a vida era mais do que aquele respiro bom. Eu tinha compromisso. Tinha conta. Tinha Abel. Voltei com a cerveja na mão, entreguei pro d***o com um meio sorriso. — Valeu, Yara — ele disse, tocando de leve nos meus dedos quando pegou a garrafa. O toque foi rápido, quase nada, mas eu senti. — Eu que agradeço a prosa. Mas vou nessa. — levantou as sobrancelhas, como quem não esperava. — Já? — Amanhã eu trabalho cedo — respondi, ajeitando a alça da bolsa no ombro. — Te deixo em casa, se quiser — ele ofereceu. — Não precisa. Catarina já vai sair também, a gente se resolve — falei, sem recuar nem avançar. Direta. Firme. Ele sorriu de leve, aquele sorriso que não cobra nada, só observa. — Beleza. Foi bom te ver de novo, Yara. — Foi bom te ver também, d***o.
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