5 - Yara

2329 Words
m*l entrei em casa com Abel pela mão, nem deu tempo de respirar. Estava tirando os chinelos quando escutei batidas firmes na porta. — Yara! Abre aí, mulher! Era a Catarina, com aquela voz cheia de energia de quem já chega com um plano armado. Abri a porta meio desconfiada e dei de cara com ela, toda montada: cabelo impecável, short jeans, top de alça e uma bolsinha atravessada no peito. — Oxe, que foi? — Arruma essa cara de cansada aí e se apronta. A gente vai pro pagode hoje! — Catarina... — Nada de "Catarina"! Escuta, os meninos voltaram. Tavão chegou hoje de Angra com o Águia, e e a gente vai lá dar um oi. Você vai comigo. — E eu lá tenho roupa pra isso, minha filha? Tô moída de trabalhar o dia todo! — Já pensei nisso também. Trouxe um vestidinho massa, que é a tua cara. Tá aqui ó — ela sacudiu uma sacolinha plástica e tirou um vestido colorido, soltinho, com cara de noite de verão. — É só botar esse aqui e um chinelinho, mulher. Tá pronta! — Catarina, eu não posso deixar Abel sozinho... — E tu acha que eu sou doida? Já deixei ele certo com minha mãe, ela vai cuidar dele. A mulher é doida por criança, vai encher ele de carinho e ainda te devolver dormindo. — Eu nem conheço direito esses amigos teus... — E vai conhecer hoje. Tavão é meu irmão, e o Águia... bom, o Águia é meu n**o, né? Mas os dois são de boa. Vem só trocar uma ideia, dar umas risadas, dançar um pagodinho. Depois a gente volta, juro. Fiquei parada, ainda segurando a maçaneta da porta, sentindo aquele impulso de dizer não. Mas a verdade é que fazia tanto tempo que eu não era só "eu". Era sempre a mãe, a fugitiva, a sobrevivente. Nunca só a Yara. — Tu promete que me devolve viva, né? — Viva, inteira e com uma história boa pra contar! Vai dizer que tu não tá curiosa pra conhecer os caras? — Curiosa eu tô... — falei rindo, já pegando o vestido da mão dela. — Mas se der r**m, vou dizer que a culpa foi tua. — Pode jogar tudo nas minhas costas, bebê. Agora entra, toma um banho e bota esse vestido que eu quero te ver brilhando. Olhei pro Abel, que já tava no colchão com o suquinho na mão, e ele me olhou de volta como se entendesse tudo. — Vai lá, mainha. Eu fico com a mamãe da tia. — aquilo me desmontou. Beijei a testa dele e respirei fundo. Hoje, pelo menos hoje, eu ia viver um pouco fora do medo. — Vai lá tomar banho, mulher! Eu dou um jeito no pretinho aqui — Catarina falou, já tirando as sandálias e indo atrás do Abel que corria pelo chão da sala. — Tem certeza? Ele dá trabalho, viu? — perguntei, meio rindo, meio preocupada. — Yara... eu namoro o Águia, tu acha mesmo que eu vou ter medo de um menino de quatro anos? Vai logo! — respondeu tirando a camisa do Abel, que já tava todo empolgado com a ideia do banho. Enquanto eu entrei no quarto, ela já tava entrando no banheiro com ele, falando alto: — Vamos lavar esse pé preto, Abel? Que hoje tu vai dormir cheirosinho na casa da vovó! Ouvi a gargalhada dele misturada com o barulho da água. Aquele som encheu meu peito de um jeito bom. Fui me arrumando devagar, separando minha roupa e esticando em cima da cama. Depois fui até o espelho, respirei fundo e comecei a ajeitar o cabelo. Minutos depois, Catarina saiu do banheiro com o Abel enrolado na toalha, todo bochechudo e sorrindo. — Tá cheiroso, viu? Passei até colônia infantil. Vai dar trabalho pra vovó colocar pra dormir! — disse rindo enquanto colocava uma camisetinha limpa e um short nele. — Coloca a sandália dele aí dentro também, por favor — falei, entregando a mochilinha. Ela assentiu, colocando dentro a sandália, uma roupa extra, a mantinha azul dele e um pacote de biscoito. — Prontinho, meu amor. Agora vamos? Mamãe vai se arrumar enquanto a gente vai passear. — Mamãe vai no pagodi? — ele perguntou com os olhos brilhando. — Vou sim, mas volto logo, tá? E você vai conhecer a mãe da Catarina. — falei, dando um beijo na testa dele. Abel abraçou meu pescoço com força e cochichou: — Te amo, mainha. Meu coração quase escorregou pelos olhos, mas engoli a emoção e sorri, firme. — Também te amo, meu tesouro. Agora vai com a tia Catá. — Catarina piscou pra mim com um sorriso leve. — Meia hora, hein? Quero ver tu brilhando. — e saiu com ele no colo, mochila pendurada no ombro, como se fizesse parte da nossa rotina há anos. Fechei a porta devagar. Agora era só eu, meu reflexo e aquele vestido colorido me esperando na cama. Hoje... hoje eu ia viver um pouco. Só um pouco. Meia hora depois, o vestido rodava leve quando eu me mexia. Tinha algo nele que me fazia sentir... viva. Ajeitei o batom, passei os dedos pelo cabelo e, quando terminei de me olhar no espelho, ouvi a buzina lá fora. Desci com o coração dando pulos dentro do peito. Catarina estava na frente do carro com um sorriso animado e o celular na mão. — Eita, mulher! Tá linda, viu? Se prepara que hoje tu vai dançar até esquecer o nome! — Nem lembro a última vez que fui num pagode — confessei, rindo, entrando no carro. — Pois vai lembrar hoje. Os meninos tão de volta, e o clima vai tá daquele jeito. Meu namorado tá lá esperando. Assenti com a cabeça, tentando não demonstrar o nervoso que me subia. Era só uma noite de música, gente rindo, cerveja gelada e um som bom, eu me dizia. O lugar era uma quadra coberta, com decoração simples, mas bonita. O som do pagode estava no auge, a quadra cheia de gente sorrindo, dançando, bebendo. O ar cheirava a churrasquinho, cerveja gelada e alguma coisa prestes a acontecer. Eu tentava parecer tranquila, mas meu coração batia mais rápido do que o pandeiro na batucada. Catarina tava radiante, colada no namorado, o tal do Águia, e de vez em quando me lançava um sorriso cúmplice, como quem diz "se joga, mulher". — Vem cá, quero te apresentar direito — ela puxou meu braço de repente, com empolgação. — Pra quem? — perguntei meio sem entender, já sendo levada por ela no meio da multidão. — Pro Tavão... e pro chefe, o d***o. Eles tão ali. Eu travei por um segundo, mas já era tarde pra recuar. Caminhei com ela, sentindo o corpo todo em alerta, até que os vi. Dois homens de postura firme, encostados numa parte mais reservada da quadra. Um deles tinha um semblante mais leve, parecia simpático, devia ser o Tavão. O outro... O outro era ele. O mesmo que me estendeu a mão naquela noite no hotel. O mesmo olhar firme, sério, de quem enxerga tudo e não fala mais do que precisa. De perto, ele impunha respeito até no silêncio. Não tinha um gesto fora do lugar, mas ninguém ousava encostar sem ser chamado. Catarina parou na frente deles e abriu um sorriso. — Gente, essa aqui é a Yara, minha amiga baiana que tá morando ali na casa. Tava doida pra vocês conhecerem ela. — Seja bem-vinda. — Tavão respondeu com um sorriso tranquilo e um aceno educado. Já o d***o apenas me olhou. Um segundo inteiro de silêncio. Olhos nos olhos. Intenso, mas sem invadir. Era como se aquele olhar dissesse "eu lembro de você", mas sem precisar dizer nada. Eu mantive a postura, engoli seco e tentei sorrir. — Prazer. Ele respondeu com um leve movimento de cabeça. Não era um homem de muitas palavras, mas nem precisava. Todo mundo ao redor parecia perceber a tensão sutil no ar. — Tu é a do hotel, né? — ele disse, com a voz baixa e firme, como se aquilo fosse só entre nós dois, mesmo com mais gente por perto. — Eu... sou. — falei, sem desviar o olhar. Não tinha motivo pra mentir. Ele assentiu devagar, como quem confirma algo importante na própria mente. Mas não insistiu, não forçou nada. Apenas se virou, pegou o copo na mesa atrás dele e entregou pro Tavão. — Fica à vontade aí, Yara — foi só o que disse, antes de sair andando devagar pro outro lado do espaço reservado. Mas mesmo sem estar mais na minha frente, eu ainda sentia os olhos dele em mim. E pela primeira vez em muito tempo... não sabia se devia correr ou ficar. — Toma, bebe um pouco! — Catarina me estendeu um copo com um líquido meio alaranjado e cheiro doce. — É só pra dar uma soltada, tu tá muito travada, mulher. Aqui ninguém morde, não. Relutei um pouco, mas o calor, a música e aquela tensão que ainda morava no meu peito fizeram o gole escorrer mais fácil do que eu esperava. Veio outro, e mais um, e quando percebi já tava rindo de uma piada que nem entendi direito, com o corpo mais leve e o sorriso escapando mais fácil. — Melhorou, né? — Catarina piscou, dançando do meu lado. — Melhorou... — admiti, balançando a cabeça no ritmo da batida. As pernas já se moviam sozinhas, marcando o pagode como se fosse um instinto que eu tinha esquecido que existia. E é aquilo, né? Baiana já nasce com samba no pé. Comecei a dançar com Catarina, rindo à toa. Sentia a saia rodar nas minhas coxas, o cabelo preso escapar um pouco. Uma leveza que há tempos eu não sentia. Como se, por alguns minutos, eu tivesse esquecido tudo. Fugir, esconder, sobreviver... tudo ficou em segundo plano. Mas ele ainda estava lá. Sentado, encostado, copo na mão. Mas agora o olhar era direto. Não desviava. Não era vulgar, nem faminto — era... interessado. Um olhar cheio de silêncio, mas que gritava intenções. Dava pra sentir no ar. Dava pra saber que ele tava ali por mais do que só o pagode. Às vezes trocava uma palavra com o Tavão, ria de canto, mas voltava pra mim. E isso me deixava inquieta. Uma parte de mim queria desviar, queria fugir de novo. A outra... a outra queria saber até onde aquele olhar ia. — Tu tá chamando atenção, Yara. — Catarina falou no meu ouvido, com um sorriso malicioso. — Cala a boca, Catarina. — respondi, ainda rindo, mas meu rosto queimava. — Ele é assim mesmo. Fica só observando, mas quando decide... vixe. — ela sacudiu o ombro, empolgada, dançando de novo. Dei mais um gole, rindo. E pela primeira vez, eu deixei o olhar dele vir. Cruzei com o dele, firme. Por um segundo, ninguém dançou. O barulho sumiu. Só eu, ele... e o aviso mudo de que alguma coisa ali ia mudar. A música já tava no fim quando a Catarina apareceu de novo, rindo alto, dançando e balançando um copo de plástico na minha direção. — Bebe mais um gole, mulher! — disse ela, enfiando o copo na minha mão. — Tá animadinha, hein? Eu ri. Acho que tava mesmo. Já tinha tomado dois copos daquele treco misturado com energético e, pra quem não tava acostumada a beber, aquilo já era suficiente pra fazer o chão parecer mais leve e o som mais gostoso de ouvir. — É o último, juro — falei, levando o copo à boca. Ela só deu risada e puxou meu braço, me levando pra mais perto da roda. A galera dançava, ria alto, todo mundo meio junto, meio separado. Mas ele... ele continuava lá. O d***o. Sentado no canto, cercado dos caras dele, mas sozinho no jeito de estar. Quieto, observando tudo. E observando... eu. Eu sentia o olhar dele em mim como se fosse uma corrente elétrica passando pelas minhas costas. Tentei não olhar de volta. Fingi que não era comigo. Mas, quando virei o rosto, nossos olhos se encontraram. Foi rápido. Intenso. Um segundo, talvez nem isso. Mas o suficiente pra me desestabilizar. Desviei o olhar na hora, o coração disparado como se tivesse corrido. Meu corpo todo pareceu saber de alguma coisa que minha cabeça ainda não entendia. Respirei fundo, tentando disfarçar. Era só o álcool. Só a festa. Só... ele. Já era tarde quando a Catarina voltou dizendo que o Águia ia levar a gente. — Tô indo passar na minha mãe pra pegar o Abel. Ela falou que ele dormiu a noite toda. — Ela piscou, com aquele sorrisinho malandro, como se soubesse que a noite tinha mexido comigo. No carro, encostei a cabeça na janela. O vento batia no meu rosto quente e trazia de volta um pouco da sobriedade. Mas o pensamento nele não passava. Ele me viu. Me reconheceu! Mas não disse nada. Não veio até mim. Não fez cena. Só me olhou. E que olhar... não era vulgar, nem pesado. Mas era firme. Atento. Como se estivesse me lendo por dentro. E o pior é que alguma parte de mim respondeu. Como se reconhecesse ele também. — Tu gostou deles? — Catarina perguntou, me puxando de volta. — O Tavão é mais quieto, mas o 2M... menina, ele é um sarro. E o Diabo... só quem conhece sabe. Ele é fechado, mas tem um coração... Ela falava, mas minha cabeça já tava longe. Fingi um "ah é?" só pra não deixar no vácuo. Quando peguei o Abel e entrei em casa, o silêncio da madrugada me abraçou. Tirei os sapatos, soltei o cabelo, levei ele até o colchão. Dormia feito um anjinho, quentinho, cheiroso. Sentei ali na beira e fiquei olhando pro teto. Tinha algo naquela noite que eu sabia que não ia esquecer tão fácil. Nem se eu quisesse. E eu não sabia se queria.
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