Acordei com o som do despertador que não existia: o g**o do vizinho. Abel ainda dormia, com o rostinho afundado na coberta fina. Me levantei devagar, sem fazer barulho. Vesti a roupa escura que tinha separado, prendi o cabelo do jeito que deu, e me olhei no espelho rachado do banheiro.
— Vai com fé, mulher. Só mais um dia.
Preparei o lanche do Abel numa sacolinha: um pão com manteiga e um suquinho de caixinha que sobrou do dia anterior. Acordei ele com carinho, dando um beijinho na testa.
— Vamos, pretinho. Hoje você vai fazer amizade nova. — ele abriu os olhos com aquela carinha inchada e puxou meu pescoço num abraço.
— Você vai voltar?
— Sempre. Sempre volto pra você.
Desci com ele no colo até a casa da Jó. A mulher já tava varrendo a calçada.
— Chegou cedo, hein?
— A senhora disse que era pra trazer, eu trouxe. Obrigada de novo, viu?
— Relaxa, mulher. Vai trabalhar em paz que aqui ele vai tá bem.
Deixei Abel brincando com o filho dela, que parecia ter quase a mesma idade, e fui andando até a lanchonete da Dona Elza. O lugar era pequeno, mas arrumadinho. Tinha uma bancada de vidro com coxinha, empada, e um cheiro de café que tomava a rua inteira.
— Chegou cedo, isso é bom. Nome mesmo?
— Yara.
— Tá, Yara. Não gosto de lerdeza, nem de celular no bolso. Vai lavar a mão e botar a touca. A pia é ali.
— Sim, senhora.
— E me chama de Elza. Senhora é minha mãe.
Ela deu as costas e foi atender um cliente, enquanto eu amarrava a touca com o coração disparado. Era o primeiro emprego fixo em muito tempo. Eu não podia vacilar.
Fui aprendendo tudo na marra. Como cortar o pão na medida, como esquentar a chapa sem queimar o dedo, como bater o copo de vitamina sem deixar voar banana no teto. A Elza era braba, mas justa. Quando eu errava, ela mandava logo:
— Ó, assim não. Presta atenção. Mas tá indo bem.
Lá pras nove, o movimento apertou. Gente entrando, pedindo misto, suco, pastel, cafezinho com leite... e eu rodando que nem peão. Mas tinha uma coisa boa naquele caos: eu me sentia útil.
No meio da correria, um cliente ficou me encarando. Era um homem de uns trinta e poucos, camisa regata, boné virado pra trás. Tinha tatuagem no pescoço e um olhar meio debochado.
— É nova por aqui, né?
— Sou, sim. Vai querer o quê?
— Um sorriso já tava bom. Mas me vê um pastel de carne e um mate gelado. — não dei confiança. Entreguei o pedido sem dar brecha e voltei pro balcão. Elza riu de canto.
— Já chegou chamando atenção, hein?
— Não vim aqui pra isso, não.
— Eu percebi. E é por isso que gostei de tu.
O dia passou voando. Quando fui ver, já era quase duas da tarde. Elza me chamou no canto.
— Pode ir. Vai buscar teu menino. Amanhã mesmo horário. E ó, tá aqui teu trocadinho de hoje.
— Já?
— Trabalho feito, dinheiro na mão. É pouco, mas é digno. — olhei praquelas notas dobradas e tive vontade de chorar. Mas não podia. Segurei firme.
— Obrigada, Elza. De verdade.
— Vai, vai. Antes que eu me emocione também.
Peguei Abel na casa da Jó, ele veio todo suado, com a blusa suja de areia.
— Mainha, a tia me deu bolacha!
— E cê comeu todas, né? — ele deu risada. Voltamos pra casa com a sensação de vitória. Comprei arroz, ovo e banana. Tivemos nossa primeira refeição boa em dias.
A noite já tinha chegado fazia tempo. Abel dormia no colchão improvisado, respirando tranquilo, abraçado ao travesseiro que a Catarina tinha emprestado. Eu tava sentada no chão encostada na parede, com as pernas esticadas e os olhos grudados na porta. O lugar era silencioso, só dava pra ouvir de vez em quando o som distante da TV de algum vizinho e o vento lá fora batendo nos telhados.
Foi quando ouvi passos na escada e, segundos depois, três batidinhas suaves na porta. Me levantei com cuidado pra não acordar Abel e fui abrir. Era ela.
— Oi, Yara... — disse Catarina com um sorriso cansado, segurando uma sacolinha de mercado. — Desculpa mesmo não ter vindo de manhã. Eu fiquei presa no trabalho o dia todo e só consegui vir agora.
— Relaxa, tá tudo bem. — abri espaço pra ela entrar. — Eu imaginei que seu dia tinha sido corrido.
— Foi uma loucura. E ainda fiquei tentando falar com o Tavão pra resolver logo as coisas da casa, mas ele tá lá em Angra com o Águia e o povo todo, difícil de achar. — ela entrou devagar, olhando ao redor. — Como cês tão? Tudo certo por aqui?
— Dentro do possível, sim. Consegui um trampo hoje na lanchonete da dona Elza.
— Sério? Que notícia boa! — os olhos dela brilharam de alívio. — Eu tava torcendo tanto por isso. Ela é meio durona, mas justa.
— Foi puxado, mas no fim ela me pagou certinho. Comprei um pão de queijo pro Abel, ele ficou todo feliz.
— Awn, que bom, Yara. Fico tão feliz por vocês... — ela colocou a sacolinha na pia. — Trouxe umas coisinhas pra deixar aqui. Tem leite, café e uns biscoitinhos. Sei que é pouco, mas achei que podia ajudar até você se ajeitar melhor.
— Nossa, obrigada mesmo... você não precisava.
— Precisar, não precisava, mas eu quis. E se fosse o contrário, eu sei que você faria também. — ela sorriu, tirando o cabelo do rosto. — Tá se sentindo melhor?
— Um pouco mais tranquila. Ter um teto pra dormir já muda tudo, né?
— Com certeza. E, olha, qualquer coisa que você precisar, é só mandar recado por alguém. Eu tô sempre por aqui, minha mãe mora duas ruas abaixo, viu? Amanhã eu passo de novo se der, nem que seja rapidinho.
— Tá bom, obrigada. Você tá sendo um anjo mesmo.
— Anjo, nada. Só gente que sabe o quanto é difícil dar conta sozinha. E você tá se virando lindamente, Yara. De verdade.
A gente se olhou por um momento. Eu queria agradecer mais, mas as palavras não pareciam dar conta. Era difícil aceitar ajuda sem se sentir pequena, mas Catarina fazia isso parecer tão natural que até o peso da gratidão ficava mais leve.
— Bom, vou deixar vocês descansarem. — ela ajeitou a alça da bolsa no ombro. — Amanhã o dia começa cedo de novo, né?
— Começa. — sorri. — Mas pelo menos começa com alguma esperança.
— E isso já é meio caminho. Boa noite, Yara.
— Boa noite, Catarina. E obrigada... de novo.
Ela saiu com passos leves pela escada, deixando o cheiro leve de sabonete e o conforto de uma presença boa no ar. Fechei a porta com cuidado, olhei pro meu filho dormindo e senti, pela primeira vez em muito tempo, que talvez o mundo ainda tivesse um espaço pra gente.
O sol nem tinha nascido direito quando bati na porta da Jó com Abel no colo ainda meio dormindo. Ela abriu com aquele sorriso calmo de sempre, já de chinelo e cabelo preso no alto.
— Trouxe meu ajudante preferido? — ela brincou, abrindo espaço pra gente entrar.
— Trouxe sim, mas hoje ele vai é atrapalhar — falei rindo. — Tá com energia acumulada.
— Pode deixar que eu gasto tudo. Vai trabalhar tranquila, mulher. Ele fica bem aqui.
Me abaixei, dei um beijo no rosto gordinho do meu filho, que se ajeitou no sofá com um cobertor e um carrinho de brinquedo da própria Jó.
— Se comporta, viu? — falei baixinho.
— Sim, mamãe.
Agradeci de novo à Jó e saí apressada. A lanchonete da dona Elza abria às sete e eu ainda queria passar no mercadinho pra comprar um sabão em pó com o trocado que sobrou. Quando cheguei, a Elza já tava organizando as mesas e passando pano no balcão.
— Chegou cedo, gostei de ver — ela comentou, sem tirar os olhos do pano. — Bora ver se hoje você desenrola no caixa.
— Pode deixar, dona Elza.
O movimento começou devagar, com os trabalhadores do asfalto pegando café e pão na chapa. Eu fui pegando o jeito. Na terceira vez que alguém pagou com nota alta, consegui dar o troco direitinho sem gaguejar.
Mas foi perto das dez que a tranquilidade virou fumaça.
— Olha quem tá trabalhando igual gente agora — ouvi a voz estridente e debochada assim que me virei pra pegar uma garrafinha de água. — A fujona tá de avental!
Era a Raissa, encostada na porta da lanchonete com os braços cruzados e um sorriso que só queria confusão. Ela tava de short curto e uma blusinha colada, como se fosse pra uma festa.
— O que você quer, Raissa? — perguntei seca, sem querer dar papo.
— Nada não, só vim tomar um suco. Tô com calor — respondeu, entrando com aquele andar provocante. — E ver de perto se era verdade mesmo que você tava limpando chão por aqui.
Dona Elza olhou de canto de olho, desconfiada.
— Algum problema, moça? — ela perguntou direto.
— Que isso, dona Elza, tô só conversando com uma conhecida. — Raissa respondeu, se jogando numa cadeira perto do balcão. — Mas agora que tô aqui... será que tem um suco de maracujá? Tô nervosa hoje.
— A gente só tem laranja e acerola. — respondi, mantendo o rosto firme.
— Ah, então traz um de acerola... e me atende com um sorrisinho, né? Não é porque tá trabalhando que precisa parecer amargurada.
Segurei o copo com força e virei de costas pra buscar o suco. Contando até dez na cabeça. Eu não podia estragar a chance que tava tendo. Respirei fundo, voltei e coloquei o copo à frente dela.
— Aqui está.
— Obrigada, linda. — ela pegou o copo e olhou em volta. — Mas nossa... esse lugar podia ser mais limpinho, né? Tá precisando de alguém mais caprichosa.
Elza bufou do fundo.
— Aqui tá limpo, minha filha. Se quiser luxo vai pro shopping.
Raissa sorriu como se tivesse vencido alguma coisa. Terminou o suco em dois goles, bateu a moeda no balcão e se levantou.
— Foi ótimo, viu? Depois passo aqui de novo.
— Só se for pra comprar. — Elza respondeu seca, já indo limpar a mesa.
Ela saiu se rebolando, como se tivesse deixado alguma bomba atrás. Mas não. Só deixou uma raiva atravessada no meu peito. Elza veio até mim e falou baixinho:
— Conhecida sua, né?
— É... do tipo que a gente tenta esquecer.
— Pois esquece mesmo. Essa aí tem jeito de problema. E você tem mais o que fazer. Bora trabalhar, Yara. Vai dar certo, mas você tem que continuar focada.
— Pode deixar, dona Elza. — respondi, voltando pro balcão.
E voltei mesmo. Porque cada centavo daquele dia ia contar. E porque, mesmo com o mundo me provocando, eu sabia pra quem eu tava lutando: meu filho. Meu lar. Minha paz.
O relógio da parede marcava quase seis da tarde quando dona Elza deu o sinal.
— Pode ir, Yara. Hoje foi puxado, mas você deu conta direitinho.
— Obrigada, dona Elza. Amanhã tô aqui no mesmo horário.
Ela assentiu com a cabeça, já puxando a toalha pra limpar o balcão. Peguei minha bolsa simples, amarrei o cabelo num coque alto e saí com passos apressados, sentindo o corpo cansado, mas o coração um pouquinho mais leve.
O céu já tava ficando alaranjado, com aquele ventinho morno de fim de dia batendo no rosto. Eu andava pelo beco, desviando das crianças que corriam descalças, dos vendedores chamando pro churrasquinho e da música que vinha de alguma casa com o volume alto demais. Tudo fazia parte daquele novo cenário que, aos poucos, começava a me parecer familiar.
Cheguei na casa da Jó e bati de leve. Ela abriu sorrindo, com o avental sujo de farinha e um cheiro de bolo escapando pela porta.
— Olha quem chegou! O dono do seu coração tá aqui dentro, pintando até o chão.
— Pintando? — perguntei rindo.
Jó apontou pra sala e lá estava meu pretinho, com os dedinhos todos sujos de tinta guache, sentado no chão com um papelão na frente.
— Mainha! — ele gritou assim que me viu e veio correndo, tropeçando nos próprios pés. Me abaixei pra abraçar ele apertado.
— Sentiu saudade, foi?
— Sim! Mas a tia Jó me deu bolo — ele disse com a boca suja de chocolate.
— Desse jeito vai acabar preferindo ela — falei, rindo e olhando pra Jó com gratidão.
— Impossível, mulher. Mãe é mãe. — ela respondeu, limpando as mãos num pano.
— Obrigada, viu? De novo.
— Sempre que precisar. Vai com Deus.
Segurei a mãozinha do Abel e fomos caminhando devagar pelas vielas já começando a se encher de vozes, cheiro de comida e os primeiros sambas da noite. Ele pulava do meu lado, tagarelando tudo que tinha feito no dia, como se não parasse nem pra respirar.
E mesmo cansada, com os pés doendo e as incertezas martelando, eu só conseguia sorrir. Aquele era meu pedaço de felicidade. E por ele, eu continuaria todos os dias.