CORVO
A boca estava cheia de B.O.
Carregamento atrasado.
Contabilidade para conferir.
Dois homens discutindo por causa de dinheiro.
Uma cobrança que precisava ser resolvida.
E, para completar a merda...
O baile.
Encostei as costas na cadeira e passei a mão pelo rosto.
Cinco minutos.
Era tudo o que eu queria.
Cinco minutos sem alguém aparecer na minha frente trazendo algum problema.
Mas, aparentemente, aquilo era pedir demais.
— Então você está me dizendo que o carregamento ainda não chegou?
PH estava sentado na minha frente.
Cruzei os braços.
— Foi exatamente isso que eu disse.
— Mas o caminhão saiu ontem.
— Eu sei.
— Então deveria ter chegado.
— Também sei.
PH ficou em silêncio.
Olhei para ele.
— Está esperando o quê?
— Uma solução.
— Então pensa em uma.
Ele passou a mão pela nuca.
— Já mandei dois caras atrás.
— E?
— Nada.
— Então manda mais.
— Quantos?
— Quantos forem necessários.
PH assentiu.
— Beleza.
Peguei o celular que estava sobre a mesa.
— E a contabilidade?
— Está sendo fechada.
— Sendo fechada não significa fechada.
— Corvo...
Levantei os olhos.
Ele se calou.
Não precisei dizer mais nada.
Era assim que funcionava comigo.
Eu não gostava de repetir ordens.
Se eu precisava repetir...
Era porque alguém não tinha entendido.
E quem não entendia minhas ordens normalmente não permanecia muito tempo trabalhando para mim.
— Quero tudo pronto até amanhã.
PH assentiu.
— Vai estar.
— Espero.
Ele ficou alguns segundos em silêncio.
— Tem mais uma coisa.
Fechei os olhos.
— Claro que tem.
— O baile.
Abri os olhos novamente.
— O que tem?
— Preciso saber se vai aparecer.
— Por quê?
— Porque o pessoal está perguntando.
— E desde quando eu preciso avisar alguém quando vou ao meu próprio baile?
PH soltou uma risada.
— Não é isso.
— Então é o quê?
— Você sabe que quando aparece, muda tudo.
— Como assim?
— Todo mundo fica mais esperto.
— Melhor.
— E os caras de fora?
— Se aparecerem, vão embora.
PH assentiu.
— E as meninas?
Olhei para ele.
— Que meninas?
Ele abriu um sorriso.
— As que ficam esperando você aparecer.
— Problema delas.
— Você não vai pegar nenhuma?
— Talvez
— Você nunca foi o mesmo.
— Desde a Helena.
O ambiente mudou.
Meu olhar endureceu.
PH percebeu imediatamente.
— Foi m*l.
Não respondi.
Helena era um assunto encerrado.
Um assunto que ninguém tinha autorização para tocar.
Muito menos ele.
Voltei minha atenção para os papéis sobre a mesa.
— O baile vai acontecer.
PH assentiu.
— Então você vai?
— Eu não disse isso.
— Mas também não disse que não.
— PH.
— Tá bom.
Ele levantou as mãos.
— Já entendi.
Voltei a analisar os documentos.
Foi quando meu celular vibrou.
Olhei para a tela.
Mensagem de Geleia.
Abri.
"Patrão, a neta da dona Ana pediu teu contato."
Fiquei alguns segundos olhando para aquelas palavras.
A neta da dona Ana.
Ayla.
Um sorriso discreto apareceu no canto da minha boca.
— Que foi? — PH perguntou.
Bloqueei a tela.
— Nada.
— Você sorriu.
Olhei para ele.
— Não sorri.
— Está vendo coisa.
— Eu conheço você há anos.
— Então deveria saber que eu não sorrio.
PH riu.
— Justamente por isso.
Ignorei.
Peguei o celular novamente.
A mensagem de Geleia continuava ali.
Ayla queria meu contato.
Interessante.
Não consegui evitar a curiosidade.
Por que ela queria falar comigo?
Dona Ana estava bem?
Tinha acontecido alguma coisa?
Ou...
Seria apenas uma desculpa?
A última possibilidade fez meu sorriso voltar.
Talvez eu estivesse sendo convencido demais.
Mas eu era um homem vivido.
Não tinha chegado aos cinquenta anos sendo i****a.
Eu sabia observar.
E tinha observado Ayla.
Desde o primeiro momento em que a vi.
Ela tentou disfarçar.
Mas eu percebi.
O jeito como seus olhos percorreram meu corpo.
Primeiro meus braços.
Depois minhas mãos.
E, quando percebeu que eu estava olhando de volta...
Ela desviou.
Tarde demais.
Eu já tinha visto.
Ayla deveria ter uns vinte anos.
Era uma garota.
Mas não parecia uma garota.
Havia alguma coisa nela.
Uma segurança que não combinava com a pouca idade.
Ela falava olhando nos meus olhos.
Não abaixava a cabeça.
Não parecia impressionada por saber quem eu era.
E isso...
Isso era interessante.
Perigoso, talvez.
Porque mulheres que tinham medo de mim eram fáceis de entender.
Ayla não.
Ela era curiosa.
E curiosidade era uma coisa perigosa.
Principalmente quando estava direcionada para mim.
— Patrão?
Olhei para PH.
— O quê?
— Você vai responder o Geleia?
— Estou pensando.
— Sobre o quê?
— Nada que seja da sua conta.
PH abriu um sorriso.
— É sobre a neta da dona Ana?
Meu olhar ficou sério.
— Você está fazendo perguntas demais.
— Acertei.
— PH.
— Tá bom, já parei.
Peguei o celular.
Abri a conversa com Geleia.
"Manda ela deixar o número."
Enviei.
Alguns segundos depois, outra mensagem chegou.
"Ela já deixou."
Meu olhar ficou preso naquela frase.
Ela já tinha deixado.
Abri os contatos.
O número estava ali.
Ayla.
Salvei.
Simples.
Direto.
Sem pensar muito.
Ou talvez pensando mais do que deveria.
Fiquei olhando para o nome na tela.
Aquela garota tinha acabado de chegar ao morro.
E já tinha conseguido uma coisa que poucas pessoas tinham:
Meu número.
Ou melhor...
O meu contato.
Não era a mesma coisa.
Eu não entregava meu número para qualquer pessoa.
Muito menos para uma mulher que tinha acabado de conhecer.
Mas Ayla era diferente.
Eu ainda não sabia exatamente por quê.
Talvez fosse o jeito dela.
Talvez fosse a coragem.
Ou talvez fosse simplesmente o fato de que, depois de tantos anos, alguém tinha conseguido despertar minha curiosidade.
Abri o aplicativo de mensagens.
A foto de perfil dela apareceu.
Parei.
Porr@.
Ayla era gata pra c@ralho.
Na foto, ela estava sorrindo.
Um sorriso diferente daquele que tinha me dado pessoalmente.
Mais leve.
Mais espontâneo.
Fiquei olhando por alguns segundos.
Depois bloqueei o celular.
Que merd@ eu estava fazendo?
Eu não era homem de ficar admirando foto de mulher.
Muito menos de uma garota de vinte anos.
Eu tinha cinquenta.
Já tinha vivido muito.
Tinha conhecido mulheres suficientes para saber que nenhuma delas valia a pena perder o controle.
E eu não acreditava mais no amor.
Não depois de Helena.
Não depois de tudo que vivi.
Amor era fraqueza.
E eu não tinha espaço para fraquezas.
Principalmente no meu mundo.
Ayla não sabia disso.
Ainda.
Ela olhava para mim como se estivesse tentando descobrir quem eu era.
Mas eu também estava tentando descobrir quem ela era.
E isso era um problema.
Porque eu conhecia aquele olhar.
Já tinha visto antes.
Ayla estava curiosa.
E eu sabia que, cedo ou tarde, aquela curiosidade poderia levá-la para lugares perigosos.
Inclusive para perto demais de mim.
Meu celular vibrou novamente.
Era Geleia.
"Ela perguntou se pode falar com você."
Olhei para a mensagem.
Meus dedos ficaram parados sobre a tela.
Eu poderia simplesmente responder.
Poderia dizer para ela me ligar.
Poderia perguntar o que queria.
Mas alguma coisa me fez esperar.
Voltei para o celular.
Dessa vez, respondi.
"Pode falar."
Poucos segundos depois, uma nova mensagem apareceu.
"Ela quer saber se você pode mandar um carro para levar a dona Ana para casa."
Minha expressão mudou.
Então era isso.
Ayla queria meu contato por causa da avó.
Claro.
Digitei rapidamente.
"Manda o carro."
Depois de alguns segundos, acrescentei:
"E me avisa quando elas chegarem."
Enviei.
Bloqueei o celular.
Mas não consegui evitar.
Meus pensamentos voltaram para aquela garota.
Ayla.
A neta da dona Ana.
Vinte anos.
Olhar curioso.
Boca atrevida.
E uma coragem que ainda não sabia se era qualidade...
Ou problema.
Talvez os dois.