CAPÍTULO 6
AYLA
Minha primeira noite no Morro do Vidigal foi tranquila.
Para ser sincera, até mais tranquila do que eu imaginava.
Depois de todos os avisos dos meus pais, eu esperava ouvir tiros, gritos ou alguma confusão durante a madrugada. Mas não aconteceu nada disso.
O morro tinha seus próprios sons.
Motos passando pelas vielas.
Conversas vindas das casas vizinhas.
Uma música tocando ao longe.
Crianças brincando até mais tarde.
Era diferente da minha cidade, mas, de alguma forma, havia vida em cada canto.
Mesmo assim, demorei para conseguir dormir.
Fiquei deitada na cama improvisada que minha avó havia preparado para mim, olhando para o teto enquanto meus pensamentos não paravam.
Minha cabeça estava cheia.
Eu pensava na minha família.
Pensava na mudança.
Pensava em como seria minha vida dali para frente.
Mas, acima de tudo...
Pensava na minha avó.
Eu tinha vindo para cuidar dela.
Só que, agora que estava ali, percebi que talvez a situação fosse mais séria do que minha família tinha me contado.
Ela estava fraca.
Muito mais do que eu lembrava.
E aquilo me preocupava.
Virei de lado na cama.
Eu precisava descobrir o que realmente estava acontecendo.
Precisava saber quais eram os problemas de saúde dela e o que eu poderia fazer para ajudá-la a ficar bem novamente.
Minha avó sempre cuidou de todo mundo.
Agora era a minha vez de cuidar dela.
Lembrei que ela havia comentado sobre uma consulta no postinho no dia seguinte.
Talvez fosse a oportunidade perfeita para descobrir tudo.
Com esse pensamento, finalmente consegui fechar os olhos.
— Ayla?
A voz da minha avó me acordou.
Abri os olhos devagar.
— Hum?
— Está na hora.
Olhei para o relógio.
— Já?
— Você queria dormir até meio-dia?
— Eu poderia.
Minha avó riu.
— Preguiçosa.
— Estou de férias.
— Férias de quê?
— Da vida.
Ela balançou a cabeça.
— Anda, menina. Tenho consulta.
Levantei rapidamente.
Depois de me arrumar, ajudei minha avó a pegar a bolsa e saímos de casa.
A descida até o postinho foi mais lenta do que eu imaginava.
Minha avó caminhava devagar, apoiando-se em mim.
— Vó, você tem certeza de que consegue?
— Ayla, eu não estou inválida.
— Eu não disse isso.
— Está pensando.
— Estou preocupada.
Ela parou no meio da escada e me olhou.
— Eu sei.
Continuei segurando seu braço.
— Então deixa eu cuidar de você.
Minha avó suspirou.
— Você acabou de chegar e já quer mandar em mim.
— Alguém precisa mandar.
— Eu sou sua avó.
— E eu sou sua neta preferida.
Ela gargalhou.
— Quem te contou isso?
— Eu sei.
— Convencida.
Descemos mais alguns degraus.
Foi então que tive uma ideia.
— Vó?
— O quê?
— Aqui não tem Uber?
Minha avó parou.
Olhou para mim.
E começou a rir.
— O que foi?
— Uber?
— Sim.
— Você está falando sério?
— Ué.
Ela continuou rindo.
— Tem moto.
— Moto?
— É.
Olhei para as ruas.
— E se você estiver passando m*l? Vai de moto?
— Eu não estou passando m*l.
— Mas poderia.
— Ayla...
— Estou falando sério.
Minha avó balançou a cabeça.
— Se eu tivesse falado com o Corvo antes, ele mandava um carro para levar a gente.
Parei.
— O Corvo?
— Sim.
— Ele faz isso?
— Às vezes.
— Para você?
— Para mim e para outras pessoas daqui.
Fiquei em silêncio.
Então Corvo tinha um carro.
Claro que tinha.
Não sei por que aquela informação parecia tão óbvia e, ao mesmo tempo, despertava minha curiosidade.
— Mas por que você não falou com ele?
Minha avó fez uma careta.
— Esqueci.
— Vó!
— Acontece.
— Você poderia ter me avisado.
— Você acabou de chegar.
— Justamente por isso!
Ela riu.
— Da próxima vez, eu aviso.
— Espero mesmo.
Continuamos nossa caminhada.
Minha cabeça voltou para Corvo.
Era estranho.
Eu conhecia aquele homem havia pouquíssimo tempo, mas parecia que seu nome estava em todos os lugares.
As pessoas falavam dele.
Minha avó conhecia.
Os homens da entrada obedeciam às ordens dele.
E agora eu descobria que ele também ajudava os moradores.
Talvez existisse muito mais sobre aquele homem do que eu conseguia enxergar.
E eu queria saber.
Não porque estivesse interessada nele.
Era apenas curiosidade.
Pelo menos era o que eu dizia para mim mesma.
Quando finalmente chegamos ao postinho, minha avó foi atendida.
Esperei do lado de fora.
Os minutos pareciam não passar.
Eu estava inquieta.
Quando o médico finalmente chamou meu nome, entrei.
Minha avó estava sentada na maca.
O médico segurava alguns papéis.
— Você é a neta dela?
— Sou.
— Chegou quando?
— Ontem.
Ele assentiu.
— Sua avó precisa de acompanhamento.
Meu coração apertou.
— É grave?
— Não quero que você se assuste.
Essa frase nunca tranquilizava ninguém.
— Mas a pressão dela está ficando muito alta.
Olhei para minha avó.
Ela abaixou os olhos.
— Ela precisa tomar os medicamentos corretamente, controlar a alimentação e retornar para acompanhamento.
— Ela está tomando os remédios?
O médico olhou para minha avó.
Minha avó olhou para mim.
Silêncio.
— Vó?
— Às vezes eu esqueço.
Fechei os olhos.
— Às vezes?
— Ayla...
— A senhora não pode esquecer!
O médico tentou esconder um sorriso.
— É importante que alguém ajude a organizar os horários.
Assenti imediatamente.
— Eu vou fazer isso.
— E ela precisa evitar situações de estresse.
Olhei para minha avó.
— Ouviu?
— Ouvi.
— Nada de ficar subindo e descendo morro sozinha.
— Ayla.
— Estou falando sério.
Minha avó revirou os olhos.
O médico nos entregou as orientações e fomos embora.
Assim que saímos do postinho, respirei fundo.
Eu precisava colocar a vida da minha avó em ordem.
Medicamentos.
Alimentação.
Consultas.
Tudo.
— Você está brava comigo?
Olhei para ela.
— Não.
— Está sim.
— Estou preocupada.
Ela segurou minha mão.
— Eu vou ficar bem.
— Promete?
— Prometo.
Seguimos devagar pela rua.
Foi quando reconheci um rosto.
O homem que tinha me recebido na entrada do morro.
Ele estava parado perto de uma esquina.
— Ei!
Ele virou.
Quando me reconheceu, pareceu surpreso.
— Aí, mina.
Aproximei-me.
— Oi.
Minha avó ficou alguns passos atrás.
— Qual é o seu nome mesmo?
Ele sorriu.
— Geleia.
Franzi a testa.
— Geleia?
— É.
— Esse é seu nome?
— Apelido, né.
— Ah.
Olhei para os lados.
Depois voltei a encará-lo.
— Preciso falar com o Corvo.
O sorriso dele desapareceu.
— Com o Corvo?
— Sim.
— Pra quê?
— Preciso do contato dele.
Geleia me olhou de um jeito estranho.
— Qual é a fita, mina?
Cruzei os braços.
— Fita?
— É. Qual é o assunto?
Olhei rapidamente para minha avó.
Depois voltei para ele.
— É sobre ela.
Geleia ficou sério.
— Dona Ana?
— Sim.
Ele pareceu pensar por alguns segundos.
— O que aconteceu?
— Nada demais. Ela foi ao médico.
— E?
— A pressão dela está alta.
Geleia continuou me encarando.
— Eu preciso falar com o Corvo.
— Ele não dá o contato dele para qualquer um.
— Eu não sou qualquer uma.
As palavras escaparam.
Geleia arqueou a sobrancelha.
Eu mesma percebi o que tinha acabado de falar.
— Sou neta da Ana — completei rapidamente.
Ele soltou uma risada.
— Sei.
— Então?
Geleia pegou o celular.
Olhou para mim.
Depois para minha avó.
E novamente para mim.
— Vou ver o que consigo fazer.
— Obrigada.
Ele começou a digitar.
Meu coração bateu um pouco mais rápido.
Eu não sabia se Corvo iria me responder.
Mas, de repente, percebi uma coisa.
Eu tinha chegado ao Vidigal há apenas um dia.
E já estava tentando conseguir o número do homem mais perigoso daquele lugar.
Talvez meus pais realmente tivessem razão em se preocupar comigo.
Porque, pelo visto...
Eu estava começando a me aproximar demais do Rei do Morro.