Capítulo 1

1092 Words
Ayla Aos vinte anos, eu sempre soube quem era. E, principalmente, sempre soube o que queria da vida. Nunca fui dessas meninas que esperam alguém decidir por elas. Nunca gostei que me colocassem numa redoma de vidro ou agissem como se eu fosse incapaz de fazer minhas próprias escolhas. Sou uma mulher decidida. Quando coloco uma coisa na cabeça, dificilmente volto atrás. Talvez fosse exatamente por isso que eu estivesse sentada na rodoviária naquela manhã, observando o movimento frenético de pessoas indo e vindo, enquanto esperava o ônibus que mudaria completamente a minha vida. Destino: Rio de Janeiro. Mais especificamente... Morro do Vidigal. Cruzei as pernas e apoiei os cotovelos sobre a mochila. À minha volta havia crianças correndo pelos corredores, vendedores anunciando café e salgados, casais se despedindo entre abraços demorados e famílias inteiras tentando esconder a saudade antes mesmo da viagem começar. Cada pessoa ali carregava uma história. E eu carregava a minha. Meu destino não era uma viagem de férias. Também não era aventura. Eu estava indo cuidar da mulher mais importante da minha vida. Minha avó Ana. Há cerca de duas semanas, minha mãe recebeu uma ligação da vizinha dela. A voz da senhora do outro lado da linha denunciava preocupação. — A dona Ana anda muito fraquinha. Ela não quer admitir, mas está precisando de ajuda. A notícia caiu como um balde de água fria. Minha avó sempre foi o tipo de mulher que resolvia tudo sozinha. Forte, batalhadora e dona de um orgulho enorme. Era impossível convencê-la de que precisava descansar. Mas o tempo chega para todo mundo. Os joelhos já não sustentavam o mesmo ritmo de antes. A pressão vivia descontrolada. Ela esquecia de tomar os remédios. E insistia em dizer que estava tudo bem. Só que não estava. Ela precisava de alguém ao lado dela. Como meus irmãos tinham trabalho fixo e meus pais não podiam abandonar a própria rotina, sobrou para mim. A mais nova da família. E, infelizmente, a única desempregada naquele momento. Não encarei aquilo como um peso. Muito pelo contrário. Se existia alguém por quem eu atravessaria o país sem pensar duas vezes, essa pessoa era minha avó. Ela praticamente me criou. Enquanto meus pais trabalhavam o dia inteiro, era ela quem fazia meu almoço, me levava para a escola, penteava meu cabelo antes das festas juninas e passava horas ouvindo meus dramas adolescentes como se fossem os maiores problemas do mundo. Foi ela quem segurou minha mão quando tive minha primeira decepção. Quem me ensinou a cozinhar. Quem dizia que uma mulher nunca deveria depender de homem para ser feliz. E quem repetia, desde pequena: — Nunca abaixe a cabeça para ninguém, Ayla. Respeito se conquista, medo não. Talvez fosse por isso que eu nunca tivesse aprendido a sentir medo facilmente. Sorri sozinha ao lembrar dela. Mal podia esperar para abraçá-la. — Ainda dá tempo de desistir. A voz do meu pai interrompeu meus pensamentos. Olhei para ele e balancei a cabeça, divertida. — O senhor está falando sério? — Estou. — Pai... eu tenho vinte anos. — Continua sendo minha filha. Sorri. Ele cruzou os braços, tentando esconder a preocupação, mas bastava olhar para seu rosto para perceber que estava inquieto desde que saímos de casa. Minha mãe se aproximou logo em seguida segurando uma garrafa de água e uma sacola cheia de lanches. Conhecendo-a, provavelmente tinha comida suficiente para alimentar o ônibus inteiro. — Trouxe sanduíche, fruta, biscoito, barrinha de cereal... Ri. — Mãe... a viagem não vai durar uma semana. Ela ignorou completamente meu comentário. — E presta atenção no que eu vou falar. Lá vinha. — Não anda sozinha à noite. — Tá. — Não aceita carona. — Tá. — Não responde traficante. — Tá. — Não olha para ninguém. — Mãe... — Estou falando sério. Segurei o riso. — Eu também. Ela respirou fundo antes de continuar. — O Vidigal é diferente daqui. Meu pai completou: — Lá quem manda é o dono do morro. — E daí? Os dois me olharam ao mesmo tempo. — E daí que você tem que tomar cuidado. Revirei os olhos. — Vocês falam como se eu fosse uma garotinha indefesa. Minha mãe segurou meu rosto entre as mãos. — Para mim... você sempre vai ser. Suspirei. Pais tinham esse dom de transformar qualquer despedida em um drama mexicano. Como se eu estivesse indo para uma guerra. Como se todo traficante do Rio estivesse esperando especificamente pela minha chegada. Eu sabia me cuidar. Sempre soube. O aviso de embarque ecoou pelos alto-falantes. Meu coração acelerou. Era oficial. A viagem começaria. Meu pai pegou minha mala antes que eu pudesse protestar e caminhou ao meu lado até a plataforma. Minha mãe me abraçou tão forte que quase fiquei sem respirar. — Liga quando chegar. — Prometo. Ela enxugou discretamente uma lágrima. Meu pai passou a mão pelos meus cabelos e beijou minha testa. — Se acontecer qualquer coisa... — Eu volto. Ele assentiu. — Só quero você bem. Sorri para os dois. — Vai dar tudo certo. Respirei fundo e subi os degraus do ônibus. Não olhei para trás. Se olhasse, talvez perdesse a coragem. Encontrei minha poltrona ao lado da janela e acomodei minha mochila entre as pernas. Alguns minutos depois, o motor roncou. Devagar, o ônibus começou a deixar a rodoviária. Observei minha cidade ficando para trás. As ruas conhecidas. Os prédios. A praça onde brincava quando criança. Tudo parecia menor à medida que nos afastávamos. Senti um aperto estranho no peito. Era medo? Ansiedade? Ou apenas a sensação de estar fechando um capítulo da minha vida para começar outro completamente desconhecido? Coloquei os fones de ouvido e encostei a cabeça no vidro. Talvez aquele fosse exatamente o recomeço que eu precisava. Eu só não fazia ideia do quanto minha vida estava prestes a mudar. Porque, naquele mesmo instante... No alto do Morro do Vidigal, um homem encerrava uma reunião. Seu nome verdadeiro quase ninguém usava mais. Para todos, ele era apenas Corvo. O Rei do Morro. Aos cinquenta anos, comandava o Vidigal com mão de ferro. Respeitado pelos aliados. Temido pelos inimigos. Cruel quando precisava. Impiedoso quando o assunto era proteger o que era seu. Um homem que jamais imaginou voltar a dividir a vida com alguém. Muito menos perder o controle por causa de uma mulher. Enquanto eu seguia pela estrada sem imaginar o que me esperava... Corvo sequer fazia ideia de que uma garota de vinte anos estava prestes a atravessar o seu caminho. E, quando isso acontecesse... Nenhum dos dois sairia ileso.
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