AYLA
Assim que chegamos em casa, minha avó percebeu que havia alguma coisa diferente comigo.
Mal tirei as compras das sacolas e comecei a guardar tudo nos armários quando senti o olhar dela sobre mim.
— O que foi? — perguntou.
Continuei organizando os mantimentos.
— Nada.
— Ayla.
Sorri de lado.
— O quê?
— Você está calada demais.
Fechei a porta do armário.
— Estou cansada.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Mentira.
Olhei para ela.
— Como a senhora sabe?
— Porque eu te conheço desde que você nasceu.
Acabei rindo.
— Tá bom... talvez eu esteja pensando.
— No quê?
Respirei fundo.
— No baile.
Ela sorriu imediatamente.
— Sabia.
— Estou ansiosa.
— É normal.
Sentei ao lado dela no sofá.
— Faz muito tempo que não saio assim.
— Então aproveita.
— Eu vou.
Minha avó segurou minha mão.
— Você merece se divertir um pouco.
Assenti.
— Mas sem esquecer que vim cuidar da senhora.
Ela sorriu.
— Você já está cuidando de mim.
Abracei minha avó por alguns segundos.
Depois fui tomar banho e me deitei.
Mas dormir...
Era outra história.
Fechei os olhos.
E, sem querer, minha cabeça voltou para o mercado.
Para aquela mulher.
A tal "marmita" de quem Rafaela tinha falado.
Ela tinha me olhado como se estivesse tentando me intimidar.
Sorri sozinha.
Se ela realmente achava que eu abaixaria a cabeça...
Estava muito enganada.
Nunca fui do tipo que se encolhia diante de ninguém.
Muito menos diante de uma mulher que eu nem conhecia.
Se ela quisesse respeito...
Também teria que respeitar.
Com esse pensamento, finalmente consegui dormir.
Acordei cedo no dia seguinte.
O sol já iluminava a pequena sala da casa da minha avó.
Preparei café, organizei a cozinha e separei todos os remédios dela.
Anotei os horários em um papel e colei na geladeira.
— Agora não tem desculpa para esquecer — falei.
Minha avó colocou as mãos na cintura.
— Você mandando em mim de novo.
— Alguém precisa.
Ela riu.
— Você puxou sua mãe.
— Ainda bem.
Depois do café, lavei a louça, varri a casa e coloquei algumas roupas para lavar.
Minha avó observava tudo da cadeira na varanda.
— Você não para um minuto.
— Se eu parar, a casa para junto.
Ela balançou a cabeça, sorrindo.
O restante do dia passou rápido.
Quando o relógio marcou o início da noite, ouvi alguém bater no portão.
Nem precisei perguntar quem era.
— Deve ser a Rafaela! — gritou minha avó.
Abri a porta.
Ela entrou sorrindo, carregando uma bolsa enorme.
— Boa noite!
— Boa noite.
Olhei para a bolsa.
— Vai viajar?
Ela começou a rir.
— Não.
— Então por que trouxe metade do guarda-roupa?
— Porque hoje a gente vai ficar bonita.
Cruzei os braços.
— Eu já sou bonita.
Ela fingiu pensar.
— Tá... então hoje a gente vai ficar mais bonita ainda.
Acabei rindo.
— Entra logo.
Rafaela cumprimentou minha avó e colocou a bolsa sobre a cama.
Quando abriu o zíper, meus olhos arregalaram.
Maquiagens.
Escovas.
Perfumes.
Bijuterias.
Produtos para cabelo.
— Meu Deus...
— Eu falei que a gente ia se arrumar juntas.
— Você levou isso a sério.
— Muito.
Minha avó apareceu na porta.
— Quero ver vocês duas bem lindas.
— Vai ver — respondeu Rafaela.
As duas pareciam se conhecer há anos.
E era bonito ver aquele carinho.
Durante quase duas horas, Rafaela transformou meu quarto em um verdadeiro salão de beleza.
Enquanto arrumava meu cabelo, ela não parava de conversar.
— Hoje o baile vai estar lotado.
— Sempre fica assim?
— Quase sempre.
— Estou começando a ficar nervosa.
Ela sorriu.
— Não precisa.
— É muita gente.
— Relaxa.
— Fácil falar.
— Você vai comigo.
Assenti.
Ela terminou meu cabelo e virou a cadeira.
Olhei para o espelho.
Por alguns segundos, nem me reconheci.
Meu cabelo estava impecável.
A maquiagem destacava meus olhos.
O vestido valorizava meu corpo sem exageros.
Eu tinha realmente gostado do resultado.
— E aí?
Sorri.
— Ficou lindo.
— Eu disse.
— Agora é sua vez.
Pouco tempo depois, Rafaela também estava pronta.
Ela usava um vestido justo, salto alto e os cabelos soltos.
Nós duas nos olhamos.
Começamos a rir ao mesmo tempo.
— Estamos bonitas.
— Muito.
Saímos do quarto.
Minha avó levantou da cadeira devagar.
Quando nos viu, levou a mão ao peito.
— Nossa....
Olhei preocupada.
— Vó?
Ela sorriu emocionada.
— Vocês estão lindas.
Rafaela girou devagar.
— Gostou?
— Demais.
Minha avó olhou para mim.
— Minha neta parece uma princesa.
Senti meu rosto esquentar.
— Vó...
Ela segurou minhas mãos.
— Mas tomem cuidado.
Seu tom de voz ficou sério.
— Não quero vocês andando sozinhas.
— Pode deixar.
— Fiquem sempre juntas.
— Vamos ficar.
Ela me olhou nos olhos.
— E, se acontecer qualquer coisa...
— Eu volto na hora.
Ela sorriu.
Beijei sua testa.
— Prometo.
Assim que saímos de casa, percebi que a movimentação no morro era completamente diferente.
A música já podia ser ouvida de longe.
As vielas estavam cheias de gente caminhando na mesma direção.
Algumas crianças brincavam.
Casais passavam de mãos dadas.
Grupos de amigos riam alto.
Rafaela caminhava ao meu lado.
— Está preparada?
Respirei fundo.
— Acho que sim.
Ela sorriu.
— Vai dar tudo certo.
Descemos juntas.
E, pela primeira vez, senti que realmente fazia parte daquele lugar.
Durante o caminho, algumas pessoas nos cumprimentavam.
Outras apenas observavam.
Percebi alguns olhares discretos.
Outros nem tanto.
— Rafa...
— Hum?
— Eles estão olhando para a gente?
Ela deu uma rápida olhada ao redor.
Depois sorriu.
— Estão.
— Por quê?
— Porque você é novidade.
Revirei os olhos.
— Isso é estranho.
— Acostuma.
Continuamos andando.
Quanto mais nos aproximávamos do baile, maior ficava o movimento.
As luzes coloridas iluminavam a entrada.
A música fazia o chão vibrar.
Meu coração batia no mesmo ritmo.
Respirei fundo.
Era impossível não sentir a energia daquele lugar.
Quando atravessamos a entrada do baile...
Foi como se tudo diminuísse de velocidade.
Por um instante, tive a impressão de que dezenas de olhares se voltaram para nós.
Alguns homens interromperam a conversa.
Algumas mulheres nos observaram.
Senti Rafaela prender a respiração ao meu lado.
Mas eu...
Eu apenas levantei o rosto.
E sorri.
Não havia motivo para esconder quem eu era.
Gostei imediatamente do ambiente.
A música.
As pessoas.
A energia.
Era completamente diferente de tudo que eu já tinha vivido.
Meus olhos passeavam curiosos por cada detalhe.
As barracas.
Os grupos conversando.
Os casais dançando.
Os seguranças espalhados pelos cantos.
Até que...
Senti.
Aquele tipo de sensação que faz a pele arrepiar.
Como se alguém estivesse me observando.
Não era um olhar qualquer.
Era intenso.
Pes@do.
Domin@dor.
Levantei lentamente os olhos.
E encontrei.
Lá em cima.
Em uma espécie de camarote que dominava toda a visão do baile.
Ele.
Corvo.
Parado.
As mãos nos bolsos da calça.
O rosto sério.
Imponente como da primeira vez que o vi.
Mesmo distante, seus olhos estavam presos nos meus.
Não sorriam.
Não desviavam.
Apenas me observavam.
Meu coração acelerou.
Mas eu não abaixei a cabeça.
Continuei sustentando aquele olhar.
Era como se todo o barulho ao nosso redor desaparecesse.
Só existíamos nós dois.
Eu não sabia quanto tempo ficamos assim.
Alguns segundos.
Talvez mais.
Só sei que não desviei.
E, curiosamente...
Ele também não.
— Mulher...
A voz de Rafaela me trouxe de volta à realidade.
Ela acompanhou meu olhar até o camarote.
Seus olhos arregalaram.
Depois olhou para mim como se eu tivesse enlouquecido.
— Tu é doid@?
Olhei para ela.
Sorri de canto.
— Por quê?
Rafaela quase me sacudiu.
— Tu tá encarando o Corvo!
Olhei novamente para o camarote.
Ele continuava exatamente no mesmo lugar.
Me observando.
Voltei a encarar minha amiga.
— E daí?
Ela passou a mão na testa.
— Meu Deus...
Começou a rir de nervoso.
Continua.....