Ayla
Eu estava simplesmente amando o baile.
A música era contagiante, as pessoas pareciam esquecer dos problemas por algumas horas e viviam aquele momento como se fosse o único que existisse.
Agora eu entendia por que Rafaela insistiu tanto para que eu viesse.
Ela estava certa.
O Vidigal sabia fazer uma festa como ninguém.
— Eu falei que você ia gostar! — Rafaela gritou por causa do som alto.
Sorri.
— Você tinha razão!
Ela segurou minha mão e me puxou para mais perto da pista.
As luzes coloridas piscavam sem parar enquanto o grave fazia o chão vibrar.
Eu já nem lembrava que estava nervosa quando saí de casa.
Agora só queria aproveitar.
Foi então que o DJ trocou a música.
Assim que ouvi os primeiros acordes, meus olhos brilharam.
— Essa eu amo!
Rafaela começou a rir.
— Então dança!
Não precisei ouvir duas vezes.
🎵 "Perigosamente tu tá diferente... carinha de santa, só que mais pra frente..." 🎵
Fechei os olhos por alguns segundos e deixei a música tomar conta de mim.
Meu corpo começou a acompanhar o ritmo naturalmente.
Balancei os quadris.
Levantei os braços.
Sorri.
A batida parecia entrar pela minha pele.
Desci rebolando devagar, sentindo cada nota da música.
Naquele momento eu não pensava em mais nada.
Só existia a dança.
Só existia aquele instante.
Quando voltei a subir, meus olhos, quase por instinto, procuraram o camarote.
E ele continuava lá.
Corvo.
Parado exatamente onde estava antes.
Agora segurava um copo de bebida em uma das mãos.
O rosto continuava sério.
Imponente.
Mas havia uma diferença.
Ele continuava olhando apenas para mim.
Nem para a pista.
Nem para as pessoas.
Nem para os homens que estavam ao redor dele.
Os olhos dele permaneciam presos nos meus.
Meu coração acelerou.
Era impossível ignorar aquilo.
Sem pensar muito, continuei dançando.
Mas, dessa vez...
Para ele.
Sorri de canto.
Balancei os cabelos.
Rebolei lentamente.
Eu queria que ele me visse.
Queria descobrir até onde aquele homem conseguia manter a pose de durão.
Mesmo de longe, eu conseguia sentir o peso daquele olhar.
Era intenso.
Dominador.
Como se ele estivesse me analisando.
Como se estivesse tentando entender quem era a garota que não desviava os olhos dele.
E eu também queria entendê-lo.
Quem era, de verdade, o homem que todos chamavam de Rei do Morro?
Continuei dançando.
Sem medo.
Sem vergonha.
Até sentir duas mãos pousarem na minha cintura.
Meu corpo inteiro travou.
Não eram as mãos que eu queria.
Virei rapidamente.
Na minha frente havia um homem completamente bêbado.
Os olhos vermelhos.
O hálito forte de álcool.
A camisa aberta.
O sorriso nojento.
— Gostosa...
Meu estômago embrulhou.
Afastei suas mãos imediatamente.
— Me solta!
Ele deu um passo para frente.
— Calma aí...
— Eu falei pra me soltar!
Ele tentou segurar meu braço outra vez.
Meu sangue ferveu.
Empurrei o homem com força.
— Tá maluco?
Algumas pessoas começaram a olhar para nós.
Rafaela apareceu ao meu lado.
— Ayla!
O homem cambaleou por causa da bebida, mas voltou na minha direção.
— Só quero dançar...
— Eu não quero!
Ele sorriu de um jeito que me deu nojo.
— Vai querer...
Dei mais um passo para trás.
Foi quando senti alguém me puxar.
Duas mãos grandes.
Firmes.
Fortes.
Meu corpo foi levado para trás antes que eu entendesse o que estava acontecendo.
Quando levantei os olhos...
Era ele.
Corvo.
O rosto dele estava completamente fechado.
Os olhos escuros pareciam duas brasas.
Nunca vi alguém transmitir tanta autoridade apenas ficando em silêncio.
O homem bêbado parou na mesma hora.
Corvo deu um passo à frente.
Sem desviar os olhos dele.
Com um movimento rápido, puxou a pistola da cintura.
O clique da arma fez o baile inteiro parecer silenciar.
Ele apontou diretamente para o homem.
Sua voz saiu grave.
Fria.
Controlada.
— Vaza...
O bêbado arregalou os olhos.
Corvo deu mais um passo.
— Antes que eu te estoure.
Ninguém ousou respirar.
O homem levantou as mãos imediatamente.
— Foi m*l, chefe...
— Some da minha frente.
Dois homens apareceram correndo.
Seguraram o bêbado pelos braços.
— Bora!
— Tá maluco de mexer com ela?
— Quer morrer?
O sujeito foi praticamente arrastado dali, ainda tropeçando.
Em poucos segundos, a confusão havia terminado.
Mas ninguém voltou a dançar.
Todos olhavam para Corvo.
Ou para mim.
Ele guardou a arma na cintura lentamente.
Depois virou o rosto.
Seus olhos encontraram os meus.
Eu ainda estava tentando recuperar o fôlego.
Não consegui dizer uma única palavra.
Ele também não perguntou se eu estava bem.
Não perguntou se eu tinha me machucado.
Não perguntou absolutamente nada.
Apenas estendeu a mão.
Segurou meu pulso.
Com firmeza.
Meu coração ainda batia descompassado dentro do peito.
Eu respirava fundo, tentando entender tudo o que tinha acabado de acontecer.
Ao redor, o baile parecia ter perdido o som por alguns segundos. As pessoas cochichavam, algumas olhavam para mim, outras evitavam até encarar Corvo. O respeito que aquele homem impunha era assustador. Bastou ele aparecer para que ninguém ousasse contestar sua ordem.
Levantei os olhos mais uma vez.
Ele continuava me encarando.
Seu rosto permanecia fechado, sem demonstrar qualquer emoção, mas havia algo diferente naquele olhar. Era intenso. Dominador. Como se estivesse irritado por alguém ter colocado as mãos em mim.
Sem dizer uma única palavra, ele deu mais um passo na minha direção.
Meu corpo inteiro arrepiou.
Foi naquele instante que percebi que o homem mais temido do Vidigal estava perigosamente perto de mim.
— Vem comigo.
Não foi um convite.
Foi uma ordem.
Olhei para Rafaela.
Ela estava completamente imóvel.
Com os olhos arregalados.
— Rafa...
Ela apenas balançou a cabeça devagar, como se dissesse para eu ir.
Corvo já caminhava.
Eu praticamente fui arrastada atrás dele.
As pessoas abriam caminho imediatamente.
Ninguém ousava impedir sua passagem.
Ninguém sequer olhava diretamente para ele.
Enquanto tentava acompanhar seus passos, percebi uma coisa.
A mão dele continuava segurando meu pulso.
Firme.
Quente.
Possessiva.
Como se tivesse medo de que alguém ousasse chegar perto de mim outra vez.
Ou...
Como se, naquele momento...
Eu já fosse dele.