Corvo
Atravessei o baile sem olhar para ninguém.
Minha mão continuava firme no pulso dela.
A garota não reclamava.
Também não tentava se soltar.
Só acompanhava meus passos.
Os homens iam abrindo caminho assim que me viam.
Ninguém fazia perguntas.
Ninguém se metia.
Quando chegamos ao camarote, soltei o pulso dela e fechei a porta atrás de nós.
O som do baile ficou abafado.
O silêncio tomou conta do ambiente.
Virei de frente para ela.
Ayla me encarava como se nada tivesse acontecido.
Aquilo só aumentou minha irritação.
Passei a mão pelo rosto, respirando fundo.
— Que porr@ você tava fazendo, menina?
Ela cruzou os braços.
— Respira primeiro.
Cerrei a mandíbula.
— Responde.
Ela deu um passo na minha direção.
Depois outro.
Parou perto o bastante para eu sentir o perfume doce que ela usava.
— Ué...
Ela inclinou levemente a cabeça.
— Você não viu o que eu tava fazendo?
Continuei em silêncio.
Ela abriu um sorriso provocador.
— Aliás...
A voz dela saiu baixa.
— O que eu tava fazendo era exatamente pra você.
Por alguns segundos, eu simplesmente a encarei.
Ela tinha acabado de admitir aquilo?
Ayla sustentou meu olhar sem demonstrar um pingo de arrependimento.
Não abaixava a cabeça.
Não tremia.
Não desviava os olhos.
Sorriu outra vez.
Eu conhecia muita gente.
Conhecia mulheres que faziam de tudo para chamar minha atenção.
Mas aquela garota...
Ela fazia isso olhando dentro dos meus olhos.
E parecia gostar do perigo.
— Tá maluca? — perguntei, com a voz controlada.
Ela deu de ombros.
— Talvez.
— Você dançou pra mim.
— Dancei.
— Na frente de todo mundo.
— Dancei.
Passei a mão na barba.
Ela estava me testando.
E sabia exatamente disso.
— Você gosta de brincar com fogo?
Ela sorriu.
— Depende.
— Depende do quê?
— De quem tá segurando o fósforo.
Porr@...
A resposta fez um canto da minha boca quase se mover.
Quase.
Mas não sorri.
Há muitos anos eu não sorria.
Ayla percebeu.
— Quase sorriu.
— Não inventa.
— Eu vi.
— Viu errado.
Ela deu mais um passo.
Agora estávamos perto demais.
Qualquer pessoa que entrasse naquele camarote perceberia a tensão entre nós.
— E você? — ela perguntou.
— O que tem eu?
— Também tava me olhando.
— Eu olho tudo que acontece no meu baile.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Tudo?
— Tudo.
— Então viu que aquele i****a mexeu comigo.
Meu maxilar travou novamente.
Só de lembrar daquele sujeito colocando as mãos nela, senti a raiva voltar.
— Vi.
— E resolveu.
— Resolvi.
Ela inclinou a cabeça.
— Cuida mesmo do seu baile?
— Cuido.
— Tem certeza?
A pergunta saiu carregada de desafio.
Cruzei os braços.
— Tá duvidando de mim?
— Um pouquinho.
— Aquele cara não era daqui.
— Como sabe?
— Porque eu sei quem pisa no meu morro.
Ayla permaneceu me observando.
Como se tentasse enxergar alguma coisa além do homem que todos temiam.
— Você parece bravo.
— Eu tô.
— Comigo?
Respirei fundo.
Essa era a pergunta que eu estava tentando evitar desde que a puxei para o camarote.
— Com ele.
Ela sorriu de canto.
— Só com ele?
Não respondi.
Ela deu mais um passo.
Agora, se esticasse a mão, tocaria meu peito.
— Então por que me trouxe pra cá?
Olhei firme para ela.
— Pra conversar.
Ela soltou uma risadinha.
— Desse jeito?
— Foi o jeito que encontrei.
— Me arrastando?
— Foi.
Ela balançou a cabeça.
— Você é mandão.
— Sempre fui.
— Percebi.
O silêncio voltou.
Lá embaixo, a música continuava.
Mas ali dentro parecia existir outro mundo.
Só nós dois.
— Você não tem medo de mim? — perguntei.
Ela demorou alguns segundos para responder.
— Acho que não.
— Acho?
— Se tivesse medo, não tinha sustentado seu olhar lá embaixo.
A resposta acertou em cheio.
Era verdade.
Desde que colocou os pés no Vidigal, ela nunca desviou os olhos de mim.
Nem na entrada do morro.
Nem na casa da avó.
Nem no baile.
Ayla era diferente.
Perigosamente diferente.
— Você devia ter medo.
Ela sorriu.
— E você devia parar de me dar ordens.
— Não vou.
— Eu imaginei.
Cruzei os braços novamente.
— Você chegou ontem no morro.
— Cheguei.
— Ainda não conhece as regras daqui.
Ela respirou fundo.
— Então me ensina.
Franzi a testa.
— O quê?
— As regras.
— Não provoca homem bêbado.
Ela riu.
— Eu nem olhei pra ele.
— Mas ele olhou pra você.
— A culpa não é minha.
Droga.
Ela tinha razão.
Eu sabia disso.
Mesmo assim, a ideia de qualquer homem olhando para ela me incomodava mais do que deveria.
Muito mais.
— Escuta uma coisa, Ayla.
Ela levantou os olhos para mim.
— Enquanto você estiver no Vidigal, ninguém encosta em você sem sua permissão.
Meu tom saiu firme.
Era uma promessa.
Ela ficou me encarando por alguns instantes.
Depois perguntou baixinho:
— Isso vale pra todo mundo?
Assenti.
— Vale.
Ela sorriu lentamente.
— Inclusive pra você?
Fiquei completamente imóvel.
Pela primeira vez desde que entramos naquele camarote, não encontrei uma resposta imediata.
Ela sustentava meu olhar sem piscar.
Parecia esperar que eu reagisse.
Passei a mão pela barba, respirando fundo.
— Você gosta de me provocar, não gosta?
Ela sorriu daquele jeito que já estava começando a me tirar do sério.
— Acho que quem começou foi você.
Franzi a testa.
— Eu?
— Desde a hora que me viu , não tirou os olhos de mim.
Ela deu mais um passo.
Agora estávamos perto o suficiente para que eu sentisse sua respiração.
— Você percebeu?
— Percebi tudo.
A voz dela saiu calma, mas carregada de confiança.
— E, pelo visto... você também percebeu quando eu resolvi olhar de volta.
Ficamos em silêncio.
Nenhum de nós parecia disposto a recuar.
Era como se estivéssemos travando uma guerra invisível.
Quem desviasse primeiro...
Perderia.
Ela continuava me encarando.
E, pela primeira vez em muitos anos, senti que alguém tinha coragem suficiente para enfrentar Augusto Corvo sem baixar a cabeça.
Aquela garota não fazia ideia do perigo que corria.
Ou talvez soubesse...
E simplesmente não se importasse.
Inclinei um pouco o rosto, diminuindo ainda mais a distância entre nós.
— Você brinca demais, Ayla.
Ela sorriu.
— E você leva tudo a sério demais.
Balancei a cabeça lentamente.
— Você ainda vai me dar trabalho.
Ela cruzou os braços, divertida.
— Quem disse que eu quero facilitar?
Porr@.
Ela gostava de me desafiar.
E o pior...
Eu estava começando a gostar disso também.
Do lado de fora, o baile continuava.
Mas, dentro daquele camarote, eu já tinha entendido uma coisa.
Ayla não era como nenhuma outra mulher que já tinha cruzado o meu caminho.
Ela não me obedecia.
Não me temia.
Não fazia questão de me agradar.
Ela simplesmente era ela.
E isso era exatamente o que a tornava tão perigosa.
Porque, sem perceber...
A garota que acabara de chegar ao Vidigal já começava a derrubar algumas muralhas que passei décadas construindo ao redor do meu coração.