AYLA
O clima entre nós estava exatamente do jeito que eu gostava.
Tenso.
Provocante.
Nenhum dos dois parecia disposto a recuar.
Corvo continuava me encarando daquele jeito intenso, como se estivesse tentando descobrir até onde eu conseguiria ir.
E eu?
Eu estava adorando perceber que, pela primeira vez, aquele homem parecia ter ficado sem palavras.
Sorri.
— O que foi?
Ele continuou em silêncio.
— Perdeu a fala?
Corvo estreitou os olhos.
— Você fala demais.
— E você fala de menos.
— Talvez eu não tenha nada para falar.
— Tem certeza?
Ele abriu a boca para responder.
Mas, antes que qualquer palavra saísse...
Toc, toc.
Nós dois olhamos para a porta.
Franzi a testa.
Corvo permaneceu imóvel por alguns segundos.
Depois caminhou até ela.
Eu fiquei parada, observando.
Ele abriu.
E, assim que vi quem estava do outro lado, meu humor mudou completamente.
Era ela.
A mulher do mercado.
A tal marmita.
Ela olhou primeiro para mim.
Depois para Corvo.
E abriu um sorriso.
Não era um sorriso amigável.
Era aquele tipo de sorriso que dizia que ela sabia exatamente onde estava pisando.
— Oi, amor.
Meu estômago embrulhou.
Corvo fechou a expressão imediatamente.
— Que porr@ de amor, Cássia?
Ela pareceu surpresa com a reação dele, mas não perdeu o sorriso.
— Calma.
— O que você quer?
— Vim saber de você.
— Já sabe.
— Cheguei no baile e você não estava .
Ela colocou uma das mãos no braço dele.
— Vim atrás de você para curtir o baile com você.
Olhei para os dois.
Meu coração apertou.
Eu não tinha direito algum de sentir aquilo.
Nenhum.
Corvo não era meu namorado.
Não era meu marido.
Não era nada meu.
Eu tinha acabado de conhecê-lo.
Mas, ainda assim...
Aquela mulher ali, chamando ele de amor, conseguiu me deixar furiosa.
E eu odiava admitir isso.
Cássia finalmente olhou para mim novamente.
Dessa vez, seu sorriso aumentou.
Ela tinha percebido.
Percebido que me incomodara.
Aquilo me irritou ainda mais.
Corvo percebeu meu silêncio.
— Ayla...
Não deixei que ele terminasse.
Passei por ele.
De propósito.
Meu ombro bateu no dele.
Forte o suficiente para deixar claro que não tinha sido acidente.
Cássia me olhou.
Eu olhei de volta.
Ela sorriu.
Um sorriso debochado.
Vaca.
Não falei.
Mas pensei.
Parei por um segundo.
Olhei para Corvo.
Ele continuava me encarando.
Como se estivesse tentando entender o que estava acontecendo comigo.
— Boa noite — falei.
Minha voz saiu mais fria do que eu pretendia.
Virei as costas.
Desci as escadas do camarote sem esperar resposta.
Cada degrau parecia aumentar minha raiva.
Como eu tinha conseguido ficar incomodada daquele jeito?
Eu nem conhecia aquele homem direito.
Era absurdo.
Completamente absurdo.
Quando cheguei novamente ao baile, Rafaela me viu.
Ela estava conversando com algumas pessoas, mas imediatamente percebeu minha expressão.
— O que aconteceu?
— Nada.
— Ayla.
— Nada, Rafaela.
Ela me olhou dos pés à cabeça.
— Você está com cara de quem quer matar alguém.
— Estou ótima.
— Ótima?
— Perfeitamente.
Ela estreitou os olhos.
— O que o Corvo fez?
Parei.
— Nada.
— Então por que você está assim?
— Porque eu descobri que algumas pessoas são muito irritantes.
— Quem?
Olhei para o camarote.
Cássia ainda estava lá.
— Aquela mulher.
Rafaela seguiu meu olhar.
Assim que percebeu quem era, soltou um suspiro.
— Ah...
— Não fala nada.
— Eu nem falei.
— Mas ia falar.
— Ia.
— Então não fala.
Rafaela ficou alguns segundos em silêncio.
Depois se aproximou.
— Ela foi atrás dele?
— Foi.
— E falou alguma coisa?
— Chamou ele de amor.
Rafaela arregalou os olhos.
— Na sua frente?
— Na minha frente.
— E ele?
— Mandou ela parar com essa história de amor.
Rafaela pareceu surpresa.
— Sério?
— Sim.
— Então talvez...
— Não.
— Eu nem terminei.
— Não quero saber.
Ela me encarou.
— Você está com ciúmes.
— Não estou.
— Está.
— Não estou!
— Ayla...
— Eu só achei ridículo.
— Claro.
— E aquela mulher é insuportável.
— Também acho.
— Então pronto.
Rafaela segurou meu braço.
— Quer ir embora?
Olhei para ela como se tivesse acabado de ouvir a coisa mais absurda do mundo.
— Embora?
— Sim.
Olhei novamente para o baile.
A música estava alta.
As pessoas dançavam.
As luzes coloridas iluminavam tudo.
Eu tinha acabado de chegar.
Não iria deixar uma mulher estragar minha noite.
Muito menos um homem.
Respirei fundo.
— Não.
— Não?
— Eu vou ficar.
Rafaela sorriu.
— Essa é a minha garota.
— Se ela acha que vai me fazer ir embora...
Dei um sorriso.
— Está muito enganada.
— Então vamos dançar.
— Vamos.
Rafaela segurou minha mão e me puxou para o meio da pista.
A música mudou.
O grave voltou a tomar conta do ambiente.
Dessa vez, eu não queria pensar.
Não queria lembrar de Cássia.
Não queria pensar em Corvo.
Não queria pensar em nada.
Só queria aproveitar.
Comecei a dançar.
Rafaela dançava ao meu lado, rindo.
— Isso!
Sorri.
— Eu vim para me divertir!
— Então se diverte!
E eu me diverti.
Dancei como se ninguém estivesse olhando.
Como se não existisse amanhã.
Como se aquele baile fosse meu.
E, principalmente, como se eu não tivesse acabado de descobrir que o homem que havia conseguido prender minha atenção tinha uma mulher atrás dele.
Eu não seria aquela garota.
Não iria ficar choramingando.
Não iria embora.
Não iria abaixar a cabeça.
Eu tinha vinte anos.
Era dona das minhas escolhas.
E se Cássia queria jogar aquele jogo...
Ela tinha escolhido a pessoa errada para provocar.
— Ayla! — Rafaela gritou.
— O quê?
— Você está sorrindo!
— E daí?
— Nada.
Ela começou a rir.
— É que você estava quase arrancando a cabeça daquela mulher há cinco minutos.
— Esquece ela.
— Esqueceu?
— Já.
Mentira.
Eu ainda pensava nela.
Mas não deixaria aquilo controlar minha noite.
Olhei para cima novamente.
O camarote continuava no mesmo lugar.
Corvo estava lá.
E, dessa vez, eu não procurei por ele.
Não iria dar esse gosto.
Continuei dançando.
Mas, alguns minutos depois, não resisti.
Levantei os olhos.
Ele estava olhando para mim.
Novamente.
Só que agora havia algo diferente em sua expressão.
Ele não parecia indiferente.
Também não parecia tranquilo.
Parecia irritado.
Muito irritado.
Talvez porque eu estivesse dançando.
Talvez porque eu tivesse descido sem dizer nada.
Talvez porque estivesse me vendo aproveitar o baile.
Desviei o olhar.
Sorri.
Se ele queria brincar de provocar...
Eu também sabia jogar.
Rafaela percebeu.
— Você está fazendo isso de propósito.
— Fazendo o quê?
— Dançando para ele.
— Não estou.
— Ayla.
— Estou dançando para mim.
Ela começou a rir.
— Claro.
Continuei dançando.
E, naquele momento, tomei uma decisão.
Eu não deixaria ninguém estragar aquela noite.
Nem Cássia.
Nem Corvo.
Nem ninguém.
Eu tinha vindo ao baile para conhecer o lugar, me divertir e viver uma experiência nova.
Então era exatamente isso que eu faria.
Aquela mulher podia se achar importante.
Podia chamar Corvo de amor.
Podia até tentar me provocar.
Mas uma coisa ela ainda não sabia sobre mim.
Eu não desistia facilmente.
E, se ela achava que eu iria abaixar a cabeça...
Estava muito enganada.
Levantei o rosto, sorri e voltei a dançar.
Naquela noite, eu aproveitaria o baile como se não houvesse amanhã.
Ou eu não me chamava Ayla.