Capítulo 18

1091 Words
Ayla Acordei tarde. Muito mais tarde do que eu pretendia. Abri os olhos devagar e fiquei alguns segundos olhando para o teto, tentando lembrar que dia era. Então a lembrança da noite anterior voltou de uma vez. O baile. Rafaela. A música. E Corvo. Fechei os olhos novamente por alguns segundos. — Meu Deus... Eu ainda estava pensando naquele homem. Levantei da cama, prendi o cabelo de qualquer jeito e fui direto para a cozinha. Assim que entrei, encontrei minha avó sentada à mesa. Ela estava com o celular nas mãos e uma expressão divertida no rosto. — Bom dia, dorminhoca. — Bom dia, vó. Peguei um copo de água e bebi de uma vez. Minha avó continuava mexendo no celular. Então levantou os olhos para mim e soltou uma risadinha. — Eita... Franzi a testa. — O quê? — Que você já deu assunto no grupo de fofoca do morro. Quase engasguei com a água. — O quê? Ela começou a rir. — Você não sabe? — Vó, o que você tá fazendo nesse grupo? Ela deu de ombros, como se fosse a coisa mais normal do mundo. — Ué, menina b***a. Querendo saber das fofocas. Fiquei olhando para ela por alguns segundos. Depois comecei a rir. — Eu sempre soube que você é uma fofoqueira! — Eu? — A senhora mesma! — Eu só gosto de ficar informada. — Informada? — Claro. Ela voltou a olhar para o celular. — Aqui a gente fica sabendo de tudo. — Meu Deus... Sentei na cadeira ao lado dela. — Mas me conta. Ela sorriu. — O quê? — O que estão falando de mim? Minha avó levantou uma sobrancelha. — Tem certeza que quer saber? — Claro. — Depois não diga que eu não avisei. — Vó! Ela começou a rir. — Estão falando que o Corvo te protegeu no baile. Meu coração deu um pulo. Tentei disfarçar. — Ah... — E não é só isso. — O que mais? Ela virou o celular na minha direção. — Estão dizendo que depois ele te levou para o camarote. Fiquei alguns segundos em silêncio. — O quê? — Isso mesmo. — Quem está falando isso? — O grupo inteiro parece saber. Passei a mão pelo rosto. — Meu Deus. Minha avó começou a rir. — Eu quero saber o que aconteceu. — Não aconteceu nada. Ela estreitou os olhos. — Ayla. — Vó. — Você acha que eu não conheço essa cara? — Que cara? — Essa cara de quem está escondendo alguma coisa. — Eu não estou escondendo nada. — Então conta. Respirei fundo. Talvez fosse melhor contar antes que minha avó inventasse uma história ainda maior. — Tá bom. Ela colocou o celular sobre a mesa e se inclinou para frente. — Estou ouvindo. — Eu estava dançando. — Isso eu já sei. — E um homem bêbado veio mexer comigo. O sorriso dela desapareceu. — Ele fez alguma coisa? — Só colocou as mãos em mim. — E o Corvo viu? Assenti. — Viu. — E aí? — Ele apareceu. — Como? — Simplesmente apareceu. — E fez o quê? — Mandou o homem sair. Minha avó ficou séria. — Ainda bem. — Depois ele me arrastou para o camarote. Ela arregalou os olhos. — Arrastou? — Sim . — E você foi? — Fui. — Sozinha? — Rafaela estava lá embaixo. Minha avó me observava atentamente. — E o que aconteceu no camarote? Sorri. — Nada demais. — Ayla. — Vó! — Você está vermelha. Passei a mão pelo rosto. — Está calor. Ela caiu na gargalhada. — Sei. — Nós só conversamos. — Conversaram sobre o quê? — Sobre o baile. — Só? Pensei por alguns segundos. — Sobre ele ter me protegido ,disfarçei . — E? — Sobre as regras do morro. — E? — Sobre eu não ter medo dele. Minha avó ficou em silêncio. — Você realmente não tem medo dele? Parei de sorrir. A pergunta parecia simples. Mas eu não sabia responder. — Não sei. — Ayla... — Ele é perigoso, vó. Eu sei disso. — Então tenha cuidado. Assenti. — Eu vou. Minha avó pegou novamente o celular. — Porque tem outra coisa aqui. — O quê? Ela começou a ler. — Estão dizendo que você ficou olhando para ele durante o baile. Meu rosto esquentou. — Mentira. — É verdade? — Talvez. Ela riu. — Eu sabia! — Vó! — Minha neta está interessada no Rei do Morro. — Para com isso! Ela gargalhou. — Eu só estou brincando. — Pois não brinca. Minha avó me olhou com carinho. — Só quero que você seja feliz. Aquelas palavras me fizeram sorrir. — Eu também. Fiquei alguns segundos em silêncio. Depois peguei uma fruta sobre a mesa. — Mas essa fofoca está exagerando. — O quê? — Estão fazendo parecer que aconteceu alguma coisa entre nós. — E aconteceu? — Não. Minha avó sorriu. — Ainda. Olhei para ela. — Vó! Ela começou a rir novamente. — Estou apenas dizendo. Revirei os olhos. — Essa sua geração... — Minha geração sabe das coisas. — Sabe fofocar, isso sim. Ela levantou o celular. — E você deveria agradecer. Aqui todo mundo sabe quem cuida de quem. — Como assim? Ela ficou séria novamente. — O Corvo tem muito respeito por mim. — Eu percebi. — Ele sempre ajudou quando precisei. Fiquei curiosa. — Por isso ele mandou aquele carro? — Provavelmente. — Então ele já conhecia a senhora há muito tempo? — Conhecia. — E por que nunca me contou sobre ele? Ela deu de ombros. — Porque nunca precisou. Fiquei pensativa. Talvez existisse muito mais naquela história do que eu imaginava. E, pela primeira vez, percebi que minha chegada ao Vidigal poderia me revelar muito mais do que apenas um novo lugar para morar. Talvez minha avó soubesse mais sobre Corvo do que eu imaginava. E eu precisava descobrir. Peguei meu celular sobre a mesa. Uma parte de mim queria perguntar diretamente sobre ele. Outra parte dizia para deixar aquilo quieto. Mas a curiosidade venceu. Eu queria saber mais. Muito mais. Principalmente depois daquela noite. Minha avó voltou a mexer no celular e começou a rir novamente. — O que foi agora? — perguntei. Ela olhou para mim. — Tem mais uma fofoca. — Sobre mim? — Sobre você e o Corvo. Suspirei. — Meu Deus... Ela virou a tela para mim. E naquele momento percebi que minha chegada ao Vidigal já tinha virado assunto. E, pelo jeito... Aquilo estava apenas começando.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD