Capítulo 17

1046 Words
Ayla Quando finalmente saímos do baile, o céu já começava a clarear. Eu nem tinha percebido quanto tempo havia passado. Parecia que tínhamos acabado de chegar, mas a noite inteira já tinha ficado para trás. Rafaela caminhava ao meu lado, ainda animada, falando sem parar. — Essa noite foi maravilhosa! Olhei para ela e comecei a rir. — Você já falou isso umas dez vezes. — E vou falar mais dez. — Você realmente gostou. — Muito! Ela segurou meu braço enquanto caminhávamos. — Eu sabia que você ia gostar do baile. Olhei ao redor. O morro começava a despertar. Algumas pessoas ainda voltavam para casa. Outras já estavam começando a trabalhar. O movimento era completamente diferente daquele que eu tinha visto algumas horas antes. Durante a noite, tudo parecia festa. Agora, o Vidigal mostrava outro lado. Pessoas abrindo seus comércios. Moradores conversando nas portas. Crianças começando a aparecer pelas vielas. Era estranho. Eu tinha chegado ali há pouco tempo. Mesmo assim, alguma coisa naquele lugar já começava a parecer familiar. Talvez fosse cedo demais para dizer aquilo. Mas eu já podia afirmar uma coisa: Eu tinha encontrado meu lugar preferido no morro. O baile. Sorri sozinha. Rafaela percebeu. — Tá pensando no quê? — No baile. — Eu sabia! — Foi divertido. — Divertido? Ayla, você quase virou a atração principal daquela noite. — Para de exagerar. — Eu estou falando sério. Ela começou a rir. — Você chegou ontem e já estava dançando como se conhecesse todo mundo. — Eu só estava aproveitando. — E aquele olhar para o camarote? Meu sorriso desapareceu por um segundo. — Que olhar? Rafaela me encarou. — Não se faz de sonsa. Continuei andando. — Não sei do que você está falando. — Corvo. Meu coração deu uma pequena acelerada só de ouvir o nome. Fingi tranquilidade. — O que tem ele? — Você sabe. Olhei para frente. — Não sei. Rafaela soltou uma risada. — Você passou boa parte da noite olhando para ele. — Ele também estava olhando para mim. — Exatamente. Fiquei em silêncio. Era verdade. Durante boa parte da noite, nossos olhares tinham se encontrado. E, por mais que eu tentasse fingir que não significava nada... Significava. Eu sentia aquele olhar sobre mim. Intenso. Pesado. Diferente. Não era um olhar comum. Era como se Corvo conseguisse me enxergar mesmo no meio de centenas de pessoas. E eu gostava disso. Talvez mais do que deveria. Antes de sair do baile, não consegui evitar. Olhei novamente para cima. O camarote estava lá. Mas ele não estava mais. Meu olhar percorreu o lugar, procurando por ele. Nada. Corvo tinha desaparecido. Não sabia por quê, mas senti uma pequena decepção. Talvez eu tivesse esperado vê-lo uma última vez. Talvez quisesse descobrir se ele ainda estaria olhando. — Procurando alguém? A voz de Rafaela me fez voltar para a realidade. — Não. — Ayla... — Vamos embora. Ela riu. — Tá bom. Continuamos nosso caminho. Mas minha cabeça continuava naquele camarote. Naquele olhar. Naquele homem. Eu ainda não sabia quase nada sobre Corvo. Sabia que todos o respeitavam. Que ele era perigoso. Que tinha autoridade naquele lugar. Que ninguém parecia disposto a enfrentá-lo. E, mesmo assim... Eu queria saber mais. Muito mais. Talvez fosse loucura. Provavelmente era. Mas havia alguma coisa naquele homem que me chamava. Não sabia explicar. Era a voz. O jeito sério. A forma como ele me olhava. A maneira como todos mudavam de comportamento quando ele aparecia. E, principalmente, o fato de ele parecer tão diferente comigo. Eu não sabia se aquilo era bom ou r**m. Só sabia que queria descobrir. Chegamos finalmente à minha casa. Abri o portão devagar para não fazer barulho. Rafaela se despediu. — Amanhã a gente se fala. — Claro. — E vê se dorme. — Vou tentar. Ela riu. — Depois de uma noite dessas? — Estou morta de cansada. — Boa noite, Ayla. — Boa noite. Entrei em casa e fechei o portão. A primeira coisa que fiz foi conferir minha avó. Caminhei até o quarto e abri a porta devagar. Ela estava dormindo tranquilamente. Respirei aliviada. Aproximei-me da cama e ajeitei o cobertor sobre ela. — Dorme bem, vó. Ela nem se mexeu. Fiquei alguns segundos observando seu rosto. Depois saí silenciosamente. Eu estava exausta. Meu corpo inteiro pedia cama. Tomei um banho e fui até o quarto. Quando me deitei, afundei a cabeça no travesseiro. Fechei os olhos. Mas meu cérebro parecia não querer desligar. A música do baile ainda estava na minha cabeça. As risadas. As luzes. As pessoas. Rafaela. E ele. Corvo. Abri os olhos novamente. — Que loucura... Falei sozinha. Eu tinha acabado de chegar ao Vidigal. Minha preocupação deveria ser minha avó. Minha adaptação. Minha nova rotina. Mas, de alguma maneira, aquele homem já tinha conseguido ocupar um espaço enorme nos meus pensamentos. Virei para o lado. Fechei os olhos outra vez. Lembrei do momento em que nossos olhares se encontraram. Do jeito como ele ficou parado no camarote. Do jeito que veio me defender Do copo de bebida em sua mão. Daquela expressão impossível de decifrar. E, principalmente, de como eu tinha dançado sabendo que ele estava olhando. Um sorriso apareceu involuntariamente no meu rosto. Eu queria que ele me visse. E ele tinha visto. Isso era o mais perigoso. Porque eu queria mais. Não sabia exatamente o quê. Talvez mais olhares. Mais provocações. Mais conversas. Talvez apenas descobrir quem era aquele homem por trás do apelido. Mas uma coisa eu já sabia. Corvo tinha despertado minha curiosidade. E eu não era boa em deixar uma curiosidade sem resposta. Respirei fundo. — Isso ainda vai dar problema. Sorri sozinha. Talvez fosse apenas uma atração passageira. Ou talvez fosse o começo de alguma coisa que eu ainda nem conseguia imaginar. Mas, naquele momento, eu não queria pensar nas consequências. Só queria dormir. Minha avó estava bem. Eu tinha vivido uma noite incrível. E, pela primeira vez desde que cheguei ao Rio, senti que aquele lugar poderia realmente se tornar minha casa. Fechei os olhos. O sono finalmente começou a chegar. Mas, antes de dormir completamente, uma última imagem passou pela minha cabeça. Os olhos de Corvo sobre mim. Intensos. Firmes. Impossíveis de esquecer. Sorri. E dessa vez, deixei o sono me levar.
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