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Arthur não conseguiu dormir na noite anterior. Tudo que tinha acontecido durante a manhã daquele domingo, se passava na sua cabeça como uma cena de filme, um filme de terror. As horas pareciam se arrastar e quanto mais se aproximava dele ter a certeza de que ele e Júlia foram drogados a sua ansiedade aumentava. E tudo piorava quando ele começava a ter flashes da noite que passou com ela.
Toda a juventude dele foi lembrada por ele. Desde que conheceu Marcos no aniversário da sua avó, que era amiga da família dele, até o dia em que conheceram Júlia no colegial. Ela era a garota mais linda de toda escola e foi amor à primeira vista. A garota de cabelos ruivos e lisos, que deslizava por suas costas, chamava a atenção de todos e ainda mais a dele, que se apaixonou perdidamente. Ele queria se aproximar, queria falar de seus sentimentos e por um tempo guardou aquilo apenas para si e no dia que decidiu se declarar para ela, seu amigo lhe informou que a garota que ele amava em segredo, tinha aceitado o seu pedido de namoro. Ele sentiu que dali em diante ele teria que amá-la em segredo ou simplesmente esquecer e destruir aquele sentimento dentro de seu coração, mas não conseguiu, cada dia seu amor por ela se tornava maior e o que sentia já não podia ser controlado e guardou seus sentimentos, sofrendo por ver a mulher que amava com outro homem.
Arthur foi testemunha de declarações de amor entre os dois, via os dois se divertirem, também viu os dois serem a atração da festa de formatura. Ele ouviu Marcos falar como foi a primeira vez dos dois, enquanto desejava ser ele no lugar do amigo, ouviu ele fazendo planos de casamento e futuro com ela e quantos filhos queriam ter, onde ele era sempre citado como padrinho de seus futuros filhos. Também foi Arthur que o acompanhou para comprar o anel de noivado e depois do pedido, ainda se viu obrigado a aceitar ser o padrinho de casamento dos dois. Ele teria que testemunhar a menina que ele viu crescer e se tornar uma grande mulher, casar-se com o seu melhor amigo, e além de sofrer vendo tudo isso acontecer, Arthur ainda tinha o ódio de Júlia, o qual ele sequer sabia o motivo e nem mesmo tentou descobrir o motivo que a levou sentir tanta raiva dele.
— Você está indo pegar o resultado do teste? — Diana perguntou, encontrando o filho no corredor que dava acesso aos quartos.
— Sim, eu preciso limpar a reputação da Júlia, nós não ficamos juntos por vontade própria. Na verdade, a Júlia jamais ficaria comigo, mãe. — Falou com uma voz triste.
— Eu queria poder tirar de você toda essa dor que está sentindo. Como mãe, eu sofro junto com você, sei que não é fácil amar e não ser correspondido. — Diana falou, segurando a mão do filho.
— Você já sofreu por amar alguém e que não foi correspondida, mãe? — Perguntou surpreso.
— Quem nunca sofreu por amor? Eu já fui jovem também, Tutu. Mas assim como você eu não conheço ninguém. Você continuou amando a Júlia durante todos esses anos, mesmo sem nunca ter tocado nela e esse tipo de amor, eu confesso que eu nunca vi, mas acredito que seja o amor que a gente leva para a eternidade. — Revelou.
— Mãe, eu morrerei amando a Júlia, nunca irei casar, eu não posso enganar uma mulher, sendo que eu nunca vou amá-la, eu já tentei, mas não deu certo. Serei um eterno solitário, que só amou uma única mulher na vida e que vai morrer a amando. — Diana sorriu fraco. Ver o filho falando daquela forma a deixava de coração partido e ao mesmo tempo tinha vontade de contar toda a verdade para Júlia sobre os sentimentos do filho por ela.
Diana, Murilo e até mesmo a pequena Alice tinham um certo carinho por Júlia e ela por eles, principalmente pela irmã mais nova de Arthur, no entanto, o filho primogênito dos Moretti, ela simplesmente odiava.
— Eu tenho que ir mãe. E eu não irei trabalhar essa semana, não acho que estou apresentável para me encontrar com meus clientes e principalmente com juízes. — Diana negou, vendo as manchas roxas espalhadas pelo rosto do filho.
— Eu concordo com você e espero que agora você tome juízo e foque no seu trabalho e saia dessa vida de baladas que você vive. — Falou.
— Eu prometo que vou mudar, juntos nós vamos fazer aquele escritório crescer e se tornar mundialmente conhecido. Até mais tarde! — Deu um beijo na testa dela e saiu.
Murilo apareceu em seguida, secando os cabelos com uma toalha.
— Para onde o Arthur foi tão cedo? — Perguntou.
— Pegar o resultado dos exames e provar que a Júlia nunca iria pra cama com ele estando sóbria. — Respondeu.
— Eu estou sentindo a dor do meu filho e fico bastante chateado por ele ser tão apaixonado por essa garota, ao mesmo tempo que me sinto bastante curioso. Eu gostaria muito de saber o que levou ela a odiar tanto assim o Arthur. Até onde sabemos ele nunca fez nada de r**m para ela, apenas sabemos das loucuras que ele fazia após o anúncio do namoro deles. — O casal entrou no quarto. — Eu sei que o Tutu não é nenhum santo, mas ele não é uma pessoa r**m, ao ponto de fazer algo que alguém passasse a odiá-lo como ela odeia. — Sentou-se na cama e sua esposa sentou-se ao seu lado.
— Eu também gostaria de saber. No entanto, nesse momento, eu estou com pena da Júlia, ela ama o Marcos e foi humilhada por ele. Estou com raiva dele por ter sido incompreensível e ter machucado ela e também ao nosso filho. O Arthur ama a Júlia, ao ponto de esconder os seus sentimentos durante anos, apenas para vê-la feliz e involuntariamente foi o responsável pela maior tristeza que ela poderia sentir, depois da morte dos pais. — Diana como mãe sentia a tristeza do filho.
— Eu tenho certeza que o nosso menino ainda vai ser muito feliz. — Murilo foi positivo.
— Eu espero que a Alice tenha mais sorte no amor e seja menos problemática que o Arthur. — Diana concluiu. — Aliás, será que você pode ir acordar ela, enquanto eu tomo banho? Ah, e não aceite os mais cinco minutos que ela pedir. — Pediu.
— Claro que posso, e a única que cai nessa dos cinco minutos é você. — Deixou um selinho nos lábios da esposa e em seguida saiu.
Arthur dirigia um pouco tenso e mais rápido que o de costume, ele tinha pressa em receber o resultado dos testes e provar que Júlia e ele não dormiram juntos por desejarem aquilo. Ele estava se sentindo a pior pessoa do mundo por ter feito algo r**m para a mulher que amava, mesmo que o que tivesse feito fora algo contra a sua vontade. Ele não sabia o que estava fazendo, estava sob efeitos de drogas e aquilo iria ser resolvido em breve.
— As nossas suspeitas estavam certas, senhor Moretti, você e a senhorita Montero de fato foram drogados e por sorte algo pior não aconteceu com os dois, já que o nível da droga no sangue de vocês era bastante alto. — O médico responsável pelos testes e por atender Júlia e Arthur no dia anterior disse.
— Obrigado, doutor. A jovem que estava comigo precisa provar para alguém que ele foi bastante injusto com ela. Até mais e mais uma vez obrigado pelo seu trabalho e por ter sido tão atencioso conosco. — Falou.
— Espero que tenha ajudado e seja lá o que aconteceu entre você e aquela jovem, que possa ser resolvido e que vocês fiquem bem. — Arthur assentiu, sabendo que nada iria ficar bem, que aquela droga que os dopou, forçando-os a dormirem juntos, já tinha feito um grande estrago em uma amizade e romance de anos.
Arthur, após sair da clínica, seguiu até o seu destino: Amor doce, a confeitaria de Júlia. Onde ela se encontrava. Quando ele chegou ao lugar, viu Priscila, funcionária e amiga de Júlia, além dela o seu esposo, Diego. A confeitaria estava fechada e ele já sabia qual era o motivo dela se encontrar assim. Fez um sinal para o casal, para que liberassem a sua entrada e o homem caminhou até a porta, abrindo-a em seguida.
— Oi Diego, como vai? A Júlia está aí? — Perguntou.
— Olá, Arthur, eu estou bem. Já estamos sabendo do que aconteceu, a Júlia está sim, e em péssimas condições. — O moreno permitiu a passagem dele.
— Eu imagino. Mas onde ela está? Você sabe onde ela dormiu? — Perguntou preocupado.
— Ela esvaziou o quartinho onde seria a nossa sala de descanso, colocamos uma cama lá e ela passou a noite. — Priscila respondeu. — Não sabemos ao certo o que aconteceu, mas sei que o noivado dela já era, sei que está envolvido nisso. Sempre soube que você esconder os seus sentimentos não ia dar certo. — Falou de braços cruzados.
Arthur encarou a mulher bastante surpreso.
— Como sabia? — Perguntou afobado.
— Ah, Arthur, somente o Marcos e a Júlia eram cegos para os seus sentimentos. Eu sempre soube que a amava em segredo. — Disse.
— O que aconteceu não foi porque a gente quis, eu tenho provas, irei entregá-las a ela e a deixarei em paz. Eu não quero causar mais problemas para ela do que já causei. — Respondeu.
— Você sabe o caminho, faça o que veio fazer de uma vez, e, por favor, tente não machucá-la mais. — Diego disse com um sorriso pequeno nos lábios. Arthur assentiu e caminhou em direção aos fundos da confeitaria.
A porta do local indicado por Diego e Priscila estava entreaberta, Arthur deu duas batidas, em seguida entrou no lugar que era pequeno, escuro e úmido, Júlia encontrava-se sentada na cama, com os joelhos dobrados encarando um ponto fixo do quarto. Ele percebeu que o estado dela era lamentável, ela tinha olheiras enormes e seus olhos estavam muito inchados pelo choro, mas mesmo naquele estado, para ele, ela continuava linda.
— Eu trouxe o resultado dos exames, eu estava certo, fomos dopados e por pouco não fomos mortos. — Disse colocando o envelope com o resultado do exame em cima da cama.
— Eu esperava nunca mais te ver. Esse teste poderia ser entregue por outra pessoa, ou simplesmente deveria ter o deixado com a Priscila ou com o Diego, eles são minhas pessoas de confiança. — Falou de forma amarga.
— Eu me sinto responsável por tudo que aconteceu, era o meu dever provar que só ficamos juntos por estarmos sob efeitos de drogas. — Disse.
Ela riu de forma zombeteira.
— A minha vida foi destruída. O Marcos já mudou o status dele em suas redes sociais, me bloqueou em todas e apagou todas as fotos que tínhamos juntos, ele deletou toda a nossa história, sem falar no que a irmã dele falou sobre mim para todos os seus seguidores, que basicamente eram os meus e os dele também. — Ela estava despedaçada.
— Você tem como provar que não o traiu, que não ficou comigo porque quis. E sobre as calúnias que a Natália esteja falando sobre você, saiba que pode processá-la. — Lembrou.
— Eu não vou fazer nada, eu só vou esfregar esse teste na cara do Marcos e provar para ele o quanto ele foi injusto e c***l comigo. Eu não sou a vagabunda que ele disse que eu sou. E apesar de te odiar, eu sei que é tão vítima quanto eu, por isso, eu também quero saber quem nos dopou e quem enviou aquela mensagem para você. — Disse. — Se você, como advogado puder investigar isso, eu vou ficar grata, no entanto, eu só quero que venha até mim quando já tiver certeza de quem foi a pessoa responsável por tudo isso. Agora se puder sair e me deixar sozinha, eu agradeço. — Pediu e em nenhum momento olhou nos olhos dele.
— Eu sinto muito por tudo que aconteceu, Júlia. Mas eu quero que saiba que eu não sou seu inimigo, e independente do que sente por mim, pode contar comigo para o que precisar, eu sempre estarei a sua disposição. Adeus, Júlia! — Saiu do lugar com o coração dilacerado por ver a mulher que amava naquele estado.
Arthur saiu daquele quarto com a certeza de que nunca mais iria voltar ali e que qualquer tipo de relacionamento com Júlia, que o odiava com toda a sua alma, nunca iria acontecer.