ele é o pai de minha filha

1137 Words
Ponto de Vista de Ellen Eu m*l conseguia respirar. O carro parecia pequeno demais. O ar pesado. Cada segundo dentro daquele veículo parecia esmagar ainda mais o meu peito. Roberta me abraçava, firme, como se estivesse tentando me manter inteira. E talvez estivesse mesmo. Porque eu sentia que estava me desfazendo. Pedaço por pedaço. — Calma… — ela sussurrava, passando a mão nas minhas costas. — Já vai passar… Mas não ia. Eu sabia que não ia. Porque aquilo não era só um susto. Não era só uma noite r**m. Era o passado voltando. E me atingindo com tudo. O carro finalmente parou. Eu nem reparei onde estávamos. Só percebi quando Roberta abriu a porta. — Vamos descer. Saí com dificuldade. Minhas pernas estavam fracas. O motorista recebeu o pagamento e foi embora sem dizer nada. E então ficamos ali. Na calçada. Em um lugar silencioso. Quase vazio. A cidade parecia mais calma naquela hora. Como se o mundo estivesse dormindo… Enquanto o meu desmoronava. Roberta me puxou para sentar. — Agora me conta. A voz dela era firme. Preocupada. — O que aconteceu? Alguém te humilhou naquela festa? Balancei a cabeça rapidamente. — Não… Minha voz saiu falha. — Ninguém me reconheceu. Ela franziu a testa. — Como assim? Respirei fundo. Tentando organizar os pensamentos. Mas era difícil. Tudo ainda estava bagunçado na minha cabeça. — A máscara… — murmurei. — Funcionou. Olhei para ela. — Ninguém sabia que eu era a Ellen… a faxineira. Roberta soltou um pequeno suspiro. — Tá… isso é bom. Mas o olhar dela dizia que sabia. Sabia que não era só isso. — Então o que aconteceu? Engoli seco. Meu coração acelerou de novo. — Ele… — Ele quem? — Meu chefe. Ela ficou em silêncio. Esperando. — O todo poderoso… Ethan Wood. Os olhos dela se arregalaram. — Você tá brincando. Balancei a cabeça. — Não. Minha voz tremia. — Ele dançou comigo. — O quê? — A noite inteira. Roberta piscou várias vezes. — Ellen… — Ele me chamou pra dançar… e eu fui. Fechei os olhos por um instante. Revivendo. — E depois… ele me levou pra beber… e então… Minha garganta travou. Mas eu precisava falar. Precisava tirar aquilo de dentro de mim. — Ele me convidou pra ir no escritório dele. Roberta ficou completamente imóvel. — E você foi? Assenti. Devagar. — Eu fui. O silêncio caiu entre nós por um segundo. Pesado. — Nós nos beijamos… — continuei, quase em um sussurro. Minha voz saiu mais fraca. — E… Respirei fundo. — Transamos. Roberta arregalou os olhos. — Meu Deus, Ellen… você… Ela levou a mão à boca. — Você transou com ele? Assenti novamente. As lágrimas começaram a cair de novo. — Sim… Ela passou a mão pelo cabelo, tentando processar. — Tá… tá… — ela respirou fundo. — Mas isso não explica você estar assim. Olhei para ela. E então disse: — O pior não é isso. O rosto dela ficou sério. — Então o que foi? — Ele te machucou? — Ele não me machucou. — Graças a Deus… — Mas… Minha voz falhou. As palavras ficaram presas. Mas eu forcei. — Eu vi. — Viu o quê? Olhei direto nos olhos dela. — A tatuagem. O silêncio caiu novamente. Dessa vez mais pesado. — Que tatuagem? Senti meu peito apertar. — Um lobo. Os olhos dela mudaram. Devagar. Como se estivesse entendendo antes mesmo de eu dizer. — Ellen… Minha respiração ficou irregular. — É ele. A frase saiu quebrada. Mas clara. — O mesmo homem… de mais de dois anos atrás. Roberta ficou completamente imóvel. — Não… — É ele — repeti, com mais força. As lágrimas escorriam sem controle. — Daquela boate… Minha voz começou a tremer mais. — O homem daquela noite… As palavras começaram a sair mais rápidas. Descontroladas. — O mesmo homem quando eu estava bêbada… quando eu não sabia o que estava fazendo… o mesmo homem que eu nunca consegui esquecer… Minha mão foi até o peito. — O mesmo homem que destruiu a minha vida… Minha voz quebrou. — O pai da minha filha. O silêncio que veio depois foi esmagador. Roberta não disse nada por alguns segundos. Ela só me olhava. Chocada. Tentando absorver. — Meu Deus… — ela sussurrou. Assenti, chorando. — Droga… Passei a mão pelo rosto. — E ele… Respirei fundo. — Ele me reconheceu. Ela arregalou os olhos. — O quê?! — Não como Ellen… — Então como? — Como a garota da boate. O ar pareceu sumir por um instante. — Como você sabe? Fechei os olhos. A lembrança veio forte. — Porque ele disse… Minha voz ficou mais baixa. — “Você se lembra de mim também?” Roberta levou a mão à boca. — Ellen… — Aquilo foi o fim pra mim. Balancei a cabeça. — Eu não consegui ficar. — Claro que não… — Eu só… corri. As lágrimas voltaram com mais força. — Eu nem pensei… — Você fez certo. — Eu escutei ele me chamando… acho que ele veio atrás de mim… Minha respiração ficou mais rápida. — Eu não sei… — Ei… olha pra mim. Roberta segurou meu rosto com as duas mãos. — Você está segura agora. Balancei a cabeça negativamente. — Não estou. — Está sim. — Não estou! Minha voz saiu mais alta. Desesperada. — Ele não pode saber! Ela ficou séria. — Saber o quê? — Que tem uma filha. O silêncio voltou. Pesado. — Ele não pode saber da Sara. Minha voz ficou firme agora. Decidida. — Nunca. Roberta me observou com atenção. — Por quê? Respirei fundo. Mas a resposta já estava dentro de mim. Clara. Sombria. — Porque eu não sei do que ele é capaz. As palavras saíram lentas. — Eu vi quem ele é. Fechei os olhos. — Ele é frio. — Dominador. — Ele acha que tudo pertence a ele. Abri os olhos novamente. — E eu não vou deixar ele levar a minha filha. Roberta apertou meus ombros. — Ele não vai. — Você não sabe disso. Minha voz falhou. — Ele é bonito… ele é… Parei. Engoli seco. — Ele é o tipo de homem que consegue tudo o que quer. E aquilo era a parte mais assustadora. Porque eu sabia. Eu senti. Na forma como ele me olhava. Na forma como me tocava. Na forma como falava. Ele não era um homem comum. Ele era perigo. — Então a gente não vai deixar ele descobrir — Roberta disse firme. Olhei para ela. — Como? — A gente dá um jeito. Ela segurou minha mão. — Você não está sozinha. As lágrimas ainda caíam. Mas algo dentro de mim… Se firmou. Porque, acima de tudo… Eu era mãe. E por Sara… Eu enfrentaria qualquer coisa. Até mesmo um lobo.
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