não vou trabalhar

955 Words
Ponto de Vista de Ellen Depois que tudo saiu… Depois que eu chorei até não ter mais forças… Veio o vazio. Aquele silêncio interno. Pesado. Cansado. Como se cada parte de mim estivesse exausta demais para continuar sentindo qualquer coisa. Roberta não disse muito depois disso. E eu agradeci por isso. Porque eu não tinha mais palavras. Nem explicações. Nem forças. Ela apenas ficou ali. Ao meu lado. Segurando minha mão de vez em quando. Como se tivesse medo de que eu fosse quebrar de novo. E talvez fosse verdade. Quando chegamos em casa, tudo parecia… normal demais. O prédio. A escada. A porta. Como se nada tivesse acontecido. Como se minha vida não tivesse virado de cabeça para baixo em poucas horas. Abri a porta devagar. O silêncio do apartamento me envolveu. Olhei automaticamente para o quarto de Sara. A porta estava fechada. Ela estava dormindo. Segura. Protegida. E aquilo fez meu coração apertar. Porque tudo que eu queria… Era manter aquilo intacto. — Vai tomar um banho — Roberta disse suavemente atrás de mim. — Eu fico aqui. Assenti. Sem discutir. Sem pensar. Caminhei até o banheiro quase no automático. Fechei a porta. E encarei meu reflexo no espelho. Por alguns segundos… Eu não me reconheci. A maquiagem borrada. Os olhos inchados. O cabelo bagunçado. A máscara ainda ali. Como um símbolo ridículo de tudo que tinha acontecido. Levei a mão até o rosto. E a tirei. Devagar. Como se, ao fazer isso… Eu estivesse voltando à realidade. — Ellen… — murmurei para mim mesma. Mas aquela mulher no espelho… Parecia outra. Uma versão minha que tinha se perdido. Ou que talvez… Nunca tivesse estado tão exposta assim. Comecei a tirar o vestido. Com cuidado. Diferente de antes. Agora cada movimento era pesado. Carregado. Dobrei o tecido azul com delicadeza. Era lindo. Perfeito. Mas agora… Parecia amaldiçoado. — Eu não devia ter ido… — sussurrei. Mas, no fundo… Eu sabia. Mesmo que pudesse voltar no tempo… Uma parte de mim ainda iria. E isso doía ainda mais. Tirei os sapatos. Meus pés estavam doloridos. Sensíveis. Como se refletissem tudo o que eu tinha passado naquela noite. Coloquei tudo sobre a cadeira. Separado. Organizado. — Depois eu devolvo pra Roberta… Minha voz saiu baixa. Distante. Como se eu estivesse apenas cumprindo uma obrigação. Entrei no banho. A água quente caiu sobre meu corpo. E, por um momento… Eu fechei os olhos. Tentando limpar. Apagar. Esquecer. Mas não adiantava. Porque não era sujeira. Era memória. Era sensação. Era ele. O toque dele ainda parecia na minha pele. A voz dele ainda ecoava na minha cabeça. “Você se lembra de mim também?” Abri os olhos rapidamente. Respiração falhando. — Não… — sussurrei. Passei as mãos pelo rosto. — Não… não… não… Mas não tinha como fugir. Ele tinha voltado. E dessa vez… Sabendo. Quando saí do banho, me senti um pouco mais leve. Mas não inteira. Nunca inteira. Vesti uma roupa simples. Confortável. Algo que me trouxesse de volta à realidade. Caminhei até a sala. Roberta ainda estava ali. Sentada. Esperando. — Melhor? — ela perguntou. Assenti de leve. — Um pouco. Ela me analisou. Mas não insistiu. — Quer que eu fique? Olhei para o quarto de Sara. Depois para ela. — Não precisa… Minha voz saiu suave. — Eu vou ficar bem. Ela se levantou devagar. — Qualquer coisa, me liga. — Eu sei. Ela se aproximou. Me abraçou. Forte. — Você não está sozinha. Fechei os olhos. Abracei de volta. — Obrigada. Ela saiu pouco depois. E então… Ficou só eu. E o silêncio. Caminhei até o quarto de Sara. Abri a porta devagar. Ela ainda dormia. Tranquila. Inocente. Como se o mundo fosse seguro. Como se nada pudesse atingi-la. Sentei ao lado dela na cama. Passei a mão de leve em seus cabelos. Meu coração apertou. — Eu não vou deixar ele chegar perto de você… — sussurrei. Minha voz estava firme agora. Diferente de antes. — Nunca. Inclinei-me e beijei sua testa. — Eu prometo. Fiquei ali por alguns minutos. Só olhando. Memorizando. Como se aquilo me desse força. Quando voltei para a sala, olhei para o celular. Eu precisava fazer uma coisa. Algo simples. Mas que pesava. Disquei o número. Chamou. — Alô? — Dona Marta… Minha voz saiu controlada. — Sou eu… a Ellen. — Oi, Ellen! Tudo bem? Engoli seco. — Mais ou menos… — O que aconteceu? Olhei novamente para o quarto. Respirei fundo. — A Sara não está muito bem… O silêncio do outro lado foi imediato. — Poxa, coitadinha… A culpa apertou meu peito. Eu odiava mentir. Ainda mais assim. — Então eu… eu não vou conseguir ir trabalhar na segunda. Esperei. Tensa. Mas então… — Claro que não, Ellen! Fica tranquila. Cuida da sua filha. Fechei os olhos por um segundo. Alívio. — Obrigada, Dona Marta… — Qualquer coisa me avisa, tá? — Tá bom. Desliguei. E fiquei ali. O celular ainda na mão. O peso da mentira ainda no peito. — Desculpa… — murmurei, sem saber exatamente para quem. Sentei no sofá. O mesmo lugar onde, horas atrás, eu estava me arrumando. Animada. Esperançosa. Ingênua. Soltei um riso fraco. Sem humor. — Olha onde eu vim parar… Levei as mãos ao rosto. Respirei fundo. Eu não podia ir trabalhar. Não naquele momento. Não com ele lá. Não sabendo. Não depois de tudo. Eu precisava de tempo. Para pensar. Para entender. Para me preparar. Porque, no fundo… Eu sabia. Aquilo não tinha acabado. Muito pelo contrário. Aquilo… Estava apenas começando. E o pior de tudo… Era que eu não fazia ideia de como me esconder de um homem que nunca perde o que quer. Muito menos… Como proteger minha filha dele. 🖤
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