Ponto de Vista de Ethan Wood
Eu não gosto de perder.
Na verdade…
Eu não sei perder.
Passei a vida inteira construindo controle.
Sobre pessoas.
Sobre situações.
Sobre tudo ao meu redor.
E, quando algo sai desse controle…
Eu corrijo.
Simples assim.
Mas ela…
Ela não era simples.
E isso me deixava perigosamente interessado.
— Você está andando em círculos — Marcos disse, encostado na mesa do meu escritório.
Ignorei.
Continuei caminhando de um lado para o outro.
Passos pesados.
Rápidos.
Meu cérebro não parava.
Imagens dela invadiam minha mente o tempo todo.
O vestido azul.
A máscara.
A forma como me olhava.
E depois…
O choque.
O medo.
E a fuga.
Sempre a fuga.
— Ethan — Marcos chamou de novo.
Parei.
Lentamente.
Olhei para ele.
— Nós já vimos tudo — ele continuou. — As câmeras não mostram mais nada além dela correndo.
Passei a mão pelo cabelo, irritado.
— Então procure mais.
— Não tem mais.
— Sempre tem.
Minha voz saiu mais baixa.
Mais controlada.
Mas ainda carregada.
— Ela não evaporou.
Marcos suspirou.
— Não. Mas pode ter entrado em um carro, virado uma esquina, qualquer coisa.
Cerrei a mandíbula.
Ele estava certo.
Mas isso não me ajudava.
— Eu quero todas as ruas ao redor analisadas — falei. — Não só as nossas câmeras. As da cidade também.
Ele arqueou uma sobrancelha.
— Você vai puxar isso tudo?
— Vou.
E puxaria.
Sem problema.
Sem limite.
Porque, quando eu queria algo…
Eu conseguia.
Olhei novamente para o objeto sobre a mesa.
A renda branca.
Pequena.
Delicada.
Mas, naquele momento…
Mais valiosa do que qualquer contrato que eu tinha fechado naquela noite.
Peguei entre os dedos.
Passei lentamente.
O perfume ainda estava ali.
Suave.
Mas presente.
Fechei os olhos por um segundo.
E ela voltou.
Como um flash.
Como um vício.
— Você tem noção do que está fazendo? — Marcos perguntou, observando.
Abri os olhos.
— Tenho.
— Não parece.
Soltei um riso sem humor.
— Você não entende.
— Então explica.
Olhei para ele.
Direto.
— É ela.
O silêncio caiu.
— Aquela mesma? — ele perguntou.
— A mesma.
— A da boate?
— Sim.
Ele passou a mão no rosto.
— Ethan… já faz mais de dois anos.
— Eu sei exatamente quanto tempo faz.
Minha voz saiu firme.
Fria.
— E, mesmo assim, você nunca esqueceu — ele completou.
Não respondi.
Não precisava.
Porque era verdade.
Ela foi a única que ficou.
A única que não saiu da minha cabeça depois de uma noite.
A única que desapareceu sem deixar nada…
Até agora.
Olhei novamente para o que tinha nas mãos.
— Agora deixou.
— Já falei com um cara — Marcos disse, cruzando os braços. — Um dos melhores.
— Detetive?
— Particular.
Assenti lentamente.
— Quero tudo.
— Já imaginei.
— Nome, endereço, rotina… tudo.
— Vai ter.
Me aproximei da mesa.
Apoiei as mãos.
Inclinei levemente o corpo para frente.
— Ela entrou na minha empresa.
Marcos assentiu.
— Isso já é um ponto.
— E ninguém entra aqui sem registro.
Ele pensou por um segundo.
— Convidados da festa.
— Exato.
Peguei o celular.
— Quero a lista completa.
— Já estão puxando.
Sorri de lado.
— Ótimo.
Porque isso significava que o cerco estava se fechando.
Lentamente.
Mas com precisão.
— E quando você encontrar ela? — Marcos perguntou.
Parei.
A pergunta ficou no ar.
Pesada.
Interessante.
Perigosa.
Olhei para ele.
— Eu vou encontrar.
— Eu sei. Mas e depois?
Pensei por um segundo.
Mas a resposta já estava ali.
Clara.
Instintiva.
— Ela não foge de novo.
Marcos soltou um riso curto.
— Isso não responde muita coisa.
Endireitei o corpo.
— Responde o suficiente.
Porque, no fundo…
Eu ainda não sabia exatamente o que faria.
Mas sabia de uma coisa.
Eu não ia deixar ela desaparecer outra vez.
Caminhei até a janela.
A cidade brilhava lá embaixo.
Grande.
Cheia de vidas.
Cheia de histórias.
Mas, naquele momento…
Reduzida a uma única pessoa.
Ela.
— Não tem como ela se esconder — falei, mais para mim mesmo.
Marcos ficou em silêncio.
— Eu sou dono de metade disso aqui.
Minha voz saiu baixa.
Convicta.
— E a outra metade… me deve favores.
Ele soltou um suspiro.
— Você tá levando isso longe demais.
Virei o rosto lentamente para ele.
— Não existe “longe demais”.
E não existia mesmo.
Não quando algo despertava esse nível de interesse em mim.
Não quando algo mexia comigo daquele jeito.
Não quando alguém…
Me desafiava.
Minha mente voltou para aquele momento.
O olhar dela.
O medo.
Mas também…
Algo mais.
Ela não fugiu só por medo.
Havia reconhecimento.
Havia história.
Havia algo que ela estava escondendo.
E eu descobriria.
Custe o que custar.
Peguei o celular novamente.
Abri contatos.
Liguei para outro número.
— Senhor Wood — a voz atendeu rapidamente.
— Quero acesso às câmeras da cidade nas últimas duas horas ao redor da empresa.
— Isso pode levar um tempo—
— Não me importa.
Silêncio.
— Entendido.
Desliguei.
Marcos me observava.
— Você realmente vai mover a cidade inteira por causa de uma mulher?
Olhei para ele.
Um sorriso lento surgiu.
— Não é qualquer mulher.
E nunca foi.
Caminhei até a mesa novamente.
Olhei mais uma vez para a peça de renda.
Passei o polegar sobre o tecido.
Pensativo.
Calculando.
Ela cometeu um erro.
Pequeno.
Mas suficiente.
E erros…
Sempre levam a consequências.
— Você deixou um rastro dessa vez… — murmurei.
Minha voz baixa.
Quase um sussurro.
Mas carregada de intenção.
— E eu sou muito bom em seguir rastros.
Marcos pegou o casaco.
— Vou acompanhar o detetive.
Assenti.
— Quero relatórios a cada hora.
— Você vai ter.
Ele parou na porta.
— Ethan…
Olhei para ele.
— Cuidado.
Arqueei uma sobrancelha.
— Com o quê?
Ele hesitou.
— Com você mesmo.
Soltei um riso baixo.
— Tarde demais pra isso.
Ele saiu.
E eu fiquei sozinho.
O silêncio voltou.
Mas não era mais vazio.
Era carregado.
Cheio de planos.
De intenções.
De obsessão.
Olhei mais uma vez para a cidade.
E então sussurrei:
— Corre o quanto quiser…
Meus olhos escureceram.
— Eu vou te encontrar.
E, dessa vez…
Não vai ter máscara.
Não vai ter fuga.
Não vai ter meia-noite.
Porque essa história…
Não termina sem que eu descubra quem você é.
E quando eu descobrir…
Você vai entender…
Que nunca deveria ter cruzado o caminho de um lobo. 🖤