Ellen
Hoje, antes de ir para a escola, minha filha me fez uma pergunta que eu sabia que chegaria um dia… mas nunca estamos preparadas.
— Mamãe… onde está meu papai?
A colher escapou da minha mão e caiu dentro da xícara, fazendo o café respingar na mesa. Meu coração disparou tão forte que tive medo de que ela ouvisse.
Sara me olhava com aqueles olhos grandes e curiosos, tão inocentes que doía.
Ela só tinha dois anos.
Dois anos… e já sentia a ausência de algo que eu nunca soube explicar.
Respirei fundo. Forcei um sorriso.
— Seu papai foi embora para outro país, meu amor.
As palavras saíram rápidas demais. Frágeis demais.
— Ele vai voltar, mamãe? — ela perguntou, inclinando a cabeça de lado.
Por um segundo, eu quis dizer a verdade.
Quis dizer que eu não sabia quem ele era.
Que eu não lembrava do rosto.
Que ele não tinha nome.
Mas como explicar isso para uma criança?
— Vai sim… algum dia — respondi, quase sussurrando.
Ela sorriu satisfeita, como se aquilo bastasse. Como se o mundo ainda fosse simples.
— Então eu vou mostrar meus brinquedos pra ele!
E saiu correndo pela sala, pegando a boneca de pano que eu mesma costurei.
Fiquei parada, olhando para o nada.
Algum dia.
Eu menti para minha filha.
Porque a verdade era muito mais feia do que o silêncio.
Como eu diria que não sei quem é o pai dela?
Como explicaria que ele não foi embora… ele simplesmente nunca existiu na minha vida além daquela noite?
Fechei os olhos.
E as lembranças vieram como um vendaval.
Eu tinha dezessete anos.
Era a primeira vez que minhas amigas insistiam para que eu fosse a uma festa “de verdade”. Uma festa à fantasia em uma casa noturna famosa no centro da cidade. Luzes, música alta, gente bonita.
Eu nunca fui do tipo rebelde. Sempre fui a filha certinha.
Mas naquela noite… eu quis ser outra pessoa.
Usei uma máscara simples. Um vestido que minha mãe jamais aprovaria.
Minhas amigas riam, dançavam, me entregavam copos coloridos.
— Relaxa, Ellen! É só uma noite!
Eu não tinha costume de beber.
Mas queria me encaixar.
Queria sentir que pertencia a algum lugar.
O gosto do álcool queimava na garganta. O som da música vibrava no peito. As luzes piscavam tão forte que tudo parecia um sonho distorcido.
Lembro de começar a me sentir tonta.
De rir sem motivo.
De perder minhas amigas de vista na multidão.
E então… ele apareceu.
Não consigo lembrar do rosto.
Isso é o que mais me assusta.
Meu cérebro apagou os detalhes, como se quisesse me proteger.
Mas eu lembro da tatuagem.
Um lobo grande desenhado no peito, linhas escuras marcando a pele forte. O animal parecia me encarar mesmo na penumbra.
Ele se aproximou como se já me conhecesse.
Segurou minha cintura.
Falou algo no meu ouvido que eu não entendi por causa da música alta.
Eu devia ter saído.
Devia ter corrido.
Mas minha cabeça girava.
Minhas pernas estavam fracas.
Ele me levou para uma área mais escura da casa noturna. Um corredor lateral. Um espaço longe das luzes principais.
O cheiro de álcool era forte.
A respiração dele também.
Lembro da parede fria nas minhas costas.
Da sensação de estar presa entre o corpo dele e o concreto.
Eu tentei falar.
Mas as palavras não saíam.
Ele me beijava com intensidade, com pressa, como se eu fosse apenas mais uma aventura.
Minha mente estava confusa. Meu corpo pesado. Eu não conseguia raciocinar direito.
A música continuava alta, indiferente.
O mundo seguia.
E eu estava ali, perdendo o controle da minha própria história.
A noite pareceu não ter fim.
Quando ele finalmente se distraiu — alguém o chamou pelo nome, eu acho — encontrei forças que nem sabia que tinha.
Empurrei.
Corri.
Saí daquele lugar sem olhar para trás.
Cheguei em casa com a maquiagem borrada, o vestido amassado e uma sensação horrível de vazio.
Passei dias tentando convencer a mim mesma de que tinha sido apenas uma noite r**m.
Um erro.
Um exagero.
Até que o atraso veio.
E depois o teste.
Duas linhas vermelhas.
Grávida.
Sozinha.
Desesperada.
— Você envergonhou essa família!
A voz do meu pai ainda ecoa na minha memória.
Minha mãe chorava, mas não me defendia.
Eu tentei explicar.
Tentei dizer que não lembrava direito.
Que não tinha sido como eu queria.
Mas para eles só havia uma verdade:
Eu era culpada.
E culpa não se perdoa.
Fui expulsa de casa com uma mala pequena e um medo gigantesco.
Nenhum abraço.
Nenhum apoio.
Apenas julgamento.
— Mamãe!
A voz de Sara me puxou de volta ao presente.
Abri os olhos e percebi que ainda estava parada na cozinha.
Ela me olhava segurando a boneca.
— Você tá triste?
Eu me ajoelhei diante dela.
— Não, meu amor… a mamãe só estava pensando.
Ela tocou meu rosto com a mãozinha pequena.
— Não fica triste. Eu tô aqui.
Engoli o choro.
— Eu sei. E você é tudo que eu tenho.
E era verdade.
Sara não foi um erro.
Nunca foi.
Ela foi a única coisa bonita que nasceu daquela noite escura.
Depois de deixá-la na escola, caminhei até o trabalho com o coração pesado.
O prédio de luxo parecia ainda mais frio naquele dia.
Enquanto limpava os banheiros do décimo andar, meu pensamento voltou para a tatuagem.
O lobo.
Às vezes eu me pergunto quem ele era.
Se lembra de mim.
Se faz ideia de que existe uma menina de dois anos com os olhos grandes e o sorriso doce.
Ou se aquela noite foi apenas mais uma entre tantas.
Passei pano na pia com força, como se pudesse apagar o passado junto com a sujeira.
Mas certas marcas não saem.
Elas ficam.
Gravadas na pele.
Ou na alma.
Quando saí do banheiro com o carrinho de limpeza, senti novamente aquela sensação estranha.
Como se estivesse sendo observada.
Levantei os olhos.
E o vi.
O mesmo homem do outro dia.
Terno impecável.
Postura dominante.
Olhos escuros fixos em mim.
Meu chefe.
O “príncipe” da empresa.
Ele não desviou o olhar.
Ao contrário.
Sustentou.
Como se estivesse me estudando.
Como se me reconhecesse.
Um arrepio percorreu minha espinha.
Era impossível.
Eu nunca tinha visto o rosto do homem daquela noite.
Mas, por um segundo… apenas por um segundo…
Meu olhar desceu involuntariamente até o peito dele, coberto pelo tecido do terno.
E um pensamento absurdo atravessou minha mente:
E se?
Balancei a cabeça.
Não. Era paranoia.
Coincidência.
Meu passado não podia estar ali, diante de mim, usando um terno de milhares de reais e sendo chamado de senhor por todos.
Mas quando ele se aproximou, o cheiro do perfume dele misturado ao leve traço de algo mais forte… algo que me lembrava álcool e escuridão…
Meu coração disparou.
— Você parece pálida, Ellen — ele disse, com a voz baixa e controlada. — Está tudo bem?
Meu nome na boca dele soou errado.
Familiar demais.
— Está, sim, senhor.
Ele inclinou levemente a cabeça.
Seus olhos desceram por um segundo até meu uniforme simples, depois voltaram para meu rosto.
— Espero que esteja mesmo.
E então ele passou por mim.
Mas antes de se afastar completamente, murmurou algo quase inaudível:
— Então volte ao trabalho, não quero ninguém parado nos corredores.
Arrogante e frio como todos os outros o suficiente para me trazer de volta a realidade.