Ellen
Sexta-feira sempre parecia mais longa.
Talvez porque o corpo estivesse exausto. Talvez porque a alma também estivesse.
Já passava das seis da tarde quando eu terminei de limpar o oitavo andar. Minhas mãos estavam ásperas por causa dos produtos de limpeza, e minhas costas doíam como se eu tivesse carregado o prédio inteiro nas costas — o que, de certa forma, não deixava de ser verdade.
Hoje eu teria que limpar a cobertura.
O andar da elite.
O território do chefão.
Respirei fundo antes de empurrar o carrinho de limpeza até o elevador de serviço.
Mais cedo, liguei para Dona Maria.
— Você pode buscar a Sara para mim? Vou sair mais tarde hoje.
— Claro que posso, minha filha — ela respondeu com aquela voz acolhedora que sempre me lembrava da minha mãe. — Fica tranquila.
Dona Maria era o anjo que Deus colocou no meu caminho quando tudo desmoronou.
Amiga antiga da minha mãe, foi ela quem me recebeu no pequeno apartamento que eu moro até hoje. O aluguel é pago pela minha mãe, escondido do meu pai. Mesmo depois de tudo, mesmo depois da expulsão, minha mãe nunca deixou de cuidar de mim.
Ela apenas faz isso em silêncio.
E uma mãe nunca abandona um filho.
Essa certeza é o que me mantém de pé.
E Dona Maria… ah, ela se tornou a avó que Sara não sabe que tem.
O elevador parou na cobertura com um leve solavanco.
As portas se abriram para um corredor silencioso, com tapetes grossos e iluminação indireta. O cheiro ali era diferente. Mais sofisticado. Mais frio.
Ali ficava o escritório do homem que todos chamavam de príncipe.
O dono do império.
O homem que, mesmo vestido de terno, parecia carregar algo selvagem nos olhos.
Engoli seco.
Comecei pelos banheiros do corredor. Sempre fazia o mais difícil primeiro.
Quanto mais rápido eu terminasse, mais rápido poderia ir embora.
Enquanto esfregava a pia de mármore branco, minha mente vagava para Sara. Será que já tinha jantado? Será que estava brincando no colo de Dona Maria?
Um sorriso involuntário surgiu nos meus lábios.
Ela era meu mundo.
Meu único mundo.
Terminei o banheiro e empurrei o carrinho de volta para o corredor principal.
E foi então que ouvi.
Um som.
Baixo.
Mas inconfundível.
Um gemido.
Parei no meio do corredor, o coração dando um salto.
Talvez fosse impressão.
Talvez algum vídeo alto demais.
Mas então veio de novo.
Mais intenso.
Mais claro.
O som vinha da sala principal.
Do escritório dele.
Meu estômago revirou.
A porta estava entreaberta.
Uma fresta pequena, quase discreta.
Eu devia ter ido embora.
Devia ter baixado a cabeça e seguido até o elevador.
Mas meus pés se moveram sozinhos.
Um passo.
Depois outro.
A respiração ficou mais curta.
O corredor parecia longo demais.
Silencioso demais.
Aproximei-me da porta.
E olhei.
Pela pequena a******a.
O que vi fez meu corpo inteiro congelar.
Ele estava de costas.
Nu.
A iluminação suave da sala desenhava cada músculo do seu corpo. As costas largas, marcadas. Os ombros fortes. A postura dominante.
Ele se movia com intensidade.
Debaixo dele, sobre a mesa de madeira escura, uma mulher gemia alto, completamente entregue.
O som ecoava pelo ambiente sofisticado, misturado ao barulho de objetos se deslocando.
Ele parecia um animal.
Um touro selvagem.
Não havia delicadeza.
Havia posse.
Controle.
Fome.
Meu corpo reagiu antes que minha mente pudesse impedir.
Um arrepio percorreu minha pele.
Meu coração disparou.
Era errado.
Eu sabia que era.
Mas não consegui desviar o olhar.
Havia algo hipnótico naquela cena.
Algo cru.
Instintivo.
Proibido.
O contraste entre o homem elegante que comandava reuniões milionárias e aquela versão selvagem, dominante… mexeu comigo de uma forma que eu não estava preparada para admitir.
A mulher gritou mais alto.
Ele acelerou os movimentos, segurando-a com firmeza.
Meu corpo esquentou.
Senti minhas mãos suarem.
Minha respiração ficou irregular.
Eu devia ir embora.
Devia.
Mas fiquei.
Paralisada.
Observando.
Como se estivesse presa a uma realidade que não me pertencia.
Foi quando aconteceu.
Meu cotovelo esbarrou no carrinho.
O balde caiu no chão com um estrondo que ecoou pelo corredor silencioso.
O som pareceu explodir no andar inteiro.
O movimento dentro da sala cessou imediatamente.
Meu coração quase saiu pela boca.
Ele virou o rosto.
E, mesmo da fresta, senti o peso do olhar dele.
— Tem alguém aí? — a voz grave ecoou, firme.
Pânico.
Instinto.
Eu me joguei para trás da parede, segurando a respiração.
O silêncio durou segundos que pareceram horas.
— Eu ouvi alguma coisa — ele disse novamente, agora mais próximo da porta.
Meu corpo começou a tremer.
Se ele me visse…
Se ele soubesse que eu estava ali…
O que ele faria?
A maçaneta se mexeu levemente.
Não esperei.
Peguei o carrinho de qualquer jeito e corri.
Corri como naquela noite da festa.
Corri como a garota de dezessete anos que só sabia fugir.
O corredor parecia não ter fim.
Meu coração batia tão forte que eu m*l escutava meus próprios passos.
Apertei o botão do elevador de serviço repetidas vezes.
— Anda… anda… — sussurrei desesperada.
As portas finalmente se abriram.
Entrei.
Apertei o térreo.
As portas começaram a fechar.
E, no último segundo, vi uma sombra surgir no corredor da cobertura.
Alta.
Imponente.
Observando.
As portas se fecharam completamente.
Deslizei até o chão do elevador, sentindo as pernas fracas.
Meu corpo ainda queimava.
Mas agora não era desejo.
Era medo.
Quando o elevador chegou ao térreo, saí quase tropeçando.
Atravessei o estacionamento sem olhar para trás.
O ar da noite bateu no meu rosto como um tapa.
Eu precisava sair dali.
Precisava esquecer o que tinha visto.
Mas uma sensação estranha se instalou no meu peito.
E se ele tivesse me visto?
E se soubesse que era eu?
E se aquilo não tivesse sido um acidente?
Quando cheguei ao ponto de ônibus, meu celular vibrou.
Uma mensagem.
Número desconhecido.
Meu estômago gelou.
Abri.
“Funcionários curiosos costumam se meter em problemas.”
Meu coração parou.
Outro aviso chegou em seguida.
“Cuidado para não estar no lugar errado novamente, Ellen.”
O mundo pareceu inclinar sob meus pés.
Ele sabia.
Sabia que era eu.
Sabia meu nome.
E, de alguma forma, aquilo me assustava…
Mas também despertava algo que eu odiava admitir.
Porque, pela primeira vez desde aquela noite distante da tatuagem do lobo…
Eu não me senti invisível.
E isso pode ser o começo da minha perdição. 🖤