Ellen
Quando cheguei em casa, a luz da sala estava baixa.
O pequeno abajur que Dona Maria sempre deixava aceso iluminava o sofá gasto e a mesinha de centro com uma delicadeza quase maternal. O apartamento era simples, pequeno, mas era o único lugar no mundo onde eu me sentia protegida.
— Ela já dormiu — Dona Maria sussurrou da cozinha, enxugando as mãos no pano de prato.
Assenti, tirando os sapatos.
— Deu muito trabalho?
— Nada. Jantou direitinho, tomou banho e apagou. Essa menina é um anjo.
Um sorriso suave tocou meus lábios.
Sara era luz em meio ao caos da minha vida.
— Deixei comida para você — ela continuou. — Fiz arroz, feijão e frango.
O cheiro vinha da cozinha, quente e reconfortante.
Mas meu estômago estava fechado.
Minha mente não estava ali.
Estava naquele corredor.
Naquela porta entreaberta.
Naquelas costas largas se movendo com domínio absoluto.
— Agora estou sem fome, Dona Maria… depois, quem sabe eu como. Vou tomar um banho.
Ela me olhou por um segundo a mais, como se percebesse que algo estava diferente.
Mas não perguntou nada.
E eu agradeci por isso.
Entrei no quarto de Sara primeiro.
Ela dormia profundamente, abraçada ao ursinho. A respiração tranquila, o rosto sereno.
Ajoelhei ao lado da cama e beijei sua testa.
— A mamãe ama você mais do que tudo — sussurrei.
E aquilo era verdade.
Mas por que, então, meu coração estava acelerado por outro motivo?
Levantei antes que meus pensamentos me traíssem.
Fui para o banheiro.
Girei o registro do chuveiro e deixei a água cair quente sobre minha pele.
Fechei os olhos.
E foi um erro.
Porque a primeira imagem que veio foi ele.
Nu.
Dominante.
Selvagem.
A água escorria pelo meu corpo, e minha respiração começou a ficar irregular. Tentei afastar a lembrança, mas quanto mais eu tentava, mais nítida ela ficava.
A tensão nos ombros dele.
A forma como segurava aquela mulher.
A intensidade quase brutal dos movimentos.
Droga.
Eu não conseguia parar de pensar nele.
Passei as mãos pelos braços, sentindo o arrepio subir pela pele.
Era errado.
Tão errado.
Eu era apenas uma funcionária da limpeza.
Ele era o dono do império.
Um homem acostumado a mulheres sofisticadas, saltos altos, perfumes caros.
Mulheres que pertenciam ao mundo dele.
Eu não.
Se ele me olhasse, seria com desprezo.
Ou pior… indiferença.
E se soubesse que eu estava ali, espiando?
Provavelmente me mandaria embora.
E eu não podia perder aquele emprego.
Não podia.
Sara dependia de mim.
O convênio médico.
O aluguel que minha mãe pagava escondido.
A estabilidade mínima que eu finalmente tinha conquistado.
Encostei a testa na parede fria do box.
Mas mesmo com todos os argumentos racionais gritando na minha mente… meu corpo traía minha lógica.
Porque, pela primeira vez em muito tempo, eu senti algo diferente de medo.
Eu senti desejo.
E isso me assustava mais do que qualquer outra coisa.
Desliguei o chuveiro bruscamente, como se pudesse desligar meus pensamentos junto.
Enrolei-me na toalha e fiquei alguns segundos parada diante do espelho embaçado.
Limpei a superfície com a mão.
Meu reflexo apareceu.
Bochechas coradas.
Olhos mais escuros.
Respiração pesada.
Eu parecia outra pessoa.
Uma versão que eu não reconhecia.
Uma mulher que não era apenas mãe.
Não era apenas sobrevivente.
Era corpo.
Era desejo.
Era carne.
— Você está ficando louca — murmurei para mim mesma.
Mas, no fundo, eu sabia que não era loucura.
Era algo começando.
Algo perigoso.
Deitei na cama tentando ignorar a inquietação que percorria meu corpo.
O apartamento estava silencioso.
Apenas o som distante de carros passando na rua.
Virei de lado.
Fechei os olhos.
Mas o escuro trouxe ele de volta.
A sala ampla do escritório.
A mesa de madeira.
A luz baixa refletindo na superfície polida.
E então… eu não era mais espectadora.
No sonho, eu estava ali.
Deitada sobre aquela mesa.
Meu uniforme desaparecia, substituído por algo invisível, vulnerável.
Ele estava diante de mim.
Mais próximo do que jamais esteve na realidade.
Os olhos escuros fixos nos meus.
Não havia pressa.
Não havia outra mulher.
Só nós.
Ele se aproximava devagar, como um predador que saboreia a caça antes de atacar.
Mas, no sonho… eu não queria fugir.
Meu coração batia forte, mas não era medo.
Era antecipação.
Ele apoiava as mãos ao lado do meu corpo, me prendendo contra a madeira fria.
O contraste da superfície gelada com o calor dele era quase insuportável.
— Você ficou curiosa demais, Ellen — ele murmurava, a voz baixa, rouca.
Meu nome na boca dele fazia meu corpo inteiro estremecer.
No sonho, eu não era invisível.
Eu era o centro.
O foco.
O desejo.
Ele inclinava o rosto, roçando os lábios perto do meu ouvido.
Meu corpo respondia sem resistência.
Sem culpa.
Sem medo.
A mão dele deslizava pela minha cintura, firme, segura.
Como se eu fosse algo que ele já tivesse decidido possuir.
E, no sonho, eu deixava.
Porque ali não havia consequências.
Não havia emprego em risco.
Não havia desigualdade social.
Não havia passado.
Só havia tensão.
Só havia química.
Só havia fogo.
A mesa rangia sob o peso dele.
Eu sentia a força do corpo imponente, a presença esmagadora que misturava perigo e proteção.
No sonho, ele não era c***l.
Era intenso.
Dominante.
Mas atento.
Como se cada reação minha fosse algo precioso.
Como se eu fosse mais do que uma faxineira.
Como se eu fosse mulher.
Acordei ofegante.
O quarto estava escuro.
Meu coração disparado.
O lençol embolado entre minhas pernas.
Levei alguns segundos para entender que era apenas um sonho.
Mas meu corpo ainda vibrava como se fosse real.
Sentei na cama, passando a mão pelos cabelos.
— Isso não pode estar acontecendo… — sussurrei.
Olhei para o quarto ao lado, imaginando Sara dormindo tranquila.
Eu não podia me envolver.
Não podia nem pensar nisso.
Homens como ele não se apaixonam.
Eles usam.
Descartam.
Controlam.
E eu já tinha sido quebrada uma vez.
Não suportaria ser de novo.
Mas, enquanto me deitava outra vez, tentando recuperar o sono, uma verdade silenciosa se formava dentro de mim:
Eu não tinha medo apenas de que ele me mandasse embora.
Eu tinha medo de que ele me quisesse.
Porque, se ele quisesse…
Eu não sabia se teria forças para resistir.
E talvez essa fosse a parte mais perigosa de todas.