ele me da medo

1242 Words
Ponto de Vista de Ellen Segunda-feira chegou rápido demais. Eu quase não dormi no domingo à noite. Toda vez que fechava os olhos, lembrava daquela cena na cobertura… do corpo dele, da forma dominante como se movia, do som da voz grave ecoando pelo corredor. E pior ainda… lembrava do sonho. Meu rosto esquentou só de pensar. Balancei a cabeça enquanto caminhava até a escolinha de Sara. — Mamãe, você está cansada — ela disse, segurando minha mão. Sorri, mesmo com o coração apertado. — Só um pouquinho, meu amor. Depois de deixá-la com a professora, segui para o trabalho. Cada passo até aquele prédio de vidro parecia mais pesado do que o normal. Eu estava com medo. Medo real. E se ele tivesse decidido me demitir? E se tivesse descoberto que fui eu que estava no corredor? Ele era o dono da empresa. Bastava uma palavra dele e eu estaria na rua. Sem salário. Sem convênio. Sem estabilidade. Sem nada. E eu não podia permitir isso. Sara dependia de mim. Entrei pela porta de serviço, como sempre, e fui direto para o vestiário. As outras funcionárias já estavam lá, conversando enquanto colocavam os uniformes. — Bom dia, Ellen — disse uma delas. — Bom dia. Tentei parecer normal. Como se nada tivesse acontecido. Mas por dentro eu estava em alerta. Assim que terminei de prender o cabelo no coque, fui procurar Dona Marta. Ela era a supervisora da equipe de limpeza. Uma mulher forte, de voz firme e olhar atento. Apesar do jeito duro, sempre foi justa comigo. Encontrei-a no corredor do segundo andar, conferindo uma prancheta. — Dona Marta… posso falar com a senhora? Ela levantou os olhos por cima dos óculos. — Pode. Respirei fundo. — Eu queria pedir uma coisa. — Fala. Engoli seco antes de continuar. — Será que a senhora poderia me colocar para limpar aqui embaixo… em vez da cobertura? Ela franziu a testa imediatamente. — Como assim? — Eu… eu prefiro trabalhar nos andares de baixo. Dona Marta cruzou os braços. — Ellen, você sabe que a cobertura é o melhor lugar para limpar. Assenti. Eu sabia. Menos gente. Menos bagunça. Menos reclamação. — Aqui embaixo — ela continuou — o pessoal é chato, arrogante e reclama de qualquer coisa. Lá em cima é muito mais tranquilo. — Eu sei… — respondi, desviando o olhar. — Mas mesmo assim eu prefiro ficar por aqui. Ela me observou em silêncio por alguns segundos. Longos segundos. — Aconteceu alguma coisa lá em cima? Meu coração disparou. — Não! — respondi rápido demais. Ela arqueou uma sobrancelha. — Então por que quer sair de lá? Procurei uma desculpa que soasse convincente. — Eu… não gosto muito de limpar perto daqueles ricaços. Não era totalmente mentira. — Eles me deixam nervosa. Dona Marta suspirou. — Ellen… você é uma das melhores funcionárias que eu tenho. Aquilo me pegou de surpresa. — Você trabalha direito, não reclama e faz tudo rápido. Por isso eu te coloquei na cobertura. Baixei a cabeça. — Mesmo assim eu prefiro ficar aqui. Ela ficou alguns segundos pensando. Por um momento achei que ela fosse recusar. Mas então ela fechou a prancheta. — Tudo bem. Levantei os olhos imediatamente. — Sério? — Sim. Se você quer sofrer com os engravatados daqui de baixo, problema seu. Um alívio enorme percorreu meu corpo. — Obrigada, Dona Marta. — Vou colocar a Patrícia na cobertura no seu lugar. Assenti rapidamente. — Está bem. Ela já voltava a anotar coisas na prancheta quando acrescentou: — Mas se mudar de ideia depois, não vem reclamar. — Não vou. E, naquele momento, eu realmente acreditava nisso. Porque a única coisa que eu queria era distância daquele homem. Distância dos olhos escuros dele. Distância da voz grave que parecia atravessar minha pele. Distância da sensação perigosa que ele despertava em mim. Os andares de baixo eram muito mais movimentados. Secretárias andando de um lado para o outro. Funcionários falando ao telefone. Executivos reclamando de café frio ou ar-condicionado forte demais. Era exatamente como Dona Marta tinha dito. Mais bagunça. Mais sujeira. Mais gente m*l-educada. — Ei, cuidado com esse balde! — um homem reclamou quando quase esbarrei na mesa dele. — Desculpe. — Vocês da limpeza sempre atrapalham. Respirei fundo. Eu já estava acostumada. Ser invisível fazia parte do trabalho. Mas, pelo menos ali, eu me sentia segura. Porque ele estava lá em cima. Longe. E assim deveria continuar. Perto da hora do almoço, fui até a copa encher o balde de água limpa. Duas secretárias conversavam animadas perto da cafeteira. — Você viu o chefe hoje de manhã? — Não. — Dizem que ele chegou furioso. Meu corpo ficou tenso imediatamente. Tentei parecer concentrada no balde. — Furioso por quê? — perguntou a outra. — Ninguém sabe. Mas ele mandou chamar a supervisão logo cedo. Meu coração deu um salto. Supervisão. Dona Marta. Engoli seco. Será que…? Não. Não podia ser. Continuei esfregando o pano no balcão, fingindo não ouvir. — A Patrícia que limpou a cobertura hoje — continuou a primeira — disse que ele estava com uma cara de poucos amigos. Patrícia. Então ela já estava lá em cima. No meu lugar. Um estranho alívio misturado com ansiedade percorreu meu peito. Pelo menos não era eu. Mas algo naquela conversa não me deixava tranquila. Terminei o serviço e voltei para o corredor. Passei a tarde inteira trabalhando sem parar, tentando manter minha mente ocupada. E funcionou. Até quase o final do expediente. Eu estava limpando o chão perto da recepção quando ouvi passos firmes se aproximando. Sapatos caros. Passos seguros. Meu corpo reconheceu antes da minha mente. Levantei os olhos. E o vi. Ele. Parado no meio do lobby. O terno escuro perfeitamente ajustado ao corpo forte. A postura imponente que fazia todos ao redor parecerem menores. As pessoas cumprimentavam com respeito enquanto ele passava. — Boa tarde, senhor. — Boa tarde, senhor. Mas ele não parecia interessado em ninguém. Os olhos dele percorriam o ambiente. Observando. Procurando. Meu coração começou a bater mais rápido. Por favor… não olhe para mim. Baixei a cabeça imediatamente e continuei passando o pano no chão. Como se fosse apenas mais uma funcionária invisível. Como se eu não existisse. Como se ele nunca tivesse me visto antes. Os passos dele ficaram mais próximos. Mais próximos. Até pararem. Senti a sombra dele cair sobre mim. Minha respiração falhou. Lentamente… muito lentamente… levantei os olhos. E encontrei os dele. Escuros. Intensos. Diretamente fixos em mim. Ele me observou por alguns segundos. Como se estivesse analisando cada detalhe. Então falou, com a voz baixa e controlada: — Interessante. Meu coração disparou. — Senhor? — murmurei. Um canto da boca dele se ergueu levemente. Não era exatamente um sorriso. Era algo mais perigoso. — Eu estava procurando você… lá em cima. Meu estômago caiu. Ele sabia. Claro que sabia. — Mas parece — continuou ele — que alguém decidiu fugir. O corredor inteiro pareceu desaparecer ao nosso redor. Só existíamos nós dois. E aquele olhar. Pesado. Predador. Ele deu um passo mais perto. Perto demais. Inclinei a cabeça imediatamente, tentando parecer submissa. — Eu… eu só estou fazendo meu trabalho. — Eu percebi. Silêncio. Então ele acrescentou, quase em um sussurro: — Não gosto de curiosos. Meu corpo inteiro gelou. Porque naquele momento eu tive certeza de uma coisa. Mudar de andar não tinha me salvado. Só tinha chamado ainda mais a atenção dele. E agora…
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