minha amiga

1053 Words
Ponto de Vista de Ellen Os dias passaram mais rápido do que eu imaginava. Durante a semana inteira eu tentei agir normalmente, focando no trabalho, em Sara e na rotina que sempre manteve minha vida em ordem. Mas, no fundo, eu sabia que algo estava diferente. Toda vez que lembrava do envelope dourado guardado na gaveta da cozinha, meu coração batia um pouco mais rápido. A festa. Ela finalmente tinha chegado. Era sexta-feira à noite, e meu pequeno apartamento parecia mais movimentado do que nunca. — Ellen, você ainda não terminou de arrumar o cabelo? — Roberta gritou do quarto. Eu soltei um suspiro. — Estou tentando! Minha amiga apareceu na porta com as mãos na cintura. Roberta sempre foi assim. Intensa. Dramática. Exagerada. E, naquele momento, parecia ainda mais animada do que o normal. — Meu Deus, mulher, hoje é uma festa importante! — ela disse, balançando a cabeça. — Você não pode demorar assim! Eu ri, mesmo um pouco nervosa. — Para você tudo é drama. Ela abriu um sorriso. — Claro que é. Drama deixa a vida mais interessante. Balancei a cabeça. Eu conhecia Roberta desde criança. Nós estudamos juntas desde o primário. Depois no ensino médio também. Sempre fomos muito diferentes, mas, de alguma forma, nossa amizade nunca se quebrou. Eu sempre fui a menina quieta. Responsável. A que preferia ficar em casa lendo ou estudando. Roberta sempre foi o oposto. Extrovertida. Corajosa. A garota que dançava nas festas da escola e fazia amizade com todo mundo. Depois que terminamos o ensino médio, nossas vidas tomaram caminhos muito diferentes. Eu comecei a trabalhar cedo. E Roberta… Bem, Roberta seguiu um caminho que muita gente julgaria. Ela trabalha em uma boate. É dançarina. Às vezes sai com homens ricos que frequentam o lugar. Algumas pessoas torcem o nariz quando falam disso. Mas eu nunca julguei. Cada um segue a vida do jeito que consegue. E, se existe uma coisa que eu sei sobre Roberta, é que ela tem um coração enorme. Porque, quando eu mais precisei… Ela estava lá. Quando descobri que estava grávida. Quando meu pai me expulsou de casa. Quando eu estava desesperada, sem saber para onde ir. Foi Roberta quem abriu a porta do pequeno apartamento dela e disse: — Você pode ficar aqui o tempo que precisar. Passei alguns dias lá. Até minha mãe conseguir, escondido do meu pai, alugar esse apartamento onde moro hoje. Então, se alguém tem o direito de opinar sobre minha vida… É ela. E hoje ela estava determinada a me transformar. Sara já estava dormindo no quarto. Dona Maria tinha prometido ficar de olho nela caso eu demorasse um pouco mais do que o esperado. Mas, mesmo assim, eu ainda me sentia um pouco culpada por sair. Festas nunca fizeram parte da minha rotina. Eu estava terminando de secar o cabelo quando Roberta entrou no quarto carregando uma capa de roupa. Seus olhos brilhavam de empolgação. — Está pronta? — Não sei se essa palavra existe para mim hoje. Ela riu. — Então vamos resolver isso. Roberta abriu a capa com um gesto teatral. E lá estava. O vestido. Por um momento eu simplesmente fiquei olhando. Era azul. Um azul profundo, elegante, quase como a cor do céu pouco antes da noite cair. — Roberta… — murmurei. Ela sorriu orgulhosa. — Eu sabia que você ia gostar. Passei a mão pelo tecido. Era macio. Leve. Muito mais bonito do que qualquer coisa que eu já tive. — É lindo. — Claro que é — ela respondeu. — E é da sua cor favorita. Balancei a cabeça, ainda surpresa. — Onde você conseguiu isso? Ela deu de ombros. — Digamos que tenho contatos. Eu ri. — Você é impossível. — E você vai ser a mulher mais bonita daquela festa. — Não exagera. Ela me olhou como se eu tivesse dito uma grande besteira. — Eu nunca exagero. Então ela colocou o vestido em minhas mãos. — Vai. Experimenta. Alguns minutos depois eu estava diante do espelho. E, pela primeira vez naquela noite… eu fiquei sem palavras. O vestido parecia ter sido feito para mim. Marcava minha cintura com delicadeza, caía suavemente pelo corpo e deixava meus ombros à mostra. Eu quase não me reconhecia. — Eu disse — Roberta falou atrás de mim. Ela estava sorrindo como uma artista orgulhosa da própria obra. — Você está linda. Senti minhas bochechas esquentarem. — Faz anos que eu não me arrumo assim. — Pois deveria fazer mais vezes. Ela então abriu uma pequena maleta sobre a cama. Dentro havia maquiagem. Muita maquiagem. — Agora vem a segunda parte — ela disse. — Roberta… — Confia em mim. Sentei-me na cadeira enquanto ela começava a trabalhar. Base. Sombras. Batom. Cada movimento parecia preciso, quase profissional. — Você devia trabalhar com isso — comentei. — Já pensei nisso. Depois de alguns minutos, ela girou a cadeira para o espelho. — Pronto. Eu pisquei algumas vezes. Meu reflexo parecia… diferente. Mais confiante. Mais mulher. — Uau… — murmurei. Roberta cruzou os braços. — Eu sei. Então ela pegou uma caixa no chão. — E agora… o toque final. Ela abriu a caixa. Dentro havia um par de sapatos. Prateados. Brilhantes. Elegantes. Quase mágicos. Eu ri imediatamente. — Roberta… — O que foi? — Você praticamente trouxe um sapato de cristal. Ela deu uma piscadinha. — Faltou pouco. Peguei os sapatos com cuidado. — Eles são lindos. — E são seus esta noite. Calcei-os devagar. Quando fiquei de pé diante do espelho novamente… senti algo estranho. Como se estivesse vivendo uma versão diferente da minha própria história. — Parece um conto de fadas — murmurei. Roberta riu. — Então vamos torcer para você não perder o sapato antes da meia-noite. Eu ri também. Mas, no fundo… Meu coração estava acelerado por outro motivo. Porque, em algum lugar daquela festa luxuosa… Ethan Wood também estaria. O homem que me olhava como se estivesse tentando descobrir algo sobre mim. Ou talvez… como se já soubesse. Respirei fundo. Peguei minha pequena bolsa. Olhei mais uma vez para o espelho. E pela primeira vez em muito tempo… Eu não vi apenas a faxineira. Vi uma mulher. Uma mulher que estava prestes a entrar em um mundo completamente diferente do seu. E que talvez não estivesse preparada para as consequências disso. 🖤
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