o convite

1079 Words
Capítulo 8 Ponto de Vista de Ellen O escritório estava estranho naquele dia. Desde o momento em que entrei no prédio pela porta de serviço, percebi que havia algo diferente no ar. Não era apenas o movimento normal das pessoas indo e vindo pelos corredores. Havia… empolgação. Funcionários caminhavam mais rápido. Alguns riam alto perto da recepção. Outros conversavam animados nos cantos. Parecia que alguma coisa importante tinha acontecido. Mas eu não fazia ideia do que era. Para mim, aquele era apenas mais um dia de trabalho. Mais um dia empurrando carrinho de limpeza, passando pano em mesas que custavam mais do que tudo o que eu possuía. Mais um dia tentando não pensar em certos olhos azuis. Sacudi a cabeça enquanto limpava o chão do corredor do segundo andar. Não. Eu tinha decidido não pensar mais naquele homem. Quanto menos eu soubesse sobre ele, melhor. Quanto mais distante eu ficasse, mais segura minha vida continuaria. E era exatamente isso que eu queria. Segurança. Estabilidade. Uma rotina simples onde eu pudesse trabalhar, buscar minha filha na escola e voltar para casa. Nada de problemas. Nada de homens perigosos. Nada de emoções complicadas. Mas o prédio inteiro parecia ignorar minha tentativa de viver em silêncio. Foi perto da hora do almoço que a explicação finalmente apareceu. Eu estava na pequena sala de descanso da equipe de limpeza, bebendo água e descansando as pernas por alguns minutos. As outras meninas também estavam ali. Patrícia. Carla. Rosana. Todas conversando sobre alguma coisa que parecia importante. Foi quando Dona Marta entrou. Ela segurava uma pilha de envelopes nas mãos. — Atenção, meninas — disse ela com a voz firme de sempre. Imediatamente todas se viraram para olhar. — O que foi, Dona Marta? — perguntou Carla. A supervisora colocou os envelopes sobre a mesa. — Vai ter uma grande festa na empresa. Um murmúrio de surpresa percorreu a sala. — Festa? — Patrícia arregalou os olhos. — Sim. Dona Marta cruzou os braços. — Parece que a Wood Company fechou um negócio enorme com investidores internacionais. — Sério? — Rosana disse. — Muito sério. E o senhor Wood decidiu comemorar. Meu coração apertou involuntariamente ao ouvir o nome dele. Mesmo tentando ignorar… eu ainda reagia. Droga. — Vai ser no salão principal lá da entrada — continuou Dona Marta. — Aquela área grande perto do lobby. Eu sabia exatamente qual era. Um espaço enorme, com lustres gigantes e chão de mármore brilhante. Normalmente usado para eventos importantes. — A empresa contratou gente de fora para preparar tudo — ela continuou. — Buffet, decoração, música… tudo profissional. Carla levantou a mão como se estivesse na escola. — Dona Marta… a gente pode ir nessas festas? Algumas meninas riram. Mas eu também fiquei curiosa. Funcionários da limpeza raramente participavam das coisas importantes da empresa. Normalmente ficávamos nos bastidores. Dona Marta olhou para todas nós. Então respondeu: — Sim. Silêncio. — Todos nós fomos convidados. — Sério?! — Patrícia quase gritou. — Sim — repetiu Dona Marta. — A festa é para todos os funcionários. Aquilo realmente era inesperado. Ela pegou um dos envelopes da pilha. — Cada um de vocês vai receber um convite. Meu estômago deu um pequeno nó. Convite? Para uma festa da empresa? Aquilo parecia… estranho. Dona Marta começou a distribuir os envelopes. Um por um. O papel era elegante, grosso, de um tom creme sofisticado. Quando chegou minha vez, ela colocou o envelope nas minhas mãos. — Aqui está, Ellen. Olhei para ele por um momento. Nunca tinha recebido algo assim antes. Abri devagar. Dentro havia um cartão dourado. Letras elegantes estavam impressas no papel. Li em silêncio. A Wood Company tem o prazer de convidá-lo para uma confraternização em celebração ao fechamento de um importante acordo internacional. Data: Sexta-feira Local: Salão principal — Wood Company Traje: Social Engoli seco. Social? Olhei ao redor. As outras meninas também estavam lendo os convites com entusiasmo. — Meu Deus, eu nunca fui numa festa chique assim! — disse Rosana. — Nem eu! — respondeu Carla. Patrícia parecia ainda mais animada. — Dizem que essas festas do senhor Wood são incríveis. Meu coração deu um pequeno salto. Eu não tinha pensado nisso. Ele estaria lá. Claro que estaria. Era a empresa dele. O evento era dele. — Vai ter comida de graça? — perguntou Carla. Dona Marta revirou os olhos. — Claro que vai. — Então eu já estou dentro! As meninas começaram a rir. Mas eu permaneci em silêncio, olhando para o cartão dourado nas minhas mãos. Uma festa elegante. Executivos. Funcionários bem vestidos. Música. Bebida. E eu. Uma faxineira com um único vestido simples no armário. Aquilo parecia completamente fora da minha realidade. — Ellen? — chamou Patrícia. Levantei os olhos. — Você vai, né? Eu hesitei. — Eu… não sei. — Como assim não sabe? — ela disse. — É uma festa! Dei de ombros. — Não tenho roupa para esse tipo de coisa. — Ah, isso a gente resolve. Rosana entrou na conversa: — Eu posso te emprestar um vestido. — Ou a gente vai juntas comprar um — sugeriu Carla. Olhei para todas elas. Era estranho. Eu não estava acostumada com tanta empolgação. Nem com tanta atenção. — Pense nisso — disse Dona Marta. — É uma boa oportunidade para todo mundo relaxar um pouco. Relaxar. A palavra soou quase irônica na minha cabeça. Porque, se eu fosse naquela festa… Eu sabia exatamente quem estaria lá. Ethan Wood. O homem que parecia me observar como se eu fosse algo interessante demais para ignorar. O homem que falava sobre lobos e presas como se fosse natural. Meu coração acelerou. Talvez fosse melhor não ir. Talvez fosse mais seguro ficar em casa. Assistindo televisão com Sara. Vivendo minha vida simples e tranquila. Mas então outro pensamento surgiu. Talvez… se eu fosse… ele nem me notasse. Afinal, haveria centenas de pessoas lá. Mulheres bonitas. Elegantes. Muito mais interessantes do que uma faxineira. Sim. Provavelmente ele nem olharia para mim. E talvez isso fosse exatamente o que eu precisava. Provar para mim mesma que ele não tinha importância. Fechei o envelope lentamente. — Eu vou pensar — respondi. Mas, no fundo… Uma parte de mim já sabia. Eu iria naquela festa. Mesmo sem saber que, naquela mesma hora… Em algum lugar da cobertura… Ethan Wood também estava olhando para um convite idêntico. E sorrindo. Porque ele já tinha decidido uma coisa. Ele precisava achar outra garota para brincar, já que dispensou a última.
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