fofocas

968 Words
Capítulo 7 Ponto de Vista de Ellen Os dias passaram. E, pela primeira vez desde aquela sexta-feira na cobertura, eu comecei a sentir um pouco de alívio. Trabalhar nos andares de baixo era muito mais cansativo, isso era verdade. Aqui o movimento era constante. Funcionários entrando e saindo o tempo todo, café derramado nas mesas, lixo acumulando rápido, banheiros sempre precisando de limpeza. Era um trabalho pesado. Mas, ainda assim, eu preferia mil vezes estar ali. Longe dele. Longe daqueles olhos azuis que pareciam atravessar a minha alma. Longe da sensação estranha que eu sentia toda vez que ele estava por perto. Mesmo que as pessoas aqui fossem mais arrogantes. — Ei, o chão ainda está molhado! — um homem reclamou mais cedo. — Desculpe, senhor — respondi, como sempre. — Vocês da limpeza deveriam trabalhar melhor. Eu apenas abaixei a cabeça e continuei o serviço. Aquilo não era novidade para mim. Humilhação nunca foi algo novo na minha vida. Depois de tudo o que passei, ouvir reclamações de executivos mimados era quase… irrelevante. Porque, no final do dia, eu tinha um salário. E tinha Sara. E isso era o suficiente para continuar. Naquela tarde, eu estava limpando o banheiro feminino do terceiro andar. O cheiro forte de desinfetante enchia o ambiente enquanto eu esfregava a pia de mármore com uma esponja. O reflexo do espelho mostrava meu rosto cansado, os cabelos presos no coque apertado, o uniforme simples que já começava a desbotar. Nada em mim parecia especial. Nada que chamasse atenção. E eu queria que continuasse assim. Ser invisível sempre foi mais seguro. Foi então que a porta do banheiro se abriu. Duas mulheres entraram conversando alto, sem perceber que eu estava ali dentro. Pelo jeito de se vestir, eram funcionárias administrativas. Saltos altos, bolsas caras, maquiagem impecável. Eu continuei limpando em silêncio. — Você soube o que aconteceu? — disse uma delas, animada. — O quê? — perguntou a outra, curiosa. — A estagiária foi mandada embora. Minha mão parou por um segundo sobre a pia. Estagiária? — Qual estagiária? — perguntou a outra. — Aquela loirinha que vivia andando pelos corredores da cobertura. A outra pareceu entender imediatamente. — Ah… aquela. — Essa mesma. A primeira mulher se aproximou do espelho, retocando o batom. — Parece que ela estava dormindo com o chefe. Meu coração deu um salto dentro do peito. Chefe. Eu já sabia de quem estavam falando. Mesmo assim, tentei continuar limpando como se não estivesse prestando atenção. — Como assim? — perguntou a outra, arregalando os olhos. — Ué, todo mundo sabia. Ela vivia subindo para o escritório dele. Um silêncio breve tomou conta do banheiro. Então a outra mulher falou: — E por que ela foi mandada embora? A primeira soltou uma risadinha baixa. — Porque ela fez uma besteira enorme. — Que besteira? Ela terminou de passar o batom e respondeu: — Parece que ela fingiu que estava grávida dele. Meu estômago revirou. — Sério? — Sim. Disse que estava esperando um filho do senhor Wood. A outra mulher levou a mão à boca. — Meu Deus… — Pois é. Mas parece que ele descobriu que era mentira. Um arrepio percorreu minha espinha. — E aí? — Aí ele mandou ela embora na hora. Silêncio novamente. — Coitada… — disse a outra, um pouco mais baixa. — Coitada nada — respondeu a primeira. — Quem manda tentar enganar aquele homem? Ela deu uma risada curta. — Todo mundo sabe que o senhor Wood não se apega a ninguém. Meu peito apertou. — Ela saiu chorando — continuou a mulher. — Dizem que foi humilhante. A outra suspirou. — Mas também… tentar dar golpe no chefe? — Pois é. As duas começaram a lavar as mãos, ainda comentando sobre a história. Mas eu já não estava mais ouvindo direito. Minha mente tinha voltado para aquela sexta-feira. A sala escura. A mesa do escritório. O corpo dele. A mulher gemendo. Será que era ela? Será que era a tal estagiária? Uma sensação estranha apertou meu peito. Não era exatamente pena. Nem exatamente choque. Era mais… um aviso. Um lembrete de quem ele realmente era. Um homem poderoso. Frio. Alguém que não se importava com as pessoas ao redor. Mulheres entravam na vida dele… E saíam destruídas. Meu coração acelerou. Eu não podia me envolver com alguém assim. Não podia nem chegar perto. Porque pessoas como ele vivem em outro mundo. Um mundo onde sentimentos são fraqueza. E onde pessoas comuns como eu… São descartáveis. — Vamos? — disse uma das mulheres. — Vamos. As duas saíram do banheiro ainda conversando, deixando o silêncio para trás. Fiquei parada por alguns segundos. A esponja ainda na minha mão. O coração batendo rápido. Então suspirei e terminei de limpar a pia. Quando terminei o banheiro, empurrei o carrinho para fora do corredor. Mas minha mente continuava cheia. Cheia de lembranças. Do olhar dele no lobby. Da forma como ele disse meu nome. Da frase estranha sobre lobos e presas. Balancei a cabeça com força. — Chega. Eu não queria mais pensar nisso. Não queria ouvir mais fofocas. Não queria saber da vida dele. Nada. Para mim, ele era apenas o chefe. O dono da empresa. E nada mais. Eu precisava manter distância. Porque homens como Ethan Wood são como tempestades. Bonitos de longe. Mas destrutivos quando chegam perto demais. Empurrei o carrinho pelo corredor com passos firmes. Eu tinha um trabalho a fazer. Uma filha esperando em casa. Uma vida simples que eu precisava proteger. E, custe o que custar… Eu não deixaria aquele homem entrar nela. Mesmo que, lá no fundo… Uma parte perigosa de mim ainda lembrasse da forma como ele me olhou. Como se já tivesse decidido que eu era dele. E isso… Era exatamente o que mais me assustava. 🖤
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