Ponto de Vista de Ethan wood
Eu estava furioso.
Dois dias.
Dois malditos dias.
E nenhum sinal dela.
Nenhuma mensagem.
Nenhum pedido.
Nenhuma aparição dramática na recepção implorando para voltar.
Nada.
E isso me consumia mais do que eu gostaria de admitir.
Eu estava sentado no meu escritório, cercado por vidro, aço, tecnologia e silêncio.
Tudo ali era impecável.
Organizado.
Controlado.
Como eu gostava.
Mas dentro de mim…
Era caos.
A tela do computador exibia números de um contrato milionário.
Gráficos.
Metas.
Investimentos.
Algo que normalmente prenderia minha atenção por horas.
Naquele dia, eu m*l conseguia ler uma linha.
Porque toda vez que tentava focar…
Eu via o rosto dela.
Os olhos claros.
O queixo erguido.
A voz tremendo dizendo não.
Fechei o notebook com força.
A batida ecoou pela sala.
Levantei e fui até a janela.
Lá embaixo, a cidade pulsava.
Pessoas andando como formigas.
Correndo.
Negociando.
Vivendo.
E em algum canto daquela cidade…
Ela também estava.
Respirando.
Escondida.
Longe de mim.
— Droga.
Passei a mão pelos cabelos.
Para mim, ela nunca seria Ellen.
A faxineira.
A mulher do uniforme simples e cabelo preso.
Não.
Ela era minha Cinderela.
A mulher de vestido azul.
Máscara prateada.
Cheiro doce.
Olhar provocante.
A única capaz de entrar no meu mundo e bagunçar tudo.
O interfone tocou.
— Senhor Wood, a reunião com os investidores começa em dez minutos.
— Cancela.
— Mas senhor…
— Eu disse cancela.
Desliguei sem esperar resposta.
Eu não tinha paciência para ninguém.
Saí da sala e caminhei pelo corredor principal.
Funcionários abriram passagem assim que me viram.
Alguns abaixaram a cabeça.
Outros fingiram trabalhar.
E eu fazia o que vinha fazendo havia dois dias.
Observava cada mulher da equipe de limpeza.
Cada uniforme.
Cada rosto.
Cada passo.
Uma delas saiu de um banheiro empurrando um carrinho.
Por um segundo, meu coração acelerou.
Mas quando ela levantou o rosto…
Não era ela.
Frustração.
Raiva.
Algo quase ridículo.
Continuei andando.
Sentia olhares em mim.
Sussurros.
Comentários interrompidos quando eu passava.
Eles achavam que eu não percebia.
Percebia tudo.
Sabia que falavam sobre a faxineira que eu gritei e mandei embora.
Sabia que me julgavam.
Que estavam com raiva.
Mas não me importava.
Nunca me importei.
Pessoas sempre falam.
Sempre invejam.
Sempre criam histórias.
O que ninguém sabia…
Era que aquela mulher tinha me enganado desde o começo.
Escondida dentro da minha empresa.
Trabalhando sob meu nariz.
Rindo da minha cara.
Ou pelo menos era isso que eu repetia para justificar o que eu sentia.
Porque a verdade era outra.
A verdade me irritava ainda mais.
Ela não estava rindo de mim.
Ela estava fugindo de mim.
Voltei para o escritório e joguei a gravata sobre a mesa.
No mesmo instante, a porta se abriu sem bater.
Marcos entrou.
Como sempre.
— E aí, tá tudo bem, cara?
Lancei um olhar seco.
— Você entrou aqui pra fazer pergunta i****a?
Ele ignorou.
Sentou no sofá.
Pegou uma maçã da fruteira.
Mordeu sem cerimônia.
— Vim te salvar do teu mau humor.
— Vamos dar um rolê.
— Um bar. Uma boate. Qualquer coisa.
— Não tô com cabeça, Marcos.
Ele mastigou devagar.
— Já percebi.
Olhou em volta.
— Cadê a faxineira?
Meu maxilar travou.
— Não voltou?
Continuou ele.
— Não veio implorar pelo emprego como você falou?
Virei a cadeira lentamente.
Cruzei os braços.
— Ela vai vir.
Marcos arqueou a sobrancelha.
— Vai?
— Tenho certeza.
Minha voz saiu firme.
Convicta.
Ou tentando parecer.
— Daqui a alguns dias, quando as contas começarem a aparecer…
— Quando o aluguel atrasar.
— Quando as contas chegar.
— Ela vai perceber que precisa de mim.
Marcos me encarou por alguns segundos.
Depois soltou uma risada curta.
— Precisa de você?
— Do emprego.
Corrigi.
— Do que eu posso oferecer.
Ele se levantou e caminhou até minha mesa.
Apoiou as duas mãos nela.
— Você tá se ouvindo?
Não respondi.
Porque eu me ouvia.
E ainda assim continuava.
— Outra coisa.
Falei, desviando do assunto.
— Já mandei um alerta.
Marcos franziu a testa.
— Que alerta?
— Ninguém contrata ela.
O silêncio que veio depois foi pesado.
Ele piscou uma vez.
Como se esperasse eu rir e dizer que era brincadeira.
Não ri.
— O quê?
— Nenhuma empresa parceira.
— Nenhuma terceirizada ligada aos meus grupos.
— Nenhuma indicação passa.
Marcos se afastou da mesa.
Indignado.
— Você tá louco.
— Estou prevenindo.
— Prevenindo o quê?
Ele elevou a voz.
— Que uma mulher trabalhe?
— Que paguei suas contas
— Que siga a vida sem você?
Levantei abruptamente.
— Ela me desafiou!
Minha voz ecoou no escritório.
Marcos ficou me encarando.
Sem medo.
Sem recuar.
— Não.
Disse ele, frio.
— Ela só te disse não.
As palavras acertaram em cheio.
Fechei os punhos.
— Você não entende.
— Eu entendo mais do que você.
Ele apontou para mim.
— Isso não é sobre emprego.
— Não é sobre orgulho.
— Nem sobre festa.
Deu um passo à frente.
— Você tá obcecado.
Soltei uma risada amarga.
— Obcecado por uma faxineira?
— Obcecado por alguém que não se curvou.
Desviei o olhar.
Porque, de novo…
Ele tocava num ponto que eu não queria encarar.
Fui até o bar.
Servi whisky.
Bebi de uma vez.
O líquido queimou a garganta.
Não adiantou.
— Ela vai voltar.
Repeti.
Mais baixo dessa vez.
Marcos suspirou.
Pegou o paletó do sofá.
— E se não voltar?
Não respondi de imediato.
Porque eu não tinha pensado nessa possibilidade.
Ou não queria pensar.
E se ela nunca mais aparecesse?
E se arrumasse outro emprego escondido?
E se desaparecesse da cidade?
E se encontrasse outro homem?
E se me esquecesse?
A simples ideia me atravessou como faca.
— Ela vai voltar.
Repeti de novo.
Agora para convencer a mim mesmo.
Marcos balançou a cabeça.
Caminhou até a porta.
— Você pode ter dinheiro, poder e metade dessa cidade.
Parou antes de sair.
— Mas tem uma coisa que nunca soube conquistar.
— E o que é?
Perguntei.
Ele abriu a porta.
Sorriu sem humor.
— Respeito.
E saiu.
Fiquei sozinho.
Com o silêncio.
Com a raiva.
Com o whisky.
Com a ausência dela ocupando cada canto daquela sala.
Olhei para a cadeira em frente à minha mesa.
A mesma onde Ellen sentou assustada.
A mesma onde me enfrentou.
Passei a mão no rosto lentamente.
Respirei fundo.
Eu dizia que ela voltaria implorando.
Que pisaria no próprio orgulho.
Que cairia aos meus pés.
Mas no fundo…
Uma parte de mim já começava a entender algo terrível.
Talvez quem estivesse de joelhos nessa história…
Fosse eu. 🖤