Ricardo estava de saída do hotel quando sentiu um corpo se chocando com o seu, ele não esperava por aquilo e muito menos que a pessoa em si já tinha cruzado seu caminho há algumas semanas.
Ele sorriu, encarando os olhos assustados e cheios de lágrimas da jovem que mais uma vez cruzou o seu caminho. Clarice respirou fundo, sentindo o aroma de seu perfume invadir suas narinas e lhe trazer lembranças daquela manhã e da vergonha que sentiu.
— Você de novo? — Perguntou surpresa.
— Dessa vez você não caiu. — Sorriu gentilmente.
Ricardo segurava firme na cintura dela, enquanto Clarice estava segurando firme em seus ombros.
— Desculpe-me pelo esbarrão. — Pediu desculpas tentando desviar o olhar.
O corpo dela tremia muito.
— Não precisa se desculpar. Vejo que não está bem e é a segunda vez que encontro você chorando. — Ela baixou a cabeça, Ricardo ainda tinha seu braço em volta da cintura dela.
— E é a segunda vez que eu fico envergonhada ao te encontrar. — Ele soltou levemente o aperto em volta da cintura e a encarou.
— Não se sinta envergonhada, quem deveria se envergonhar é quem te deixou assim. — Falou. — Você está sozinha? — Ela assentiu. — Eu estava de saída e estou indo pra casa, você quer uma carona? — Perguntou.
— Se não for incômodo, eu gostaria sim. — Respondeu, passando as mãos pelo rosto.
— Não é nenhum incômodo. Vamos? — Chamou Clarice.
— Vamos, mas antes eu gostaria de pedir um favor.
— Claro, é só dizer. — Ele não negaria nada a ela naquele momento.
— Você tem uma equipe de segurança, não tem? — Perguntou.
— Sim, tenho. Você está sendo seguida ou correndo perigo? — Olhou para os lados preocupado.
— Não, mas eu fiz uma coisinha com o meu ex-namorado e a amante dele em um quarto desse hotel e preciso de uma pequena ajuda.
— O que você fez? — Perguntou com os olhos arregalados..
— Não é nada disso que você está pensando, os dois estão bem. Eu só joguei todas as roupas deles, sapatos, celulares e até a carteira dele e a bolsa dela dentro da piscina do hotel. Além de fazer uma baguncinha na cama e no carpete que renderá aos dois uma multa milionária. — Ricardo não se segurou e riu.
Ela tinha uma expressão de criança que acabara de fazer uma travessura, ele achou aquilo fofo, apesar de que ela aparentava estar também muito magoada.
— E o que exatamente você quer que eu faça? — Ela sorriu.
— Você vai mesmo me ajudar? — Perguntou.
— Claro que sim, é a segunda vez que encontro você chorando por causa desse cara.
— Primeiro eu quero que as coisas que estão na piscina desapareçam. A carteira dele, a bolsa da vagabunda e os celulares podem ser entregues na agência depois de forma anônima e as roupas podem ser jogadas na primeira caçamba de lixo. O segundo passo é que eu queria fotos e vídeos dos dois saindo do hotel.
— Poderia ter uma denuncia anônima que os dois destruíram o quarto. — Clarice sorriu.
— Assim os seguranças do hotel podem expulsar os dois. E com fotos e vídeos deles saindo do hotel podem ir parar na mídia e eu terei a minha vingança. — Ricardo percebeu que tinha um pouco de tristeza no olhar dela.
— O meu chefe de segurança irá fazer isso, mas vamos sair daqui logo, meu carro está no estacionamento e de lá eu posso resolver isso, é melhor que os dois traidores não nos vejam. — Ela assentiu.
De dentro do carro, onde ninguém podia vê-los, Ricardo deu ordens aos dois seguranças que estavam acompanhando ele.
— Como veio parar aqui e como teve acesso ao quarto? — Perguntou.
— Eu recebi uma mensagem dizendo que ele estava aqui e uma senha para conseguir acesso a chave, então consegui entrar no quarto e eles estavam no banheiro. Foi a cena mais nojenta que eu já vi em toda a minha vida. — Disse, sentindo repulsa de seu ex e Jennifer.
— Em nenhum momento você imaginou que isso podia ser algo pior e você está sendo chamada para uma armadilha e se o Henrique não estivesse aqui e fosse alguém que quisesse te fazer m*l? — Perguntou, ele parecia estar preocupado.
— Eu não pensei nisso, já estava com tanta raiva dele, que só queria tirar essa história a limpo… Espera, não foi você que fez isso, foi? Foi você quem mandou a mensagem? — Perguntou com curiosidade.
— Claro que não. Se fosse eu, teria me identificado e teria te acompanhado até o quarto. Eu estava num jantar de negócios com dois casais chinês. Acredite, te encontrar aqui foi mais uma coincidência e eu não tenho nem seu número, como iria te mandar mensagem. — Ela sorriu.
— Mas você poderia conseguir facilmente, era só pedir para os seus seguranças. — Disse.
— Isso seria invasão de privacidade, eu não faço isso..
— Então me dá aqui o seu celular. — Pediu e ele entregou sem lhe fazer nenhuma pergunta.
Ela discou algo no aparelho rapidamente.
— Agora você tem meu número. — Entregou o aparelho celular a ele.
Ricardo sorriu gentilmente.
— E agora, você quer ir pra casa ou quer esperar os dois saírem do hotel?
— Vamos embora, eu irei esperar pelas fotos e vídeos em casa e antes quero atualizar o meu perfil nas minhas redes sociais para solteira e apagar todas as minhas fotos com ele. — Revelou.
Ricardo deu partida no carro e saíram dali. Clarice aproveitou para secar as lágrimas e tentar não chorar mais pelo homem que tanto lhe machucou.
— Você quer conversar sobre o que aconteceu? Sei que não somos amigos e nem temos nenhum tipo de i********e, mas você não parecia estar nada bem quando esbarrou em mim. — Disse Ricardo, mantendo sua atenção no trânsito.
Clarice ficou em silêncio por alguns instantes.
— Ser traída e ver a traição com seus próprios olhos não é a melhor experiência da vida. — Disse, quebrando o silêncio.
— Eu sei pelo que está passando, já vivi isso, quando tinha mais ou menos a sua idade, eu não presenciei a traição em si, mas fui trocado pelo famosinho da faculdade. Isso já faz muitos anos, mas é uma experiência que a gente nunca esquece. Isso vai passar, mas é algo que marca de alguma forma. — Disse.
— Além de me trair com uma siliconada ridícula, ainda disse que o meu pai não vai gostar que eu termine com ele. — Disse com uma certa raiva.
— E por que o seu pai não vai gostar do fim desse namoro? Ele te traiu e pelo jeito que eu a vi da última vez, a forma que ele a tratou, o seu ex-namorado já vem fazendo isso há bastante tempo. — Ricardo a encarou rapidamente.
— Nossas famílias são muito amigas e com o nosso casamento, as empresas de ambas famílias iriam ganhar muito com isso. — Ricardo balançou a cabeça, entendendo o que aquele casamento significava para os pais daquele casal que não existia mais.
— Transação comercial! — Disse.
— Como? — Perguntou Clarice.
— Esse casamento seria apenas uma transação comercial, uma união de negócios. Você seria como um bilhete de troca. Eu sei o quão influentes e conhecidos no mundo da beleza e cuidados dermatológicos a família do Henrique é, e os benefícios financeiros que o casamento de vocês traria para o seu pai. — Falou.
— Como sabe de tudo isso?
— Eu estou sempre por dentro dos negócios nessa área e sei o quanto Humberto Aliperti gosta de fazer bons sócios. Mas não troque sua felicidade por um investimento, nunca se deve envolver negócios com amor. — Disse por fim.
— Depois do que eu vi, eu seria incapaz de deixá-lo me tocar de novo. Não vou casar com ele, mas não vou deixar essa história assim. Se eu sou uma pessoa fútil, mimada e sem conteúdo, irei agir feito criança e mostrar o que ele fez comigo. — Respondeu. — Será que o seu segurança conseguiu alguma coisa? — Perguntou.
— Só vamos saber quando chegar em casa.
— Então você me envia as fotos e os vídeos? Caso ele consiga. — Perguntou.
— Eu não acho uma boa ideia você fazer a publicação das fotos com o seu celular.
— Por que não?
— Eles vão rastrear o ID do seu celular ou notebook e pode não ser muito bom para você. — Respondeu.
— Então o que eu faço? Você sabe como fazer isso sem deixar rastros? — Clarice perguntou.
— Eu não, mas o meu chefe de segurança sim. — Ela sorriu.
— Então posso ir pra sua casa? Quero ver quando essa bomba explodir, mesmo que amanhã eu estampe todas as capas de revista e apareça em todos os blogs de fofoca com a mulher mais cornélia do país, ainda quero ver a vergonha que os dois vão passar. — Falou.
— Talvez não, você é a vítima. Muitas pessoas odeiam esse tipo de coisa e podem ficar do seu lado. E sim, você pode ir comigo para a minha casa. — Ela assentiu.
— Mas ele é homem, vão dizer que é normal e muitos vão ficar do lado dele. Você vai ver, é sempre assim.
— Independente de ser homem ou mulher, uma traição sempre será sinônimo de mau caráter. — Disse Ricardo.
— Posso te fazer uma pergunta? — Perguntou, sem perceber que ele acabara de entrar no condomínio onde moram. — Só que é uma pergunta pessoal. — Disse.
— Quantas quiser fazer, apenas faça. — Respondeu sorrindo.
— Você disse que já foi traído, mas e trair, já traiu alguém? — Ricardo parou em frente ao portão de casa, que logo foi aberto.
— Não, nunca trai. Meu pai me ensinou a não fazer com os outros o que eu não queria que fizessem comigo. — Clarice o encarou, e ao estacionar em casa, ele também pode encará-la. — Quando alguém comprometido fica com outra pessoa e afirma que ama o seu companheiro, isso é mentira. Não acredito que alguém seja capaz de amar um e sentir atração por outro, isso é qualquer coisa, menos amor de verdade, eu nunca senti vontade de trair nenhuma mulher que eu estivesse envolvido, quando eu estou com uma pessoa é só com ela que eu quero ficar, se a escolhi é porque ela é suficiente para mim. — Concluiu.
— Se você nunca traiu, significa que você amou a sua esposa até o dia da sua morte, não é? — Perguntou.
— Sim. Fomos casados por dezoito anos e todos esse anos eu não me senti atraído por mulher nenhuma, ela era tudo que eu precisava e acredito que ela também sempre foi fiel. — Respondeu, em seguida saiu do carro, fazendo-a perceber que já estavam em sua casa.
Novamente Ricardo fez aquilo que ela não via a maioria dos homens fazerem e isso incluía até mesmo seu próprio pai, mas aquele simples gesto de abrir a porta do carro pra ela, já deixava-a muito encantada e assim aquele homem que nos dois encontros que tiveram por uma simples coincidência, já tinha se tornado completamente diferente de todos os outros que ela já conviveu.