~ Ele é diferente ~

3186 Words
Clarice adentrou a mansão sentindo algo diferente. A forma como Ricardo tinha pedido para ela não chorar mais, deixou ela com o coração tranquilo e mesmo não sendo o tipo de mulher que faz o que os outros lhe pede, ela não queria mais chorar por Henrique, ele não merecia suas lágrimas, não depois de ter sido tão grosseiro com ela. Ela estava distraída, mas os seus olhos denunciavam que ela havia chorado e assim que ela adentrou a sala de estar, seus pais perceberam. — O que aconteceu com você? Foi assaltada? Alguém fez alguma coisa r**m com você? — Marta, mãe de Clarice, perguntou. — O que vocês estão fazendo em casa a essa hora? Não deveriam estar na empresa? — Perguntou. — Primeiro nos responda o que aconteceu com você. — Exigiu Humberto, pai de Clarice. — Briguei com o Henrique e quando ia saindo no estacionamento da agência eu escorreguei e caí. — Omitiu a parte que basicamente foi atropelada pelo motorista de seu novo vizinho, Ricardo Bozaski. — Posso saber por que você brigou com o Henrique? — Ela negou. — Não fui eu que briguei, pai. Foi o Henrique que foi grosseiro comigo e disse que eu era fútil e que não ia me pedir em casamento no dia do meu aniversário e tampouco ia me ajudar a organizar a festa. Eu queria a ajuda dele, a opinião do meu namorado é importante para mim, mas ele não entende isso e me tratou muito m*l, sequer me consolou enquanto eu chorava. — Bateu o pé fazendo birra. — O Henrique está certo. Ele é um homem ocupado para perder o seu tempo organizando festa de aniversário que pode ser feita por outras pessoas e você precisa crescer, se comporta feito uma criança mimada, Clarice, aprenda a ser uma mulher na personalidade e nos seus atos. Um pedido de casamento não é uma joia ou um sapato que você queira ganhar e pede. Um pedido de casamento acontece naturalmente, não perturbe o rapaz com essas tolices. O casamento de vocês vai acontecer uma hora ou outra, ele é o melhor partido para você. — Humberto, isso lá é coisa que se diga? Ela é sua única filha, seja paciente e tente entender o que ela está passando. Nós mulheres temos sonhos que podem parecer s*******o para vocês e sem sentido, mas para nós, eles são muito importantes. — Marta reclamou. — Pai, é o meu sonho me casar, não é uma tolice. O Henrique passa todo o tempo dele preso naquela agência. Foram dez dias sem se ver e ele sequer me deu um beijo, pensei que ele ficaria feliz ao me ver, mas foi tudo ao contrário, ele me tratou como um nada e ainda foi grosseiro comigo. — Choramingou. — Isso é pra você aprender a não perturbar seu namorado no trabalho. Eu não quero fazer feio para a família do Henrique, eles são pessoas bastante importantes e ter uma boa ligação com a família dele vai ser ótimo para os negócios da nossa família. — Clarice bateu o pé novamente. — E onde ficam meus sentimentos, eu não quero casar e continuar solteira. Quero um marido que não dê toda a sua atenção para os negócios, eu também preciso de atenção, pai. — Reclamou chateada. — Calma, Clarice. Eu tenho certeza que o Henrique só estava um pouco estressado, logo ele vai vir te ver e vocês farão as pazes. Mas quanto ao seu aniversário, temos que conversar sobre isso. — Marta disse. — O que tem a minha festa de aniversário, mãe? — Arregalou o olho encarando Marta. — Esse ano não vamos poder fazer a festa que você tanto deseja. — Clarice riu. — Isso é uma brincadeira, não é? — Perguntou sem acreditar no que estava ouvindo. — Não, não é. Estamos indo para a Argentina, aconteceu alguns imprevistos na filial de lá e teremos que resolver pessoalmente e não sabemos quando iremos voltar. — Não mãe, vocês não podem fazer isso comigo. Eu vou com vocês ou vocês podem voltar antes do meu aniversário, não podem? — Perguntou. — Não, você vai ficar. Nosso voo sai em duas horas. Você fica aqui com o Henrique e depois você pode fazer uma viagem com a Viviane e com a Elen no seu aniversário ou pode fazer a sua própria festa sozinha, do jeitinho que você tanto deseja. — Isso não está certo, vocês deviam ter falado comigo antes. E eu não vou fazer nada sem a sua ajuda, mãe. Eu só tenho vocês, poxa, queria comemorar meu aniversário com os dois presentes como sempre foi. — Nem tudo é como você deseja, Clarice. Comemoramos 22 anos sem falhar nenhum, ano que vem você vai fazer aniversário de novo e pode fazer a festa que quiser. Também estamos dando a você a oportunidade de viajar com suas amigas, você pode ir para onde quiser com tudo pago, sem nenhuma preocupação. — Não é a mesma coisa, pai. Você não entende. — Reclamou. — É o que podemos fazer por você nesse momento e não reclame, você tem uma vida de princesa, sem falar que ainda estamos te dando uma viagem, não reclame mais. Vamos Marta, não podemos nos atrasar, essa hora o trânsito é um verdadeiro inferno. — Chamou Humberto. — Tchau querida. Se cuida! E qualquer coisa, já sabe a Julieta está aí pra qualquer coisa que precisar, além da Camilinha e do Henrique. — Eu não conto com o Henrique, ele não me procura mais e se for para precisar dele e ouvir grosserias como as que eu ouvi hoje, eu prefiro a ajuda de estranhos. — Instantaneamente a imagem de Ricardo e o seu sorriso veio em sua memória. — Você tem que parar de reclamar do Henrique, se quer um bom marido, tem que entender que o trabalho vai ocupar boa parte do tempo dele. Não seja uma esposa que só sabe reclamar, nós homens odiamos mulheres assim. — Disse Humberto. — O trabalho dela ocupa todo o tempo dele, não duvido que esteja dormindo na agência. — Reclamou Clarice. — Não faça bobagens! Você já é uma adulta e não uma menininha para de ficar reclamando pelos cantos. Acredito que você já tem idade suficiente para cuidar de você mesma. — Humberto disse, seguindo em direção à porta. — Claro, pai. Não se preocupe, acredito que de tanto falarem pra eu amadurecer, isso realmente aconteça. Só espero que o senhor não se surpreenda e deseje que a versão mimada volte. — Seu pai só está preocupado e estressado com tudo que vem acontecendo na empresa, não leva essas coisas a sério. — Exatamente mãe, quem o deixou assim foi o trabalho e não eu, não mereço que ele desconte sua raiva em mim, que ele fique furioso com quem fez algo errado com a empresa. — Abraçou Marta em seguida. — Se cuida e quando sentir saudades, me ligue. — Só quando sentir saudades? — Perguntou sorrindo. — Você sabe que não. — Sorriu e deixou um beijo carinhoso na testa da filha. Clarice se despediu de sua mãe e observou o carro do seu pai deixar a mansão, suspirando, enquanto imaginava quanto tempo ela ficaria sozinha novamente. Ela não tinha certeza de quanto tempo ficaria longe de seus pais, mas não seria a primeira vez que ficaria longe dos dois por tanto tempo. Foram tantas as vezes que ela ficou naquela casa sozinha, contando apenas com a companhia dos funcionários e de Camila, filha da governanta de sua casa, que tornou-se uma irmã para ela. — Menina, o que aconteceu com você? Andou brigando na rua? — Julieta perguntou preocupada. — Longa história, Juju! Mas não tem mais importância, porém, eu tenho que desmentir aquele ditado que diz que homens não todos iguais e só mudam de endereço, isso não é verdade. Vou tomar banho, na verdade vou ficar uma hora de molho na banheira para que eu possa me sentir limpa, meu cabelo está horrível e gritando para ser lavado e hidratado. Também tenho que tentar esquecer algumas coisas que aconteceram hoje. — Disse de forma dramática. O cabelo dela estava impecável e intocável como sempre. — Acho que só seremos nós por algum tempo. — Disse a mais velha. — Como nos velhos tempos, Juju. sem nenhuma novidade. Isso me faz lembrar a minha infância, pelo menos eu tinha você e a Camila e que bom que continuo tendo. — Desde pequena, Clarice via seus pais viajarem de uma hora pra outra e passarem de dois a três meses em outro país resolvendo problemas profissionais e ela ficava sob os cuidados de Julieta, que tinha autorização de seus pais para representá-los em qualquer circunstâncias. A jovem entrou no seu quarto e foi diretamente para o banheiro, onde encheu a banheira com água, adicionou alguns sais de banho e entrou na mesma, sentindo os músculos do seu corpo relaxarem em contato com a água morna. Ela estava precisando urgentemente daquilo. Seus pensamentos a levaram até o ocorrido de mais cedo e a fez pensar em Ricardo e sua gentileza. Ela tinha ficado encantada com a ação do homem e simplesmente não conseguia tirá-lo da cabeça. Tentava lembrar de quantas vezes tinha sido tratada daquela forma por um homem e não conseguia lembrar de nenhuma, já que nenhum homem tinha sido tão gentil e atencioso como ele havia sido. Ele era diferente de todos os homens do seu ciclo de amigos e até mesmo dos amigos do seu pai, que eram exatamente como Humberto e Henrique. — Será que eu vou encontrar você mais uma vez? — Fez a pergunta para si mesma em voz alta, enquanto brincava com as espumas do banho. — O que você está pensando, Clarice? Está parecendo uma boba, você não é mais uma adolescente que se encanta por causa de uma gentileza, muito menos ele é um adolescente. — Riu de si mesma. — Clarice? Está no banho? — ouviu uma voz familiar chamá-la. — Oi Camilinha! Estou sim, pode entrar. — Entre as duas jovens não havia nenhum tipo de restrição e era como se fossem duas irmãs, então era comum elas se verem em momentos mais íntimos. — A mamãe falou sobre a viagem dos seus pais e sobre possivelmente não acontecer o seu aniversário. — Falou Camila após entrar no banheiro, que era imenso. — Está tudo dando errado, Camilinha. Primeiro, fui até o Henrique com a melhor intenção de todas, estava morrendo de saudades dele e ele me tratou com uma qualquer e ainda disse que não me pediria em casamento no meu aniversário, ainda disse que éramos muito jovens para casar… — Nisso, eu concordo com ele. Mas não exatamente pela idade, mas sim pelo fato do Henrique não ser o homem certo para você, eu já disse isso várias vezes. Ele é estranho, não aparenta ter sentimentos por ti. Parece mais que o relacionamento de vocês é uma união comercial do que amorosa, apesar de não ser algo incomum entre vocês, pessoas do alto escalão. — Clarice a observou. — Você acha isso? — Indagou com confusão no olhar. — Sim, essa é a minha opinião. Que namorado passa dez dias sem ver a namorada se ele mora bem aqui do lado e quando ela vai vê-lo ele age feito um babaca? Ele não te merece, Clarice. — Respondeu Camila. — Eu nem sei mais o que pensar, Camila. Parece que tudo está dando errado. E não estou aqui para ser um bilhete de troca, se ele e o papai acham que vão me usar para alavancar a empresa deles, estão muito enganados. — Falou. — Só você pode decidir se vai deixar dar errado. Você é jovem, rica, bonita, inteligente, culta, às vezes um pouco fora da casinha, mas mesmo assim tem um coração grandioso e merece o melhor. — Camila era uma amiga sincera. Clarice riu. — Mas não foi exatamente isso que eu vim falar com você, a mamãe disse que você chegou toda suja em casa e não contou a ela o que aconteceu, agora ela está preocupada contigo. O que aconteceu com você? — Clarice sorriu novamente e se moveu dentro da banheira e apoiou os braços na sua borda. — Ela está se preocupando à toa. Senta aí que eu vou te contar. — Camila sorriu. — Esse sorriso não é de alguém que teve uma manhã completamente desastrosa, estou certa? — Clarice assentiu. — Eu vou te fazer uma pergunta antes, Camilinha. Me responda com toda sinceridade. — Disse. — Tudo bem, pode fazer. — Em algum momento da sua vida, você já foi machucada por alguém e minutos depois foi bem tratada por outra que a pessoa que te tratou m*l depois se tornou irrelevante? — Camila sorriu e respirou fundo. — Já sim, foi quando o Leo se declarou pra mim, depois do i****a do Guga me dar um fora e me deixou constrangida e envergonhada no meio da boate. — Clarice sorriu lembrando de como Camila e Leo, melhor amigo dela, tinham começado a namorar. — Verdade, eu lembro desse dia. Você veio correndo pro meu quarto de madrugada contar essa novidade. — Sim, foi um dia que eu nunca vou esquecer. Mas porque me perguntou sobre isso aconteceu o mesmo com você? — Ficou curiosa. — Não da mesma forma, mas foi algo parecido. O que explica a minha roupa suja. — Começou. — Depois que o Henrique foi grosseiro comigo e acabou com o meu sonho de ser pedida em casamento no meu aniversário, eu saí da sala dele chorando e abalada. Então quando eu cheguei no estacionamento, não prestei atenção e quase fui atropelada, por isso as roupas estão sujas, porque eu caí naquele chão imundo, mas não fui atingida pelo carro, o medo de ser atropelada me fez cair. O motorista saiu assustado e depois o chefe dele. — Sorriu. — Que pelo seu sorriso, foi bastante atencioso. — Atencioso e gentil. Mesmo eu não estando machucada, ele fez questão de me trazer em casa. Ele deixou de ir para uma reunião de negócios para me trazer em casa, coisa que o próprio motorista dele poderia fazer ou até eu mesma, já que estava bem. Porém, segundo ele, eu não estava bem emocionalmente e não ficaria tranquilo sabendo que estava dirigindo naquelas condições. — Camila sorriu. — Então os cavalheiros ainda existem? — Existem sim e o melhor, ele se mudou recentemente para o nosso condomínio e eu fiquei muito constrangida em não saber disso. — Por que ficou constrangida? Você nunca fez amizade com nenhum vizinho. — Sorriu. — Porque não é qualquer vizinho, é simplesmente Ricardo Bozaski! — Revelou. — O dono do grupo Bozaski? Designer da maioria de suas joias? — Clarice sorriu. — O próprio! — Respondeu animada. — Clarice, ele tem a idade do senhor Humberto, é viúvo e tem dois filhos. — Camila falou. — Ele até pode ter a idade do papai, mas se colocá-los lado a lado, ele se passa como filho do meu pai. A sua aparência é de um jovem e nem adianta comparar ele com o papai, o senhor Humberto é um grosso também, assim como o Henrique, até parece que o próprio Henrique é filho dele. Ele ficou do lado do Henrique e me colocou como culpada por ele ter sido um ignorante comigo, acredita? Os dois são idênticos, e o Ricardo é completamente diferente deles. — Camila sorriu. — Tudo bem, o senhor Humberto e o Henrique são dois tolos e grosseiros, isso eu já entendi e também já sabia disso. Agora me explica por que esse imenso sorriso quando fala do Ricardo? — Perguntou Camila. — Eu não sei! Eu só sei que me senti bem com ele. Antes de se despedir de mim, ele falou que nenhum homem merece as lágrimas de uma mulher. — Ele está certo, mas somos tontas e choramos por esses idiotas. — Ele pediu para que eu não chorasse mais pelo Henrique e é exatamente isso que eu vou fazer. Não vou chorar mais por ele. E irei comemorar o meu aniversário com uma bela viagem e conto com a sua companhia, também vou chamar a Vivi e a Elen. — Camila franziu o cenho, sentindo que iria deixar a amiga triste. — Infelizmente não vou poder ir, além daquelas duas tontas irem com você, tem a faculdade, Clarice. Vai ser mesmo na semana de provas e tenho dois seminários para apresentar e você sabe que por eu ser bolsista, não posso tirar notas baixas, nem ter muitas faltas. Mas quando você voltar dessa viagem, podemos sair, só nós duas. — Falou. — Eu tinha esquecido que você não se dá bem com a Vivi e com a Elen. Eu queria ter você comigo nessa data. — Elas não aceitam o fato de você ser amiga da filha da sua empregada. E você sabe que estou com você sempre, independente se estamos juntas ou não. — Disse. — Você sabe que eu não penso como elas, e já briguei com as duas por causa disso. Você e a Julieta são mais do que a empregada e a filha dela, você é como uma irmã e a Juju é como uma tia, vocês estão mais presentes na minha vida do que meus próprios pais. — Eu sei disso. Mas me responda uma coisa: você ficou balançada pelo Ricardo? — Não sei o que eu senti, o que estou sentindo. Mas desejo muito encontrá-lo novamente. Ele é muito mais que um rosto bonito e um corpo bem cuidado, ele é diferente, como se tivesse saltado de dentro de um livro. — Falou. — Acho que essa história está só começando, algo a mais ainda vai acontecer e pelo jeito que sorri, o Henrique já é passado. — Camila! Não diga isso, eu vou casar com o Henrique, mas gostaria de ter a amizade do Ricardo. — Só a amizade? — Só a amizade, não pense bobagens, sua boba. — Não vou pensar em nada, mas vou aguardar os próximos capítulos dessa história. Agora saia dessa banheira e vamos almoçar. — Você vai ficar para o almoço? — Sim, sai mais cedo do trabalho e tenho mais duas horas livres. — Clarice se levantou rápido. — Que bom! Faz tempo que não almoçamos nós três juntas, como quando éramos crianças e você me forçava a comer legumes e saladas. — Eu fiz um bom trabalho, hoje você é apaixonada por eles. — É, e agora está estudando para fazer mais pessoas gostarem de legumes e verduras, e sua insistência me ajudou a manter essa silhueta. — Sorriu. — Digamos que você foi a minha primeira paciente e que deu super certo. — Camila fazia faculdade de nutrição. Clarice quando estava na presença de Camila conseguia ser uma jovem comum e não a garota mimada que seus pais tinham lhe transformado e a amizade das duas era sincera e ambas se entendiam, eram confidentes uma da outra.
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