Lobo Narrando.
Como eu falo, os problemas nunca param no morro. O dia m*l amanheceu, em plena segunda-feira, e eu já estou indo resolver problema com morador bêbado, ameaçando a mulher e os filhos dentro de casa.
E, se tem uma coisa que eu gosto de resolver pessoalmente, são esses tipos de coisas. Homens covardes têm que lidar com homens de verdade, e isso eu faço questão de mostrar para ele.
— Bom dia — falei, me aproximando dele.
Que arregalou os olhos ao me ver.
— Lo...bo — falou, gaguejando.
— Vamos ter uma conversinha — falei, com um sorriso de lado.
Ele caiu de joelhos no chão.
— Por favor, eu prometo que nunca mais vou fazer isso — falou.
— Odeio homens como você — falei, me abaixando na sua frente.
— Vai me acompanhar ou quer resolver aqui mesmo, na frente da sua família e do morro todo como plateia? — falei, olhando nos olhos dele.
Ele olhou em volta, vendo a quantidade de pessoas que estavam prontas para ver o show, e assentiu, se levantando.
— Boa escolha — falei e me levantei.
Ele veio me acompanhando, com os vapores do seu lado. Chegamos à boca.
— Levem ele para a salinha — falei, sentindo meu celular tocar no bolso.
Peguei, mas não conhecia o número. Atendi.
— Fala — atendi.
— Gostaria de falar com o Lobo — falou, com muita formalidade.
— É ele. Pode falar — eu respondi.
— Sou Helena, da ONG Aprender e Crescer. Queremos marcar uma visita...
Nem deixei terminar de falar.
— Não — respondi.
— Você nem me deixou falar — falou.
— E nem vou — falei e desliguei.
Era só o que me faltava: esses sanguessugas do governo virem pagar de bons samaritanos no meu morro.
Voltei a andar para a salinha, mas meu celular tocou de novo. O mesmo número.
Essa é insistente.
— Você não pode desligar assim na cara das pessoas — ela já falou de cara, assim que atendi.
— Eu posso e faço o que eu quero, e não quero ONGs atrás de dinheiro do governo fingindo que fazem alguma coisa no meu morro. O morro é meu, cuido eu. Não me liga de novo, p***a — falei e desliguei.
— Menina abusada — falei para mim mesmo.
Coloquei o celular no bolso e fui para a salinha.
— Lobo, por favor, podemos conversar — falou.
— E o que você acha que vamos fazer? — falei, abrindo um sorriso.
— Eu juro nunca mais fazer isso — falou.
— Eu sei, e vou garantir que não faça — falei e dei um soco no seu rosto, fazendo ele tombar para trás.
Segundo soco, terceiro soco, quarto soco, quinto soco.
Ele caiu e abriu um sorriso de lado.
— Deixa ele aí até acordar e depois manda para casa, e avisa que, se voltar a repetir, ele nunca mais volta — falei, pegando um pano e limpando minha mão.
Saí da sala e voltei para a boca, mas meu rádio tocou.
“Lobo, tem uma ruivinha aqui na entrada querendo ver você” — o vapor falou.
“Tô chegando” — falei e subi na minha moto.
Não me lembro de nenhuma ruiva que eu tenha pegado recentemente, mas vou dar uma olhada. Mulher nunca é demais.
Parei minha moto na barreira e olhei para ela. Ruiva, dos cabelos cacheados longos, rostinho de boneca e corpo de modelo. Com certeza, essa eu não peguei. Se não, eu me lembraria.
Desci da moto e me aproximei do vapor que estava conversando com ela.
— Tá aí, ruivinha, quem você estava procurando — ele falou, e ela olhou para mim.
Travou os olhos em mim e não falou nada.
Cruzei os braços e abri um sorriso de lado.
— Te conheço? — falei, olhando-a de cima a baixo.
— Não, mas nos falamos por telefone — ela falou.
Olhei para ela, confuso.
— Helena da ONG — ela falou.
— Vejo que sua ousadia não é só pelo telefone. Teve a coragem de vir no meu morro — falei, com um sorriso de lado.
— Eu quero conversar, quero fazer alguns projetos...
Interrompi.
— Essa vai ser a última vez que eu falo com você, Helena da ONG — falei, me aproximando e olhando dentro dos olhos dela.
— Você pode parar de me interromper? Sua mãe não te deu educação? — falou, sustentando o meu olhar.
“Ela é valente. Nunca nenhuma mulher me peitou assim, além da minha vó.”
— Sabe quem eu sou para estar falando assim comigo? — falei, bem próximo dela.
— Um cara que está me impedindo de ajudar as pessoas — falou, se afastando um pouco, mas seus olhos não saíram dos meus.
— Olha, menina, vou relevar dessa vez, porque estou vendo que não sabe onde está pisando. Não volta mais aqui, porque não vai dar bom — falei, me afastando e me virei.
— Eu não tenho medo de você — falou alto.
Virei-me e olhei para ela.
— Deveria, porque um corpo pequeno igual ao seu é muito fácil de se livrar — falei, sorrindo, e ela arregalou os olhos.
— Tá me ameaçando? — falou, nervosa.
— Entenda como quiser. Não quero mais você no meu morro — falei, nervoso.
“Essa menina está querendo que eu perca a cabeça.”
— Eu vou voltar todos os dias, até que você aceite a nossa visita e a nossa ajuda — falou.
— Pode ter certeza de que, da próxima vez que você voltar aqui, você nunca mais sai — falei, olhando nos olhos dela.
Eu vi o medo no olhar dela, mas ela não abaixou a cabeça.
— Então nos vemos amanhã — falou e virou as costas para mim.
“Filha da puta.”
— Quem era? — o Victor perguntou atrás de mim.
— Alguém muito abusada — falei.
— Nunca vi ninguém te enfrentando assim, além da vovó — falou, sorrindo.
— O bom é que essa eu posso matar — falei, indo para minha moto.
— Aviso para geral: se a ruivinha aparecer de novo, leva para a minha sala — falei, subindo na moto.
Menina abusada, mas ela vai saber com quem está mexendo. E eu vou fazer ela entender com quem está falando e para quem ela tem que abaixar a p***a da cabeça.
A filha da p**a conseguiu acabar com a p***a do meu dia. Nem sei por que eu fiquei nervoso com a merda de uma menina abusada que deve ter a idade da minha irmã.