Clara
Eis um ponto positivo de ser sequestrada por aliens: eu posso fazer o que eu quiser, mesmo que signifique não fazer nada.
Lyla, minha guia particular, que eu descobri recentemente que ela não é uma humana e sim uma mestiça entre dias especieis. De acordo com ela, sua mãe é humana e seu pai é uma das especieis de Luitz, um dos planetas da Corrente de Ferro. E a propósito, ela tem uma calda que eu não tinha visto antes, e é herança de seu pai.
— Se você visse alguém com um r**o, você não surtaria? Escondi para evitar um escândalo.
Foi o que ela me disse quando questionei. Mas o fato de ela ter um r**o não me assusta, na verdade me faz lembrar de como a causa entrega os sentimentos dela, assim como o dos cachorros. Outro dia no jantar, a calda não parava de balançar para os lados, totalmente agitada, quando viu um doce verde esquisito que tinha gosto de e**a doce.
Fora essa minha descoberta, e o fato das outras selecionadas acharem que eu passava fome por causa da minha magreza, tudo está...bem, como deveria para ser? Não é como se uma viagem espacial fosse ser tranquila, eu não me importo, de verdade, mas a aquelas garotas que choraram, brigam e imploram para ir para casa. E talvez, vê-las se importar tanto com as próprias vidas me fez perceber que eu tenho um problema, um problema bem real.
— Você deveria sair dessa cama — Falou Camile, minha colega de quarto.
— Pra quê?
— Essa nave pode até ser alien mas tem suas diversões.
Diversão. Não me lembro da última vez em que eu me divertir de verdade. Talvez tenha sido em um parque de diversões na minha cidade, quando minha avó ainda era viva e gostava de ir em rodas gigantes.
Que saudade dela.
Muita, muita saudade.
— Não tô afim.
— Você nunca tá afim de nada. Já parou para pensar que talvez as coisas melhorem se você ao menos tentar?
— Eu só não estou afim, Camile.
Consigo ouvir os passos dela pelo quarto, indo para a porta.
— A vida, Clara, não se resume a uma cama.
Dito isso, ela sai e eu ouço a porta se fechando.
Mas, não se trata de uma cama, ou de estar triste. Não se trata de qualquer achismo que alguém pode inventar.
Meu vestido é azul claro, simples e liso. Não tem mangas, apenas alças finas de prata. Ele é longo, até meus pés. Eu escolhi o modelo, e Lyla bateu palminhas em animação.
— Você está linda. — Disse ela com um sorrisinho nos lábios. — Acho, querida, que você tem chances de se tornar a princesa de Carná.
— Ah, por favor, Lyla. A única chance que eu tenho é se ser comparada a uma...não sei nem o quê.
Eu não me importo se os ossos das minhas costelas estão aparentes, ou se minha clavícula está proeminente, ou que os ossos do meu quadril possam ser vistos através do tecido fino do vestido. Mas os olhos...
Eu os herdei da minha mãe. Vovô sempre dizia que meus cabelos castanhos e meu nariz pequeno e fino são do meu pai, já meus olhos e lábios são idênticos aos de minha mãe. E vê-los tão...apagados, frios, mexe comigo. É como ver ela através do espelho. Um fantasma, é como me pareço e minha mãe está ali, no reflexo do espelho, em meus olhos, decepcionada com o futuro que terei.
Não consigo olhar mais para meu reflexo e me viro na pequena plataforma local.
— O grande dia é amanhã, não está animada? Ou preocupada?
Por que eu estaria? O que pode acontecer de tão r**m comigo além de eu ser jogada de volta a Terra para voltar aquele trabalho miserável, aquela casa vazia e a cama de sempre?
Mas, Lyla não merece que eu jorre toda a minha amargura nela. Ela foi gentil, e me explicou todas as dúvidas e respondeu todas as perguntas que eu tinha sobre a Corrente de Ferro. Ela é uma amiga, uma boa amiga.
— Estou nervosa, acho. Não por ser escolhida, mas por ter que ficar de frente a uma plateia enquanto me julgam. — Em partes, isso é verdade. — Digamos que eu não esteja em minha melhor forma.
Lyla sorri gentilmente.
— Eu não sei, minha amiga, o que tanto faz seu coração sofrer — Ela segura a minha mão —, mas sabe o que vejo quando olho para você?
— Alguém miserável?
Ela balança a cabeça para os lados em negatividade.
— Eu vejo alguém que ainda não desistiu. Uma parte de você ainda luta, e não diga que não. Tudo o que você precisa é reconhecer essa vontade, e então seguir em frente.
— Você fala como se fosse fácil, Lyla. — Olho para o teto,um tic que tenho quando estou prestes a chorar.
— Não é, eu sei. Eu só acho que sua vida vale mais do que toda essa tristeza.
Minha vida vale mais? Mais do que o luto? Mais do que eu ter visto minha vó morrer em minha frente? Vale mais do que toda a dor que eu sinto de ter sobrevivido ao acidente de carro que matou meus pais?
Eu não sei.
De verdade.
Mas o valor de minha vida será colocado em prova amanhã, quando alguém decidirá se eu valho a pena para ser comida, esposa, ou um lixo que poderá voltar para Terra.
Nunca me senti tão diminuinda em toda a minha vida. Mas também não me lembro de me sentir diferente disso.