Cap.1
Clara
Acordar com a voz de Lia Nelson — locutora da rádio local —, dizendo que o dia será ensolarado e sem nuvens, com uma máxima de trinta e dois graus, não é como eu gosto de começar o dia. Se ao menos estivesse chovendo, com as ruas de Fortaleza alagadas, eu poderia inventar uma desculpa para não ir trabalhar.
Mas não, o universo me odeia.
Me levanto da cama, pois mesmo que queria ficar em casa, trancada em meu quarto e deitada em minha cama, assistindo qualquer coisa na internet, eu ainda tenho que pagar minhas contas.
Morar em Fortaleza não foi uma escolha sonhada, pois eu preferia estar em Curitiba — onde chove com mais frequência e o calor não parece que vai derreter sua pele —, ao invés da capital do Ceará. A questão foi, morar em um lugar em que o aluguel é barato e cabe em meu bolso? Ou, ir para um lugar em que eu terminaria como uma moradora de rua?
A escolha foi óbvia.
Não senta do meu lado, não senta do meu lado.
Droga. Eu sou a piada cósmica, não sou?
— Ei b******a, abre essa janela. O calor está me matando!
Falou a mulher, cujo o batom roxo brilhante está grudado nos dentes e a linha do seu short ultrapassou a b***a. Isso poderia ser uma calcinha jeans de tão curto.
— Está aberta o suficiente, senhora.
Mesmo assim, ela tenta puxar a janela do ônibus. O braço dela está a centímetros do meu rosto, ameaçando me dar uma cotovelada bem em meu nariz, e o cheiro de CC é forte e vem de sua axila.
São seis e meia da manhã e ela já está suada e fedida. O sol do Nordeste faz esse estrago na gente, mas pessoas com um pingo de higiene tomaria um banho e usaria desodorante.
A questão aqui é, eu sou chata ou vivo em um lugar em que não me cabe? Será que eu estou vivendo certo? Por que por mim a vida poderia ser dentro do meu quarto, com salgadinhos e um filme.
É engraçado pensar no futuro dessa forma. Antes da morte da minha vó eu sonhava em ser cartografa, e trabalharia mapeando nosso imenso oceano que até então é um mistério para nós. Mas, a realidade é bem diferente. Minha vó morreu. Meus pais morreram. Até meu gato me deixou por uma senhora que lhe dava peixe ao invés de ração.
Até a vontade de viver me deixou.
Ele vai me pedir para fazer o check in do grupo de advogados, vai dar uma desculpa de estar ocupado, e vai dizer "vou ficar te devendo uma".
A primeira van chega ao hotel com meia dúzia de hóspedes. Meu trabalho? Recepcionar eles e fazer seus check ins. E é claro que meu superior, o recepcionista chefe, deveria me ajudar, mas no entanto.
— Clara poderia fazer o check-in deles? Eu tenho que resolver um assunto com o Robson.
O tal assunto? O que eles vão almoçar no restaurante do hotel.
Não tenho como dizer não. Sou apenas a segunda opção entre eles. Aquele quem fica com todo o trabalho difícil.
Evito suspirar em desânimo, porque a última coisa de que preciso é de Daniel achar que eu estou fazendo meu trabalho com m*l agrado.
O que eu estou, aliás.
Eu sonho com o dia em que eles vão me demitir e eu não vou precisar trabalhar por cinco meses. Ah, bendito seja o seguro desemprego.
— Claro, Daniel. — Digo isso com o sorriso mais falso em meu rosto. Que grande i*****l.
Se eu pudesse classificar esse dia em 0 a 10 eu diria que foi -1.
No final do expediente, Daniel recebeu os créditos pelo excelente trabalho com o grupo dos advogados e eu quase voei no pescoço de Robson. Eu quem recepcionei, fiz reserva, abrir conta, verifiquei se todos os quartos estavam em ordem para eles e ainda assim, o crédito não é meu.
— Até amanhã, gracinha. — Diz o meu chefe, recolhendo suas coisas para ir bater o ponto.
O infeliz me fez ter que ficar. No final do dia, quando nosso turno acaba, temos que fechar os caixas e as mesas abertas, e para a minha infelicidade, Daniel e Robson vai se encontrar em um bar para tomar chopp.
Esse dia não tem como ficar pior.
O dia ficou pior. Dez mil vezes pior.
A tão desejada chuva descidiu cair de uma só vez. O céu despencou em água e tudo ficou molhado e cheio de lama e o ônibus apertado parecia uma sauna úmida e com goteira.
É por esses motivos em que eu acredito que minha vida já acabou e agora é só laderia a baixo. Como se pudesse, milagrosamente, algo acontecer e me tirar desse inferno.
Quando eu chego em casa — na minha casinha de um andar em um condomínio barato —, a única coisa que seu fazer é chorar.
O dia foi um inferno e eu estou ensopada e cansada e faminta. E tão...vazia. Eu só quero sumir. Eu só quero da um fim a tudo isso. Mas não tenho coragem para fazer algo. Não quando meu corpo pode apodrecer nesse apartamento abafado. Sozinho. Eu nunca quis morrer sozinha.
Me levanto do chão a qual eu desabei e vou para a cozinha. Comer é , ainda, uma das coisas que me alegra. Ligo a tv da sala e deixo a voz de Adriana Esteves preencher o apartamento. Eu nunca gostei de novelas brasileiras, mas minha avó amava e assistir a essas dramas me faz sentir como se ela estivesse aqui.
No armário pego o macarrão e na geladeira a carne moída.
Nada como um macarrão a bolonhesa para m***r a fome e o cansaço. Ou melhor, para vencer a tristeza. Se é que isso é possível.
A princípio, eu achei que eu estivesse sonhando. Era só mais um sonho estranho onde uma luz me tirava da cama e me levava para os ares até uma nave. Avião. Foguete. Algo que planava no céu. Uma a******a na nave me puxou para dentro.
Só que, em algum momento, ficou realista demias. O chão embaixo de mim é gélido como metal resfriado. O teto a qual estou encarando é um tipo de azul acinzentado e luzes e serpentes holográficas e brilhante, como fios de uma rede, enfeitam ele.
— Você está bem? — Uma voz feminina fala e então, uma mulher loira aparece em minha visão, sobre mim. — Quer mais tempo para ficar aí?
Pisco os olhos. Como é que é?
Em meus sonhos, geralmente aparecem homens de todos os tipos e cores, e as vezes — se eu tiver ingerido muito açúcar —, sonho com carros monstros e bandas de roque. Nada, em meu mundo dos sonhos, fazia muito sentido. Mas uma loira? É a primeira vez que sonho algo assim.
— Ei, garota. Está me ouvindo?
— Estou, eu...onde eu estou?
Ela estende a mão e eu aceito, pois ela me dá suporte para levantar.
De pé percebo que a loira tem símbolos em sua bochecha esquerda e que a roupa dela — um vestido social cujo o tecido é holográfico e brilhante —, é muito esquisito.
— É uma longa história, e por isso eu, Lyla, sou sua guia.
— Minha guia? — Franzo o cenho. Acho que a carne moída estava estragada. — Esse sonho está ficando esquisito demais.
— Ah, guerida, sinto lhe informar — A expressão do rosto dela fica seria e meu corpo reagi instantâneamente. Mas que p***a está acontecendo aqui?! Minhas mãos começam a suar frio. — , mas você está bem acordada.
— Eu...como? Isso é um sequestro?
— Hum, mais ou menos. Não fique nervosa, eu vou lhe explicar tudo.
Lyla engata o braço no meu e me arrasta para dentro da coisa...nave...foguete. Ah, não sei.
— Existe uma sociedade intergaláctica regida pelos cinco planetas mais avançados e ricos do espaço, essa aliança se chama Corrente de Ferro, e a corrente tem influência em todos os planetas.
Espera. Planetas? Aliança? Sociedade?
O que foi que eu tomei, pelo amor de deus! Acho que eu fui drogada, porque ela não pode estar falando de...
— Aliens!
— Sim, você pega as coisas rápido, isso é bom. — Ela sorri. — Bem, onde eu parei? Ah, sim! A aliança, bem, a Terra não faz parte dela. Na verdade a Terra é um dos planetas fazenda desse Sistema Solar.
— Olha, moça, eu não sei o que tá acontecendo aqui mas... — Ela franze o cenho, olhando para mim.
— Me deixe terminar, eu estou fazendo meu trabalho se não notou. — Ela volta a olhar para frente.
Entramos em corredores idênticos, que mais parecem labirintos. Houve portas e pequenas salas, mas não vi ninguém dentro delas. Eu estou mesmo em uma nave espacial? Eu deveria estar em pânico, mas sinceramente? Eu desisti a muito tempo atrás.
— Como eu disse, a Terra é um planeta fazenda, o que significa que quando algum planeta precisa de mão de trabalho, noivas, ou até mesmo peças especiais e exóticas de carne, é nos planetas fazenda em que eles vão procurar. E é aí que você entra! Antes de ficar em pânico, quero que saiba que está segura nessa nave, desde que não irrite os Nevlons.
— Nevlons?
— Sim, os ETs verdes de cabeça grande e corpo magrelo. Eles administram a nave. — Ela sacode a cabeça para os lados. — Mas não é isso que tenho que falar para você. O príncipe de Carná atingiu a idade madura e está procurando uma noiva.
— Noiva?!
— Sim, não me interrompa ou eu nunca vou terminar. O príncipe quer uma noiva fértil, já que as mulheres de Carná são quase todas estéreis. Então, fizemos uma caçada com as qualidades e fisionomias em que ele exigiu...
— E eu sou uma pretendente? Nossa, por essa eu não esperava. Tem certeza disso, tipo, eu?
— Sim, você se enquadra em quase todos os aspectos. Mas, é claro que a concorrência é grande, só nesta nave serão doze fêmeas para cadastrar.
Doze mulheres?!
Por que isso me deixou mais assutada do que o fato de eu estar em uma nave alienígena? E que eu não sei o que acontece se esse príncipe alien me escolher?
Tá louca, Clara? Quando que um príncipe vai escolher você?
— Eu tenho escolha? De participar?
— Infelizmente não, como eu disse, eles são a suprema corte do universo. Mas veja, se você não for escolhida por ninguém interessado, você poderá voltar para casa, e é claro que não vai se lembrar de nada disso. — Ela para em frente a uma porta, que é idêntica a todas as outras. Ela aperta um botão e então a porta se abre. — Este é o seu quarto, são sabines divididas, a sua colega está tirando medidas para um vestido.
— Um vestido.
— Você não presta atenção no que é importante, né?
— Depende, eu vou ter que pagar por esse vestido?
— Não, Carná bancará todas as despesas das fêmeas escolidas. — O sorriso debochado dela é notável, mesmo que não nitidamente, em seus lábios. Ela está rindo de mim.
Entro no quarto, querendo evitar seus olhos zombeteiros. É um quarto simples, com paredes em tons de amarelo claro e azul, com duas camas de solteiro, um banheiro e algo similar a uma cômoda só que oval e sem pés. O móvel está literalmente flutuando!
Isso é muito irado.
— Você tem alguma dúvida? — Ela pergunta.
Me viro para ela, que está parada no portal da porta, me encarando e esperando minha fala.
— Tenho uma. Você disse "ninguém interessado" , se o príncipe não me escolher e outro fizer, o que acontece comigo?
Sua expressão muda, e eu posso ver um pouco de relutância e preocupação nós olhos dela.
— Vou ser sincera com você, se alguém de Binze escolher você, estará em maus lençóis. Eles gostam do gosto da carne humana, mas geralmente preferem a carne dos machos. E se alguém te quiser como esposa...bem, você não tem escolha.
— É a minha vida, eu deveria ter escolha. — Abraço o meu corpo, começando a sentir o peso de tudo que ela jogou em mim em tão pouco tempo.
— Eu sei e sinto muito, mas as coisas são assim. Eu vou trazer seu café da manhã em três horas, descanse até lá. — Ela fecha a porta, que desliza pelo chão como um ímã magnético até a outra ponta do portal.
Tanta coisa foi dita, tanta loucura e insanidade. Se eu acreditava em aliens? É claro que sim, o universo é extenso demais para somente ter vida na Terra. Mas ser abduzida para ter uma chance com um príncipe alien?
Eu ainda acho que estou sonhando, mesmo que eu me sinta bem acordada.
O que eu posso fazer? Pelo menos não vou ter que ir para o trabalho amanhã.