Capítulo 5

1089 Words
- Como ela está? - Dormindo – Amanda suspira, massageando o pescoço. Ficamos as três tão apertadas na cama de Charlie e eu entendo o torcicolo. Estou grata por não ter um agora, também. – O chá ajudou a relaxar. E você, o que vai fazer agora? - Como assim? - O bonitão – ela sorri, ajeitando o r**o de cavalo. – Russel Price, não é isso? Vai dar uma chance a ele? - Por que eu faria isso, Amanda? Sei exatamente onde iria dar e não é em um bom lugar. - Não sei. Quer dizer, eu também pensava assim, mas quando vi o cara, ontem a noite... sei lá, Mel – o suspiro profundo que ela emite mostra que está muito mais decidida a respeito de Russel do que está me contando. – Talvez você devesse dar uma chance a ele. A risada que eu deixo escapar soa como um rugido m*l humorado. - Homens são complicações. Não é isso o que você costumava dizer? - Ei, eu ainda penso assim – Amanda se senta no sofá com as pernas dobradas para dentro. Ela me encara com seus olhos castanhos e intensos. – Mas eu vi a forma como você olhou para ele. E vi a forma como ele olhou para você. Mel, vocês se amam. Eu bufo, indo até a janela, onde assisto o trânsito de pedestres na rua. Esse é um dos poucos bairros de Nova York, onde as pessoas não caminham como se estivesse, sempre atrasadas. - Russel ficou no passado. Há um silêncio crescente e inquietante entre nós, antes que Amanda diga: - Ele precisa saber, Mel. Eu paraliso, sentindo o meu couro cabeludo formigar. - Não. - Você não vai contar a ele? Nunca? – ela me encara, confusa. – Isso não me parece justo. - Não foi justo comigo também – digo, magoada. – E ele não estava aqui para ver meu coração se partir em pedaços. Então não quero que esteja para tentar consertá-lo – ou que se sinta obrigado a isso, penso. - Acho que você está sendo egoísta. Eu me viro para ela, morrendo de raiva. - Como é que é? Eu estou sendo egoísta? Foi ele quem me abandonou. - Não foi bem assim. - Foi exatamente assim. Amanda suspira, se levantando e indo na direção da cozinha. - Tudo bem, Mel. Só... deixa para lá. Você quer um chá? - Eu não quero a droga de um chá – elevo a voz uma oitava e ela olha para mim, nem um pouco surpresa. Ela solta uma bomba dessa e vem fingir que nada aconteceu? Francamente. Muito típico de Amanda. - Azar o seu – dá de ombros. – Vou fazer um chá assim mesmo. Mel... - O que é? - Eu sinto muito por ter ofendido você, mas não vou passar pano para as suas besteiras, não. Vaca. - Vou dar uma volta. Preciso esfriar a cabeça e não vou fazer isso aqui – aviso, furiosa, pegando minha bolsa que tinha sido deixada sobre a mesa. – Até mais tarde, Amanda. - Até mais tarde, Mel. Não é nada incomum Amanda, Charlotte e eu brigarmos de vez em quando. Mas, dessa vez, me incomoda bastante. Amanda acha que eu estou sendo egoísta? É assim que ela me vê? E ainda tem coragem de dizer todas aquelas coisas na minha cara? Eu desço pelo elevador do prédio, ignoro qualquer ser vivo no caminho e saio para o sol de primavera inebriante da cidade. O dia está tão bonito... muito diferente de como eu me sinto por dentro. Com Charlotte naquele estado lamentável e Amanda decidida a me colocar contra a parede, a melhor coisa que tenho a fazer é procurar um outro esconderijo. E sei o lugar ideal para isso. O Meridian é um restaurante com cadeiras ao ar livre próximo ao Gramercy Park. E fica na esquina do meu prédio, o que torna o lugar ainda melhor. Eu pego uma das cadeiras de frente para o parque, meu rosto protegido do sol por um grande guarda sol colorido, e fico admirando as pessoas que passeiam pelo local. Crianças correm e brincam, enquanto os pais parecem satisfeitos apenas em relaxar na grama. Como boa filha única, sempre sonhei com uma família grande, mas não sei se algum dia terei isso, considerando que Russel me tornou emocionalmente indisponível para qualquer ser humano do sexo masculino. Um grupo de mulheres fazendo exercícios, na sombra de uma árvore grande, me chama a atenção. É ioga. Talvez eu devesse tentar. Há muito tempo não pratico nenhuma atividade física que eu realmente goste. Com meu corpo fora dos padrões que a mídia nunca se cansa de impor, tem momentos que eu me odeio e quero sumir. Sei que isso é errado, mas é muito mais fácil falar do que fazer. Por isso, já aceitei que vou ter esses altos e baixos a vida inteira, vivendo num limbo entra a auto aceitação e a vontade de quebrar o espelho. Nos últimos anos, tentei inúmeras formas diferentes de emagrecer: dietas, exercícios, muai thai foram só algumas delas. Por que não ioga? Parece tão... tranquilo. Eu olho para o que estou usando: bermuda jeans e camiseta branca, com um blazer azul marinho. Para encobrir o volume dos s***s, claro. Sorrio, tirando os óculos escuros e colocando sobre a mesa. O garçom vem me atender e me entrega o cardápio que eu já conheço de cor. - Salmão tailandês e vinho branco para acompanhar, por favor – digo, recebendo um sorriso amistoso. Estou de carro, então vou ter que me contentar com apenas uma taça, hoje. Ainda estou aguardando meu pedido, quando o celular vibra dentro da bolsa. Estou pronta para fazer as pazes com Amanda, mas quando a leio a mensagem, quase caio da cadeira. "Você me pediu para ir embora. Só existe um jeito. Me encontre para conversar, me ouça e depois me diga se ainda é o que você quer ". Levo a mão até a boca, atordoada. Russel. Ele não vai desistir. Não vai mesmo. Eu o conheço bem demais para saber disso. Sem pensar, respondo, rapidamente, com a primeira coisa que me vem à cabeça. "Se isso é uma promessa, se eu posso confiar que você vai realmente voltar para o lugar de onde saiu, onde e quando?" Eu espero. Dedos tamborilando na mesa. Uma leve ansiedade faz minha respiração acelerar. E a resposta chega. "Aqui. Agora". Levanto o rosto e encontro, perplexa, Russel Price de pé bem na minha frente.
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