Capítulo 4

1910 Words
Nós passamos o resto da madrugada e as primeiras horas da manhã, com Charlotte e a mãe, Camille, no pronto socorro do Hospital Presbiteriano. Assistimos o raiar do dia através das janelas amplas de vidro, cujas persianas abertas nos deram uma visão privilegiada da Baía de Manhattan. Henry Spencer teve um infarte agudo do miocárdio às duas da manhã. A esposa m*l teve tempo de registrar, enquanto ele caía para o lado, a mão sobre o peito, ao tentar calçar os chinelos. Perto das nove horas, as notícias não são as mais animadoras e Charlotte pede para irmos para casa. - Eu fico com ela – diz, olhando para a mãe, que m*l parece capaz de respirar enquanto aguarda sentada na sala de espera. – Vão descansar. - Ele vai ficar bem, Charlie – digo, tentando soar positiva. – Henry é muito forte. - Eu sei – ela sorri, mas eu enxergo a ansiedade por trás da sua fachada de auto confiança. – Eu sei disso, Mel. Vamos todos ficar bem. Cerca de uma hora depois, estou me arrastando até a cozinha, com inveja de Amanda que dorme feito uma pedra. Nada é capaz de abalar o sono de beleza de Amanda, é o que Charlie costuma dizer. Ao contrário de mim, que o menor dos problemas me faz rolar pela cama a noite inteira. O cheiro forte do café manda minha sonolência e o meu mau humor embora. É sempre assim, por isso é minha bebida favorita. Um gole fumegante me faz voltar a enxergar o mundo com lucidez. Eu vou até a sala, carregando a caneca com a cara de um gato que Charlie meu deu, no último Natal. Nos últimos seis anos, passei cada ação de graça e cada Natal na casa dos Spencer, assistindo Camille discutir com o peru no forno, enquanto Henry nos contava como costumava caçar perus, ele mesmo, na fazenda do seu avô, quando ainda era um garoto. Isso me faz lembrar dele no hospital, ligado a um respirador, e não sei por que justamente agora, mas eu sinto que é impossível engolir o café. - Charlie ligou? Eu me viro para ver Amanda entrar na sala. Seus olhos estão vermelhos, as pálpebras inchadas. - Ainda não, mas ela deve ligar logo. Achei que você estivesse dormindo. Ela revira os olhos e puxa uma cadeira, antes de cair sentada ao meu lado. - Como se fosse possível. Com papai Spencer daquele jeito, você sabe. Eu tento sorrir, mas tudo o que consigo fazer é balançar a cabeça. Papai Spencer é um outro nome para o Henry. Desde que não o chamemos de Sr Spencer, ele fica feliz. A família de Charlie escolheu me adotar assim que cheguei à cidade. Eles tinham acabado de perder o filho mais velho, David, uma perda que abalou a toda a família de um jeito irreversível. Em particular, Charlie, que se sente mortalmente culpada até hoje. Amanda e eu continuamos o café em silêncio, até que a porta da frente é aberta e Charlie entra com passos silenciosos. Leva uma verdadeira eternidade até ela entrar em nosso campo de visão e, quando isso acontece, nós travamos, com a respiração suspensa. - Vou tomar um banho e trocar de roupa – Charlie avisa, alternando o peso do corpo de um pé para o outro, enquanto pisca sem parar. – O quadro dele não mudou ainda. Minha mãe e eu vamos nos revezar no hospital, enquanto... – ela para de falar de repente. Então lágrimas disparam para fora dos seus olhos e ela geme alto como um animal ferido. Amanda e eu pulamos das cadeiras e corremos em sua direção, segurando-a antes que ela desabe. - Eu não posso perder o meu pai. Não posso perdê-lo agora. David se foi e ele... ele é tudo o que temos. Ele é nosso alicerce – isso é tudo o que ele consegue dizer antes que suas palavras se tornem um balbucio desconexo. Ela deixa a sua bolsa escorregar para o chão, e então nós a envolvemos em um abraço apertado. Amanda começa a guiá-la em direção ao sofá, mas faço um sinal para ela e, juntas, conduzimos Charlie para o seu quarto. Ela precisa descansar. Não importa o que disse antes sobre se revezar com sua mãe no hospital. Camille vai precisar cuidar disso sozinha, por ora. Charlotte necessita de algumas horas de descanso. Ela insiste em passar no chuveiro antes e nós lhe damos alguma privacidade, assim que confirmamos que ela está mesmo em condições de se manter de pé sem apoio. Charlie é uma mulher incrível. Forte como uma rocha. Mas quando se trata da família, a sua rocha se desintegra. Depois do banho, ela ainda não consegue dormir. Não temos calmantes no apartamento, por isso, faço um chá de ervas e torço para ser o suficiente, enquanto a assisto beber devagar, cada gole um verdadeiro tormento. Charlie diz que nada está passando pela sua garganta, no momento, e eu assinto, lembrando a péssima experiência com o café mais cedo. Quando ela termina de beber o chá, Amanda e eu escorregamos para debaixo da coberta, puxando-a para o nosso meio. Eu passo um braço ao redor da sua cintura, enquanto Amanda fica de lado, suspensa por um cotovelo, olhando para mim e para Charlotte com uma ansiedade nítida. Seus olhos parecem dizer: “O que vamos fazer agora? Como vamos resolver isso” “Eu não sei”, tenho vontade de dizer. Em vez disso, acaricio o cabelo de Charlotte, enquanto ela funga e divaga a respeito de David, da sua morte tenebrosa e de como Henry foi a única pessoa capaz de aguentar tudo e forçar a família a seguir adiante mesmo quando aquilo parecia impossível. Ele é nosso alicerce, ela havia dito. Então eu me pego pensando em como seria ter alguém assim na minha vida. Alguém que fosse uma rocha ou um alicerce. Alguém capaz de segurar o mundo nas costas por mim, pelo menos uma vez. No dia em que minha mãe morreu... só havia dor. E incertezas. E ninguém lá para segurar a minha mão. * * SEIS ANOS ANTES...>> - Eu posso passar para te buscar. Você sabe... com o meu carro novo. - O seu carro novo é uma lata velha – eu digo, me referindo ao Honda 1970 que Winston ganhou de aniversário da mãe. - Pelo menos ele tem estilo – ele se gaba, remexendo a franja platinada com os dedos. - É. E pelo menos você tem um carro. Winston suspira. Estamos os dois sentados na arquibancada da quadra de futebol do colégio. O treino acabou há muito tempo e todos os outros alunos já deixaram o lugar, mas Wins e eu estamos planejando uma forma de chegarmos – com o sem estilo – ao baile de formatura no fim do ano. Isso, é claro, porque não ir simplesmente não é uma opção. Não quando você tem uma mãe que comprou o seu vestido, tipo, uns trinta meses antes. - Ei, não é tão r**m assim, Mel. Você sabe que sempre pode pegar uma carona comigo. - Não se você estiver acompanhado de um gatinho – eu bato os cílios no que eu espero ter sido uma imitação sedutora de Marilyn Monroe. - Acompanhado de um gatinho, no baile de formatura, em Pittsburg? – ele franze o nariz com uma expressão pensativa. – Lar dos mauricinhos caretas comedores de grama? Se eu fizer isso, provavelmente, vou acabar com uma chuteira enterrada tão fundo no meu traseiro que não vou poder me sentar por um ano. - Nossa, como você é exagerado, Wins! Apesar disso, eu sinto dizer que Winston está certo. Ele, com certeza, é o único cara gay que eu conheço na cidade. Felizmente, eu não sou a única garota gorda que ele conhece. Nem a mais estranha. Seguindo o estereótipo, número um: sim, eu uso roupas folgadas para esconder o meu corpo; dois: não saberia o que fazer com um pinel de maquiagem nem se a minha vida dependesse disso; e três: meu material escolar já foi parar na lixeira pelo menos três vezes no último mês. - Ei, olha ali o seu gatinho. Quem sabe ele não pode dar uma carona a você no dia do baile? – para o meu desespero, Winston passa a acenar freneticamente na direção do campo – Ei, Russel Price! Não sei o que deu em mim, quando resolvi contar a Winston sobre minha quedinha ridícula e cem por cento platônica pela estrela do futebol do colégio. Russel olha em nossa direção. Ele não apenas olha, mas... acena. Se é que aquilo pode ser considerado um aceno. Pode ser que ele tenha só espantado uma mosca, vai saber. Logo em seguida, a chefe das líderes de torcida do Tambler High, Audrey Kellan, aparece ao lado dele. Ela enfia a língua na garganta de Russel, povoando a minha mente com imagens do filme que Winston e eu assistimos na matinê de clássicos, no único cinema da cidade, ano passado: Vampiros de Almas. - Que nojo – Wins aponta o dedo na direção da garganta. - Ele não parece estar sentindo nojo – eu murmuro, desviando os olhos para o buraco enorme da calça, bem no meu joelho. Depois de assistir Clube dos Cinco, umas mil vezes, achei que poderia bancar todo esse estilo durão e rebelde. Mas eu estava errada. Aquilo só fazia eu me parecer mais ainda com uma palhaça. Ou melhor, a lona do circo. - Deve ser porque ele é burro. - Ou porque ela é ridiculamente bonita. Winston esfrega o rosto com as mãos, com um gemido de desgosto. - Você sabia que, cada vez que você inveja Audrey Kellan, um anjo no céu perde uma pena da sua asa? Eu bufo. - De onde você tira essas coisas, Winston? - A questão é: quando você vai parar de maltratar os anjos desse jeito? Por que não fala com ele, Mel? - Ah, é. Até parece – digo, esfregando o chão com o solado do tênis. – Você faz tudo parecer muito fácil. - E por que não? O que você tem a perder? - A minha dignidade? - Não temos nenhuma dignidade – Winston me olha, insultado. – Vai por mim. Russel Price é burro, mas não é um babaca completo. - E como você sabe? - Eu tenho um faro – ele ri, diante do meu olhar cético. – Tudo bem. Se você não quer dar a sua cara a tapa, então seja um maldito clichê adolescente. Por que não? - Como assim? Winston sorri, diabolicamente. - Coloca uma carta no armário dele. - O que? Ele fecha os olhos e respira fundo. - Pelo amor de Deus, pare de responder minhas perguntas com outras perguntas, Melissa Jones. Isso é tão... DÃAAAA. - Cala a boca, Wins. - Vem calar. Ok, vamos fazer assim: você escreve uma carta. Não precisa ser nada elaborado, sei que você não é nenhuma Virginia Woolfe – ele se esquiva de uma cotovelada na costela – ... e eu coloco no armário dele para você. Não assine e vamos deixar que o destino se encarregue do resto. - Você é louco. Em que isso me ajudaria? Wins sorri. - Vamos dar a Russel um motivo para ficar curioso. Aposto que ele vai querer descobrir quem é a autora misteriosa. E é aí que entra a segunda parte do nosso plano...
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