Capítulo 3

2660 Words
Eu tenho muitos lugares favoritos em Nova York. Alguns deles são famosos... restaurantes, teatros ou monumentos históricos. Outros são apenas lugares incríveis que eu conheci desde que me mudei para a cidade. Eles me fazem sentir bem. Quando estou em um deles, eu me sinto em casa. O melhor, entre todos, é o Rocket Man. Um bar com música ao vivo e karaokê, onde Amanda, Charlotte e eu costumamos ir nas noites de terça. O lugar tem uma decoração intimista, com paredes revestidas em madeira e teto alto que faz o som reverberar. Sua luz baixa é adequada para quem não deseja se expor. Exceto se você quiser se arriscar no palco. É no Rocket Man que estamos agora. E Charlotte acaba de pedir mais uma rodada de margaritas. Amanda e eu estamos um pouco mais do que alegrinhas, mas Charlie está se privando dos drinques. É a sua noite atrás do volante e contamos que ela esteja sóbria quando fizer isso. Amanda e eu folgamos às quartas na loja, por isso, temos o privilégio de beber todas antes de Charlie nos arrastar de volta para casa como dois gambás. Charlotte é cliente preferencial aqui. Ela tem até um drink com o seu nome. O Charlie V. Eu estou usando um vestido cereja, leve e soltinho até os joelhos, e botas marrom claras de camurça, com saltos que acrescentam pelo menos mais cinco centímetros aos meus um metro e setenta e cinco. Charlie é ainda mais alta do que eu. Tem olhos azuis hipnóticos e uma boca sexy e carnuda que já apareceu quatro vezes na capa da People. Já Amanda é n***a e do tipo mignon, com olhos escuros do tipo que reviram a sua alma do avesso. Parece uma princesa, só que com uma língua bem afiada. - Quer dizer que o merdinha, que te deu o bolo no Kansas, está de volta? - ela balança a cabeça, revoltada. - O que ele veio fazer aqui? Dou de ombros, mostrando que não sei, ao mesmo tempo em que o garçom se aproxima com as bebidas. Nós três o saudamos com assovios e gritos efusivos. Mesmo Charlie, cujo pedido se resume a garrafinhas de água Perrier geladas. - Um brinde a um mundo sem homens complicados – ela ergue a taça e Amanda e eu nos juntamos, com gemidos de aprovação. Dou um longo gole na minha margarita, sabendo que passei do meu limite de três. Mas hoje isso não tem importância. Posso viver fora dos limites uma única vez, certo? Especialmente porque os últimos quatro dias estiveram em algum ponto entre Além da Imaginação e um filme de romance r**m feito para a tevê. Faço uma cara feia. De repente, me dou conta de que Russel pode estar em qualquer lugar na cidade. Pelo que sei, ele poderia estar aqui agora mesmo. Bem aqui, no Rocket Man. O pensamento faz subir um arrepio pelo meu corpo. - É isso – digo, tomando outro pequeno gole saboroso. – O cara está de volta. Em carne e osso. E músculos. Muitos, muitos músculos. - Sinto muito, Mel – Amanda suspira, arriando os ombros. – Eu não podia imaginar quando atendi ele na loja. - Não é sua culpa, Amanda. - Claro que é. Eu teria estrangulado ele com um fio dental da Victoria's Secret. – ela tirou o celular da bolsa e agora está conferindo a tela. - E pensar que eu achei o cara um gostoso.... mas ele é, né? Quer dizer, só um pouquinho. - A coisa boa é que você, finamente, vai poder desencanar – Charlie dá um grunhido de empolgação. – Pelo amor de Deus, já era tempo! E você sabe o que dizem: não há nada melhor do que um amor para esquecer o outro. Ah, não. Lá vamos nós outra vez... Eu finco os cotovelos na mesa e escondo meu rosto entre as mãos. - Tem um cara lá na empresa que é bem interessante. O nome dele é Nathan – ela diz, forçando a barra no sorriso casual. – Ele é bem atraente. - Defina “atraente” – Amanda tira os olhos do celular, prestando atenção de novo a conversa. – E não gostamos de assistentes contábeis baixinhos. Ai meu Deus, eu quero chorar. - Nathan não é baixinho – Charlie ri, se arrependendo em seguida com uma expressão pensativa. – Ele não é exatamente alto, mas... enfim, ele é um cara muito legal. E nós gostamos dos caras legais, sem sombra de dúvida. - Eu vou ao banheiro, já volto – aviso, tropeçando para fora da mesa. Malditas margaritas. É como se eu tivesse dois pés esquerdos. – Assim, nós podemos ficar à vontade para discutir a minha vida amorosa, que não é da conta de vocês. Chegar ao banheiro é como Missão Impossível, comigo no papel do Ethan Hunt. Pelo menos, ficar sozinha me dá a chance de pensar. O que estou fazendo? Por que estou arruinando minhas chances de levar uma vida minimamente feliz? Charlie e Amanda têm razão. Eu poderia sair com um desses caras. Poderia ir a alguns encontros, tomar uma bebida, sorrir e ser eu mesma. É provável até que acabasse a noite amordaçada em um quarto de hotel com um estranho passando cera quente no meu corpo. Credo. Volto para a mesa e as duas estão gargalhando. Charlie está contando para Amanda algo horroroso que fez para o seu novo capacho no escritório, que ela chama, carinhosamente, de “O Babaca”. O coitado tem sido escravizado por Charlie durante o último mês. Ainda não sei por que ela o odeia, mas a verdade é que eu nunca a vi assim. Ele parece ser a única pessoa capaz de tirá-la do sério. Mas com o tempo, o assunto acaba retornando para Russel, é claro. Aparentemente, ele é mesmo a bola da vez. - Pensa que é como ver de novo o pior filme do mundo – Charlie diz, animada. – Mas só que dessa vez você já sabe como termina. Por isso pode se levantar da poltrona, mais cedo, e pegar uma outra sessão. - Não sabe não. Porque agora ela é outra pessoa – Amanda me dá uma cotovelada forte demais. – Ela não é mais aquela menina ingênua que ele conheceu. É uma mulher agora. Linda, sensual e poderosa. - O destino deve estar se divertindo as minhas custas, isso sim – eu giro a bebida no meu copo. – Sou algum tipo de piada para os deuses. - Eu não acredito em destino – Charlie dá de ombros, levando uma torradinha até a boca e mastigando antes de concluir: - Nem nos deuses. Se você quiser, posso descobrir tudo sobre o seu ex amanhã. - Tudo o que? - Tudo o que existe para se descobrir sobre uma pessoa. Onde mora, o que faz da vida. Sonhos, planos, projetos... Eu olho para ela, desconfiada. - Por acaso eu deveria me preocupar por você ter esse tipo de contatos? Charlie sorri. - Contratei um detetive particular – confessa, limpando os lábios com o guardanapo. Amanda e eu quase temos um troço e ela levanta as mãos, pedindo calma. – Quero saber o que O Babaca aprontou em Londres para ter voltado com o rabinho entre as pernas. Preciso dos detalhes mais sórdidos. Eu pisco, incrédula. Charlie está investindo pesado em infernizar a vida desse cara. Eu respiro fundo, tomando o restante do drinque em único gole. A bebida desce queimando a minha garganta. - Vocês são loucas. Completamente loucas. A noite termina com Amanda e eu zonzas de tantas margaritas. Apenas Charlie é capaz de ficar de pé sem cambalear. Nosso apartamento fica a três quarteirões dali e dou graças a Deus por ela ter cumprido a sua promessa de “nem um único drinque”. - Pretendo dormir amanhã até o meio dia. Por favor, sejam gentis e me levem café na cama – Amanda avisa, comprimindo a cabeça com as duas mãos. – Merda de ressaca. - Você não vai vomitar, né? – Charlie levanta uma sobrancelha. Amanda ri. Ou pelo menos faz um esforço para isso. - Em cima desse seu terninho Armani fabuloso? É claro que sim. O telefone de Charlotte toca e nós três paramos a caminho da porta do bar. Ela vasculha a bolsa atrás do celular e parece levar meio século até encontrá-lo. - Não podem ser negócios. Não as duas da manhã – Amanda remexe os pés nos sapatos de salto desconfortáveis. – Aí tem, hein. E aposto que tem a ver com O Babaca. Charlie leva o celular a orelha, ouvindo por alguns segundos, enquanto nós assistimos. A expressão dela vai se transformando, lentamente. Com cara de poucos amigos, estende a mão e nos pede um momento. Então se afasta pelo bar, cobrindo a orelha livre com uma mão, enquanto fala aos berros pelo telefone. Eu olho para Amanda, perplexa. - Uau, o que foi isso agora? E por que ela não foi lá para fora? Ela geme, com uma cara estranha. - Só pode ser o cara, Mel. Tenho certeza. Charlotte fica louca quando tem qualquer coisa a ver com ele. - Não creio. Charlie não é do tipo que perde a cabeça assim por causa de um cara – eu n**o, convicta. – Você está bem? - Não. Acho que eu vou vomitar. Amanda dá meia volta, correndo de volta para dentro. Caramba. A verdade é que, embora eu não vá vomitar, a música alta e a quantidade enorme de pessoas a minha volta estão me deixando com um m*l estar horrível. Eu saio do Rocket Man a procura de ar fresco. Olho ao redor, observando as pessoas que saem dos bares, ao mesmo tempo em que esfrego os braços com as mãos, tentando me proteger do frio. - Nos últimos quatro dias, Nova York conseguiu se tornar o meu lugar favorito no mundo. Sinto um arrepio correr pela minha espinha. Eu me viro para trás e lá está Russel, seus olhos azuis combinando com a camisa de botões, de um jeito que deveria ser proibido. E rápido assim, o efeito do álcool é substituído por uma coisa pior. Uma coisa muito mais viciante. Desejo. Excitação. Endorfinas. - Oi, Mel. Os braços lindos, grandes e definidos, estão cruzados sobre o peito. Eu me lembro que ele jogava futebol. Será que ainda joga? Ele tinha um peito grande e musculoso, já naquela época. Como estaria agora? Quer dizer, sem toda aquela roupa. Eu poderia passar o dia todo olhando para ele. - Você está me seguindo? - Se eu disser que sim, corro o risco de parecer um stalker – ele brinca, coçando a barba. – Não se preocupe. Foi só uma coincidência. Acabei de sair de um clube do outro lado da rua e estava indo pegar o carro. Está indo para casa? Você quer companhia? - Estou esperando minhas amigas. - Eu posso dar uma carona para vocês – ele engole em seco. – A gente precisa conversar. Tem tanta coisa que eu quero falar para você... Meu coração está batendo com tanta força que eu tenho certeza que ele consegue ouvir. - O que você está fazendo em Nova York? Está morando aqui? – pergunto e ele balança a cabeça em negativa. – Está de férias então? Russel enfia as mãos nos bolsos da calça jeans que está usando. Ela modela suas pernas. Coxas incríveis e torneadas que fazem parte do pacote. - Estou morando em Los Angeles. Vim para a temporada. Eu olho para ele sem entender. Russel sorri. Seu sorriso de menino. Grande, lindo e aberto. - A temporada de futebol? Da NFL? Eu assinto, lentamente, conforme a ficha vai caindo. Merda. - Então você conseguiu tudo o que queria – olho para ele, admirada. - Nem tudo – o sorriso dele vacila. – Senti sua falta, Mel. As palavras dele me desarmam. Eu olho ao redor, desamparada, e vejo Amanda saindo do bar. Ah, graças a Deus. Ela parece melhor. Não ótima, nem perto disso. Mas, razoavelmente, no controle das próprias pernas. - Mel! – acena, ajeitando a bolsa no ombro enquanto dispara para fora, na nossa direção. – Eu não encontro a Charlie. O olhar dela de recriminação não me passa despercebido. Mas não está direcionado a mim, e sim, a Russel. Um olhar que faria as bolas de um homem se encolherem. - Eu posso ligar para você mais tarde? – ele pergunta, baixo. - Boa sorte em conseguir o número dela, babaca – Amanda se coloca ao meu lado, como uma espécie de guarda costas pequeno e atrevido. Então me olha como se eu tivesse surtado. – Ai meu Deus, você não deu o seu número para ele, né? Eu suspiro, negando. - Russel, não é uma boa ideia – respiro fundo, um nó atravessado na garganta. – As coisas mudaram. Nossas vidas seguiram por caminhos diferentes. Aconteceu tanta coisa... - E que importância isso tem? – ele me olha, abismado. - Eu não sabia que encontraria você quando vim a Nova York. Mas aqui estamos nós, pela segunda vez, em menos de uma semana. É ou não é o destino? Dou a ele um sorriso amargo. - Não acredito em destino. - Está dizendo isso da boca para fora – ele faz uma careta. – Você sempre acreditou em destino. Costumava me encher por horas... - Eu costumava acreditar em muita coisa – digo, abruptamente. O rosto dele se fecha. Russel abaixa os olhos para o chão, cerrando os próprios punhos. - Não faz isso comigo, Mel. Estou pedindo. - Por quê? Eu não tenho que ser legal com você – meu Deus, eu quero bater nele. E depois beijá-lo. E aí, bater nele outra vez. – Você, com certeza, não foi legal comigo. Amanda geme, comemorando um ponto para mim. O fato é que eu adoraria sair superior, ignorando Russel e todo o m*l que ele me fez, tendo sido ou não intencional. Mas não consigo. Eu não posso. Perto dele, estou sempre fervilhando. De amor ou de raiva. Então prefiro que seja o último. - Eu sinto que pense assim. Nunca fui muito bom com as palavras, Melissa. E talvez não tenha sido o homem que você merecia. Mas eu tentei. Você não pode dizer que eu não tentei, pode? Um calor sobe pelo meu corpo e o meu rosto pega fogo. Então se trata disso? De receber o meu perdão? Tantas vezes eu quis matá-lo. E agora que Russel está bem aqui na minha frente, eu fico dividida entre esse t***o e******o e irracional e o desejo quase orgástico de socar a cara dele. E tudo o que ele quer é um salvo conduto para viver sua vida sem o peso do remorso. - Quer que eu sinta pena de você? – pergunto, sustentando o seu olhar magoado. - Não, eu não quero. Quero que você converse comigo e me deixe entender. - Entender o que? - O que aconteceu, naquela noite – dessa vez, Amanda fica em silêncio. E eu também. – Podemos conversar sobre isso As palavras dele ficam martelando na minha cabeça. O que é isso? Uma espécie de jogo? Uma brincadeira de mau gosto? Toda a tensão entre nós parece crepitar como uma maldita fogueira. Por mais que eu tente ser razoável, Russel faz a parte racional dentro de mim ir pelos ares. Mas quando Charlotte vem cambaleando para fora do bar, minha irritação se esvai em uma nuvem de preocupação. A maquiagem ao redor dos olhos dela está borrada, o rosto molhado pelas lágrimas. Eu nunca a vi assim, tão descontrolada. Bem, na verdade, uma única vez. Mas já faz muito tempo. - Charlie? – Amanda anda, apressada na direção dela. As duas se encontram no meio do caminho. – O que aconteceu? Ela olha de Amanda para mim, destroçada. - É o meu pai. Ele está no hospital. Acho que está morrendo.
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