Sem Monotonia

1269 Words
Na manhã seguinte, o sol atravessa as cortinas pesadas do apartamento. Henzo acorda, ainda com o corpo dolorido da reação alérgica, mas os sentidos em alerta. Ao descer, encontra Sol já sentada à mesa, impecável, a postura ereta como se estivesse numa encenação cuidadosamente ensaiada. A mesa está posta com um capricho desconcertante: frutas frescas, pães, queijos, café quente e até flores no centro. Ela ergue o olhar para ele e sorri — mas não mostra os dentes, apenas aquele sorriso enigmático que tanto o irrita. — Bom dia, querido marido. — Sua voz sai suave, carregada de ironia. — Tomei a liberdade de mexer na sua cozinha e preparar um café especial. Renzo para na entrada, encara a mesa e depois fixa o olhar em Sol, semicerrando os olhos. — Que palhaçada é essa? Ela apoia o queixo na mão, ainda sorrindo, como se saboreasse cada reação dele. — Nenhuma palhaçada, só o papel de uma esposa exemplar. Não é isso que o conselho espera de mim? Henzo dá alguns passos lentos em direção à mesa, mas não se senta. Seu olhar percorre cada prato como se fossem armas apontadas contra ele. — Eu tenho certeza de que tem veneno em todas essas coisas. O sorriso de Sol se alarga, mas ainda sem mostrar os dentes. Seus olhos brilham de malícia. — Não tem não, querido marido. Sempre se come bem quando é feito por mim. — Ela cruza as mãos sobre a mesa, desafiadora. — Mas é claro, você não teria coragem de provar, talvez não seja homem suficiente para isso. O silêncio pesa. Henzo aproxima-se um pouco mais, o olhar cravado nela como faca. — Você acha que vai me enganar com encenações baratas? — Sua voz é baixa, mas firme, carregada de ameaça. Sol ergue lentamente uma xícara de café, olha nos olhos dele e leva aos lábios. Bebe um gole devagar, como quem saboreia não a bebida, mas a provocação. Depois, coloca a xícara de volta no pires com delicadeza. — Se tivesse veneno, eu já estaria morta. — Ela fala com uma calma cortante. — Mas, pelo visto, você prefere viver com medo de mim do que assumir que sou mais corajosa do que você. Henzo cerra o maxilar, o olhar queimando de raiva e de algo que nem ele consegue definir. A mesa continua posta, intacta. Entre eles, o café da manhã é menos uma refeição e mais um campo de batalha. Henzo respira fundo, exasperado, mas acaba puxando uma cadeira e se sentando à mesa. O gesto é lento, desconfiado, como se até o ar pudesse estar envenenado. Seus olhos não desgrudam de Sol. Ele estende a mão, pega uma maçã bem vermelha do centro da mesa e a ergue, quase como se fosse uma arma. — Come primeiro. — ordena, a voz seca. — Morde a maçã. Sol ergue as sobrancelhas, surpresa pela ousadia, mas logo solta uma risadinha contida. Inclina-se para frente, pega a maçã dele com delicadeza e dá uma mordida firme, sem desviar o olhar. Mastiga devagar, provocando, e depois engole com exagero teatral. — Viu? — diz, sorrindo maliciosa. — Não tem nada de veneno, seu i****a. Onde, pelo amor de Deus, eu iria encontrar veneno nessa casa? Henzo a observa em silêncio, os olhos semicerrados, e solta um resmungo carregado de suspeita: — Eu tenho certeza de que você trouxe escondido na sua mala. Sol não aguenta e solta uma gargalhada alta, vibrante, que ecoa pelo apartamento. Ri de verdade, inclinando a cabeça para trás. — Você é realmente um babaca, Henzo. — diz entre risos. — Mais desconfiado do que um gato em telhado molhado. Renzo continua sério, mas um músculo no canto da boca quase trai um sorriso contido. Ainda assim, ele não cede. — Ria enquanto pode, Sol. — diz, firme. — Uma hora, sua sorte acaba. Ela morde novamente a maçã com gosto, olhando direto para ele, e fala com a boca ainda quase cheia: — E até lá, querido marido, você vai ter que me engolir. Literalmente. Henzo pega o garfo devagar, cutuca a panqueca como se fosse dinamite prestes a explodir. Seus olhos continuam semicerrados, fixos em Sol. — A panqueca está com uma cara boa. — comenta com desdém. Sol apoia os cotovelos na mesa, o queixo na mão, e o observa como quem se diverte com uma criança teimosa. — Então coma. — diz num tom suave e venenoso. — Eu fiz especialmente para você. Henzo estreita os olhos ainda mais. — Você primeiro. Morda. Sol suspira, dramatizando como se fosse a coisa mais ridícula do mundo. — Eu já falei que não tem veneno, Henzo. Ele se inclina para frente, firme, a voz baixa como uma ordem de guerra: — Se morder, eu como. Se não comer... eu também não vou comer. O sorriso dela se abre devagar, cheio de deboche. Sol corta um pedaço pequeno, leva à boca e mastiga lentamente, fazendo questão de demonstrar prazer em cada movimento. — Como eu previ... — ela diz após engolir, com um sorriso presunçoso. — Está uma delícia. Afinal, fui eu que fiz. Depois, encosta o garfo de lado, olha direto nos olhos dele e solta, como quem crava uma faca no peito: — Mas olha, Henzo... não se esqueça que às vezes morr£r envenenado é bem melhor do que conviver com você. Henzo cerra o maxilar, mas não recua. Finalmente corta um pedaço da mesma panqueca, leva à boca devagar, mastigando ainda desconfiado, como se esperasse cair mort0 a qualquer segundo. Sol o observa em silêncio, os olhos brilhando de pura provocação. Quando percebe que ele está realmente comendo, sorri com triunfo, mordendo o próprio lábio para segurar a risada. A tensão entre eles não diminui. Pelo contrário — agora, até o simples ato de partilhar o café da manhã parece mais perigoso do que qualquer duelo de armas. Sol permanecia sentada à mesa, os olhos fixos em Henzo, cada movimento dela calculado para provocá-lo. Girava a xícara de café entre os dedos, inclinando-a levemente, como se desafiasse: “Se tiver coragem, pegue.” O sorriso nos lábios era contido, mas carregado de malícia. Henzo se aproximou devagar, com cuidado, mas firme. Estendeu o braço e pegou a xícara que ela segurava, bebendo o restante do café quente sem hesitar. Um gesto simples, mas ousado, que dizia claramente: “Não me subestime.” Sol arqueou uma sobrancelha, mantendo o olhar fixo nele, sem qualquer surpresa. — Hm… — murmurou, a voz baixa e debochada — gostou do café, ou só quis provar que não tem coragem de beber do café que está na garrafa? Henzo colocou a xícara de volta na mesa, encarando-a com seriedade, mas havia um leve traço de humor nos olhos: — Só queria confirmar que não tem veneno. Sol riu, curto e provocador, mordendo devagar a panqueca que estava em seu prato. — Veneno? Por favor… se eu quisesse, não faria café da manhã. Mas te ver desconfiado é divertido demais. Henzo cerrou o maxilar, ainda sério, mas não pôde evitar o sorriso contido que ameaçava escapar: — Divertido, hein? Pois saiba que não estou aqui para rir. Sol apoiou o queixo na mão, inclinando-se um pouco, os olhos brilhando de provocação: — Ah, mas eu estou, querido marido. E cada segundo desse café da manhã é só o começo, Só espero que você esteja preparado, porque eu estou preparadíssima. O silêncio voltou, mas carregado de tensão, provocação e humor. Entre eles, cada gesto simples se transformava em um jogo, e ambos sabiam que aquele casamento não teria um minuto de monotonia.
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