Sol, ainda com o olhar desafiador, cruzou os braços e soltou com firmeza:
— Quero ver a Violeta.
Henzo franziu a testa, firme, firme como rocha:
— Não vai ver. Agora, ponto final.
O sangue de Sol ferveu. Seus olhos brilharam de raiva e impaciência. Sem pensar duas vezes, levantou-se de um salto, os pés batendo no chão com determinação. Henzo também se ergueu, o corpo tenso, pronto para qualquer reação.
Num gesto rápido, Sol pegou a faca que estava sobre a tábua de pão. Henzo a observou, surpreso, antes que pudesse reagir, e a lâmina voou pelo ar, certeira… acertando o ombro dele.
— Eu não acredito que você fez isso! — exclamou Henzo, segurando o ombro e respirando fundo.
Sol se inclinou para frente, o sorriso afiado como lâmina:
— Pena que não foi no coração. Se bem que acho que você não tem.
Henzo arregalou os olhos, mas antes que pudesse falar, Sol arremessou algumas louças que estavam sobre a mesa. Copos, pratos, tigelas — tudo voando com precisão quase profissional. Henzo recuou, desviando o que podia, e percebeu:
— Ok… ok… você é boa de pontaria. Preciso tomar cuidado.
Sol deu de ombros, os olhos faiscando de raiva. Sem esperar resposta, subiu as escadas, xingando alto, deixando Henzo sozinho na sala.
Ele olhou em volta, o sorriso quase contido nos lábios, misturando diversão com constatação:
— Preciso retirar todas as facas da casa antes que eu me torne o alvo principal…
Henzo permaneceu no andar de baixo, olhando para o teto por onde Sol havia sumido, ainda segurando o ombro dolorido e com um misto de raiva e diversão estampado no rosto. Respirou fundo e gritou:
— Sol! Estou saindo! Não tenho horário para voltar!
Do andar de cima, uma sombra surgiu no corredor. Sol apareceu, apoiando-se na balaustrada, os olhos faiscando de puro ódio. Um sorriso provocador se formou em seus lábios — ainda sem mostrar os dentes — e ela pegou um jarro que estava ali perto. Com um movimento rápido, arremessou contra ele. Por pouco, Henzo conseguiu desviar, sentindo o jarro passar raspando perto da cabeça.
— Você é muito tinhosa! — exclamou ele, ainda segurando o objeto que quase acertou a testa.
— Vá a m£rda! — respondeu Sol, sem se intimidar, sua voz ecoando pelo corredor.
Henzo sorriu de canto, aproveitando a provocação:
— Não se esqueça que é minha… minha pertencente. — disse, com um tom divertido, tentando provocá-la de volta.
Ela não hesitou: pegou outro objeto, desta vez um jarro maior, e atirou com precisão quase cirúrgica em direção a ele.
— Assim você vai quebrar meu apartamento inteiro! — exclamou Henzo, rindo, segurando a parede para se equilibrar.
— É a intenção, querido marido. Vá para o inferno! — respondeu Sol, com os olhos brilhando, cheia de desafio.
Henzo balançou a cabeça, sorrindo para si mesmo, ainda segurando o ombro e observando a ousadia dela.
— Só pode ser mesmo uma tinhosa — murmurou baixinho, saindo de casa, ainda com um sorriso no rosto, sabendo que aquela mulher transformava cada momento em batalha e perigo ao mesmo tempo.
Maurice entrou no polo da máfia, o ambiente carregado do costumeiro clima de tensão e disciplina. Ele caminhava entre os soldados, ajustando o paletó, quando parou diante de um dos subordinados e perguntou, firme:
— Onde está Henzo?
O soldado, com um ar quase divertido, respondeu:
— Está na enfermaria, senhor. Fazendo o curativo de um pequeno corte.
Maurice arqueou a sobrancelha, curioso e levemente apreensivo, e se dirigiu imediatamente até lá. Ao entrar, encontrou Henzo sentado na maca, o braço levantado, ainda com o semblante tenso. Uma enfermeira terminava de costurar a pele do ombro dele com habilidade e cuidado.
__ O que houve, Henzo?
Henzo suspirou, olhando para Maurice com um misto de frustração e incredulidade:
— A mulher que você me arrumou… ela vai me matar, Maurice. Aquela mulher é uma desgraçadä.
Maurice, controlando o riso, ergueu as sobrancelhas, percebendo a seriedade e a dramaticidade da situação:
— Percebo que ela é boa de pontaria, viu, Henzo? — disse, ainda sorrindo. — Cuidado, senão em um dia ela te mata de verdade, porque em uma noite ela te envenena e te manda para o hospital, no outro dia ela te fura com uma faca, uma hora ela consegue o objetivo.
Henzo olhou para o curativo, franzindo a testa:
— Quantos pontos ela me deu? — perguntou, com um ar de raiva.
A enfermeira sorriu discretamente e respondeu:
— Cinco pontinhos, senhor.
Maurice balançou a cabeça, sério, mas ainda com um toque de humor na voz:
— Cuidado aí, Henzo. Ela parece que não está para brincadeira.
Henzo respirou fundo, apoiando-se na maca, e comentou:
— Pois ela parece da mesma linhagem daquela que te deu um tiro.
O sorriso de Maurice se cortou na hora, os olhos estreitando, ciente do que Henzo acabara de dizer.
Maurice respirou fundo, olhando para Henzo com aquela mistura de seriedade e diversão que só ele conseguia equilibrar.
— É… infelizmente, Henzo, tenho que admitir — disse ele, balançando a cabeça levemente. — Violeta não é brincadeira não, mas pelo que estou vendo, Sol, não fica atrás não.
A enfermeira, incapaz de se conter, soltou uma risadinha abafada, cobrindo a boca com a mão. Henzo e Maurice trocaram um olhar e sorriram juntos, conscientes de que estavam ferrados: duas mulheres, duas forças da natureza, cada uma capaz de acabar com a paciência e com a rotina deles em segundos.
Henzo alfinetou, com um sorriso torto:
— A única diferença é que eu não estou caído de amores por Sol, enquanto você está morto de amores por Violeta.
Maurice riu, mas havia sinceridade na risada. Ele nunca mentiria sobre isso: Violeta tinha capturado seu coração, e ele sabia bem o tamanho do estrago que isso podia causar.
— Cuidado, Henzo — disse Maurice, retomando um tom mais sério, embora divertido. — Cuidado para não cair na armadilha da cabeça dela. Eu já disse, um dia jurei que não amaria ninguém… e olha só onde estou hoje: ferrado de amor.