Coragem

1078 Words
Henzo abriu a porta do apartamento já tarde da noite, os ombros pesados do dia. A gravata frouxa e o olhar sério mostravam que a reunião com Maurice havia sido longa. Passou a mão pelo cabelo, respirando fundo. Ele e Maurice passaram horas discutindo quem representaria a máfia Francesa no casamento de Barão e Lupita, no Brasil. O acordo com o morro precisava ser reafirmado, e também era uma chance de mostrar força. Maurice, preso aos negócios urgentes com a máfia francesa, ficaria. Henzo, mesmo contrariado, teria que ir. Sol, que estava sentada no sofá, percebeu a porta se abrir. O coração dela acelerou. Antes mesmo de cruzar o olhar com Henzo, ela se levantou rapidamente e correu direto para o quarto, fechando a porta com um estrondo. Henzo arqueou a sobrancelha, jogando o casaco no braço da poltrona. Deu alguns passos pesados pelo corredor, parando diante da porta fechada. — Eu ouvi quando você correu — disse, batendo de leve com os nós dos dedos. A voz saiu firme, sem espaço para dúvidas. — Sei que não está dormindo. Silêncio. Henzo apoiou a mão na porta, aproximando o rosto, como se ela pudesse ouvir o peso do que ele não dizia. — Abre a porta, Sol. Preciso falar com você. Mais uma vez, silêncio. A mandíbula dele se contraiu. Henzo não era homem de pedir duas vezes. Henzo bateu forte na porta do quarto de Sol. — Abre logo, ou eu arrombo essa merda! De dentro, ela respondeu sem titubear, a voz firme e debochada: — Arromba, seu i****a. Quem vai ter que comprar outra é você. Henzo estreitou os olhos, um meio sorriso no canto da boca. Sem falar mais nada, foi até o quarto dele, pegou a chave reserva e voltou. Abriu a porta calmamente, e quando entrou, Sol estava deitada na cama, de braços cruzados, olhando pra ele como quem olha um palhaço de circo. — Que palhaçada é essa? — ela disparou. — Ficou meia hora gritando pra eu abrir, sendo que tinha a merda da chave reserva? Henzo encostou na porta e disse, com aquele ar de ameaça disfarçada: — As coisas aqui vão funcionar muito melhor quando você entender que quem manda sou eu. Você só obedece. Sol caiu na gargalhada, rindo alto de propósito. — Você? Mandar em mim? Você não manda nem no seu cabelo, Henzo. Olha isso, já tá abrindo umas clareiras aí. Tá ficando calvo. Henzo franziu a testa, automaticamente passando a mão pelos fios. O ego dele doeu. — Eu corto baixinho pra ficar com cara de m*l. Sol se levantou da cama e andou devagar até ele, mordendo o lábio num sorriso de pura provocação. — Cara de m*l? — ela aproximou o rosto do dele, quase encostando. — Isso aí é cara de velho. Velho e calvo. Henzo estreitou os olhos, o maxilar marcado pela raiva contida. — Vamos viajar pro Brasil. — disse em tom firme, quase uma ordem. Sol arqueou a sobrancelha, cruzando os braços com ar de desafio. — Não vou a lugar nenhum com você. — Vai sim. — ele rebateu seco, a voz grave ecoando pela sala. — Você é minha pertencente e vai. Ela deu um passo à frente, encarando-o sem medo, os lábios carregados de deboche. — Eu disse que não vou. E pronto. Henzo respirou fundo, o olhar faiscando. — Minha vontade é te jogar pela janela, sabia? Só não faço isso por respeito à Madá. Sol riu, atrevida, e mostrou a língua para ele, como uma menina provocando um adulto. Henzo, apesar da raiva, deixou escapar um sorriso torto. — Vou te ensinar o que fazer com essa língua afiada, Sol. Sol deu as costas a ele, mas a voz firme de Henzo a fez parar no meio do caminho: — Lupita e Barão vão se casar. Nós precisamos estar presentes. Ela se virou devagar, os olhos faiscando de fúria. — Vocês jogaram a menina nas mãos de um traficant£ do Brasil. E ele não é só um simples traficante, Henzo… ele é o pior! E agora querem ter certeza de que ela tá ferrada mesmo? É isso? Henzo respirou fundo, cerrando os punhos para se controlar. — Nossa presença demonstra a Barão que Lupita não é um cachorro sem dono. Sol riu sem humor, o olhar carregado de desprezo. — Quanto mais você abre a boca, mais ridículo fica com esse seu machismo i****a. Henzo estreitou os olhos, se aproximando dela com a respiração pesada. Ele estava por um fio. Henzo avançou mais um passo, a voz carregada de autoridade e impaciência: — Você vai arrumar suas coisas. Amanhã cedo partimos. Ou quer que eu te arraste com a roupa do corpo? Sol manteve os braços cruzados, a expressão desafiadora, mas lá no fundo, um fio de consciência a traía. Ela não confessou nada em voz alta, mas sabia que Henzo teria coragem de fazer exatamente aquilo se necessário. Ela soltou um suspiro teatral, virou-se de lado, e respondeu com um sorriso torto, tentando disfarçar o receio: — Ah, é? Então vamos ver quem vai se divertir mais no Brasil, acha que não sei jogar, marido? Vai descobrir que também sei, e que jogo bem. Henzo não respondeu de imediato, apenas a observou, o olhar pesado, transmitindo silêncio e ameaça contida. O jogo entre eles estava longe de acabar. Henzo respirou fundo, a tensão na sala parecia aumentar com cada palavra. Seus olhos cravaram-se em Sol, a voz baixa e carregada de ameaça: — Sabem como me chamam na máfia, Sol? Ela ergueu uma sobrancelha, sabia, mas fez questão de negar com um leve sorriso provocador: — Não, não faço ideia. Henzo se aproximou, a mão quase encostando nela, o olhar firme: — Não me obrigue a te mostrar… porque sou chamado assim. Sol ergueu a cabeça, deu um passo à frente, tão confiante que parecia desafiar o próprio perigo. A voz saiu firme, cheia de atrevimento: — Além de i****a, quer se tornar covarde, Henzo? Se vai me bater, comece… mas não espere que eu me curve a você. Não tenho medo de você. A única coisa que temia era esse destino c***l. Agora, tanto faz o que possa vir. Henzo, por um instante, baixou a guarda. Era para ela ter sentido medo, para ele manter o controle, mas a coragem e a provocação de Sol desmontaram o domínio dele, mostrando que, naquele jogo, o poder era compartilhado — ou pelo menos contestado.
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