Chapter2 - Sabina

1398 Words
Viver vagando pelo hospital enquanto se está em coma não é nada legal. Principalmente ao ver minhas amigas sofrendo me vendo daquela maneira. Evangeline tinha razão, os primeiros dias eram difíceis. Sofya quase não saiu do hospital e até faltou a audição para a escola de dança, mas Heyoon e Diarra a convenceram a sair dali e seguir com a vida, dizendo que eu ficaria brava quando eu acordasse, na verdade só a Diarra alimentava a esperança da Sofya, Heyoon não acreditava que eu iria acordar, olhava para meu corpo imóvel na maca com pena e diferente das meninas, ela não conversava comigo. Ela provavelmente acreditava que eu iria morrer. Dois meses se passaram e eu só encontrei um motivo, eu não poderia entregar a Evangeline até ter certeza que esse era o único motivo. A anjinha me disse que eu saberia quando tivesse todos os motivos em mãos. Gravei toda a rotina das meninas. Sofya e Hina chegavam pela manhã antes de irem para as aulas, elas me contaram sobre os professores e sobre o quanto eles eram legais. Contaram também que a Heyoon havia conseguido um emprego como professora de lá também. Após trinta minutos, Heyoon chegava para buscar as meninas. Passava uma hora, Diarra aparecia e passava toda a manhã reclamando da comida estado unidense e do quanto ela sentia falta de Senegal, mas disse que não sentia tanta falta do seu país como sentia de mim. Queria abraçar ela, mas não consegui. Quer dizer, até consegui, mas foi como se nada tivesse acontecido pra ela. Eu passava a hora do almoço sozinha, ficava sentada em minha cama olhando pra mim mesma durante duas horas e então Sina, Any e Heyoon voltavam, Sina me contava animada sobre o dia e às vezes que brigava com a Any quando discordavam de algo. Any dizia que comigo não estando lá, alguém teria que ser a alegria da irmandade e ela se ofereceu, reclamava dos estereótipos dos brasileiros e latinos e reclamava por ela se encaixar exatamente neles e reclamava com a Sina sobre o 7 à 1. Coisa que aconteceu há anos atrás. Mas logo elas riam e voltavam ao normal. Hoje era mais um dia que se iniciava e eu esperava pelos meus dois raios de sol entrarem pela porta e elas demoraram, achei inclusive que não viriam. - Oi Saby, desculpe a demora. - Diz Sofya entrando, Hina logo em seguida e elas estavam com sacolas. - Fomos pegar os nossos uniformes para a primeira apresentação. E eles são lindos. - Hina diz colocando as sacolas e pegando os uniformes. - Sabemos que você não está vendo, mas... - Hina tirou um top-croppeds de uma das sacolas. - Usamos o top por baixo, ele é todo branco... - Ela retira um casaco e enquanto ela faz isso, Sofya se aproxima da maca. - O casaco é grosso, tem nossos nomes no peito e o nome Loyalty, que é o nome do grupo, bem grande em vermelho nas costas e as mangas também têm umas listras vermelhas. - Você ia adorar o grupo. Tem duas pessoas que eu tenho certeza que você iria amar... - Diz Sofya pegando minha mão. - Krys e Joalin... Eles se parecem com você. - Já falamos sobre eles... - Diz Hina. - Krys é aluno, mas é amigo da Joalin que é nossa professora, ou quase, ela ensina lá, mas ensina para crianças, o Josh, meio-irmão dela que é nosso professor. Ele é fofo. - Mas a Any já está de olho nele e ela nem faz aula de dança. - Sofya ri. -Sentimos sua falta. - Sofya abaixa o olhar. - Estamos alimentando o Groot bem direitinho e ele já está grande. - Groot. Era meu brotinho, uma planta diferente que achei na floricultura e me apaixonei, mas nenhuma de nós e nem a vendedora da floricultura soube me dizer que tipo de planta era aquela. - Hoje não poderemos ficar muito tempo. - Hina checa o celular. - Heyoon está aí em baixo. - Heyoon nunca subia para pegar as meninas, subia apenas com Sina. - Vamos? - Observei Sofya me encarar por alguns segundos. Encarar meu corpo na maca, na verdade. - Se você estiver me ouvindo. Por favor, volta. - Ela falou quase em um sussurro e se levanta pegando as sacolas. - Te amamos muito. - Diz Hina na língua dela e acariciando minha mão. Essa parte era dolorosa, quando elas iam, falavam que estavam com saudades e que me amavam. E eu não podia dizer de volta. Para dormir comigo, elas se revezavam. Quando Sofya vinha, era sempre risadas e algumas lágrimas dela dizendo que sentia minha falta. Eu chorava com ela e cada vez mais me convencia de que Sofya era um dos meus maiores motivos para ficar. Quando Hina vinha, ela sempre me trazia alegria, sempre me contando sobre o seu dia, era como se eu estivesse dormindo e ela falasse sozinha, mas ela me falava todas as novidades e notícias do mundo com expressões que só ela sabia fazer. Quando Diarra vinha. Ela me dava bronca, me dava bronca por estar em coma. Me dava bronca por ter sido irresponsável e me dava bronca por sentir minha falta, era melancólico. Quando Any vinha, ela colocava músicas brasileiras/latinas para tocar e ficava dançando pelo quarto até dormir, muitas vezes no sofá ou na maca comigo. Quando Sina vinha, ela falava sobre o futebol e como o 7 à 1 sempre dava briga entre ela e Any ao menos 3 vezes ao dia e falava da seleção mexicana de futebol, além de me contar coisas que a Sofya me escondia. Quando Heyoon vinha. Era um tédio absoluto, ela não falava nada, apenas no celular e só isso. Era um silêncio, algo estranho e eu passava a maior parte do tempo na janela. - Evangeline. - Chamei o anjinho que logo apareceu me assustando. - Algum problema? - Nenhum... Eu só estou com tédio. Se passaram dois meses e eu só encontrei um motivo. - E como sabe que apenas esse motivo não é suficiente? - Franzi a testa. - O que acontece se eu der um motivo errado ou incompleto? - Pergunto e Evangeline respira fundo. - Se você me listar 200 motivos e dentre eles apenas 1 estiver errado, os outros 199 serão apagados e você terá que reiniciar e se estiver incompleto, por exemplo, se você me der esse único motivo sem ter certeza de que é um bom e forte motivo você vai ter que passar mais tempo procurando. - Suspirei. - E não adianta se pressionar, você saberá que os motivos estiverem completos, se você se pressionar demora ainda mais. - Você sabe quais são meus motivos? – Evangeline assentiu. Suspirei e desviei o olhar. - O que acontece caso eu descubra os meus motivos antes de renascer? Tipo, antes mesmo. No último segundo? - Ela suspira triste. - Isso muitas vezes acontece e é um pouco triste. As novas vidas morrem. Ou em casos mais raros a alma que morreu naquele mesmo momento renasce. - Acho que entendi. - Digo ainda analisando tudo. Evangeline olha para Heyoon. - Ela sente sua falta... - Encaro minha amiga também. - Mas ela não quer ter esperanças por quê se você morrer, agindo assim a dor será menor. – Deu de ombros. – Pelo menos é o que ela acha. - E será? - Evangeline n**a com os lábios torcidos. - A dor da perda nunca é fácil. E com o passar dos anos só aumenta e muitas vezes as pessoas não suportam e choram. - Você parece entender muito sobre isso. - Eu vejo muito isso, as pessoas sofrendo por ver os entes queridos no estado em que você está. E é pior quando eles desistem, pra mim é r**m, mas pra meus irmãos tanto os do céu quanto os caídos é bom, afinal eles cumprem com o propósito dado à eles. - Fiquei pensativa. Quantas famílias a Evangeline viu sofrer quando alguém em coma desistiu de suas razões? Ela com toda certeza ficou desolada. - Mas eu acho que você não vai desistir. - Ela me encara. - Você não é do tipo que desiste e nenhuma vez em toda eternidade eu torci tanto para alguém não desistir de sua razão. Ok, motivo número 2: Não decepcionar a Evangeline.
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