Capítulo 10

1084 Words
O dia amanheceu mais silencioso do que o normal para Priscila. Talvez não fosse o mundo lá fora que estivesse diferente, mas sim tudo o que acontecia dentro dela. A festa da noite anterior ainda ecoava em sua mente como uma música que se recusa a terminar. Ela abriu os olhos devagar, encarando o teto do quarto, enquanto cada detalhe voltava com força: as luzes da piscina refletindo na água, as risadas, o clima de tensão… e principalmente, Rafael. As palavras dele. O jeito como ele a olhou. A forma como a defendeu. Priscila virou de lado, puxando o travesseiro contra o peito, tentando entender o que estava sentindo. Não era só gratidão. Não era só curiosidade. Era algo novo, inquietante… algo que mexia com ela de um jeito diferente do que estava acostumada. — Que confusão… — murmurou, fechando os olhos por um instante. Depois de alguns minutos lutando contra os próprios pensamentos, ela decidiu se levantar. Precisava trabalhar. Precisava ocupar a mente. Mas, no fundo, sabia que não seria tão fácil. A loja estava tranquila naquela manhã, com o movimento ainda tímido. Priscila chegou um pouco mais cedo do que o habitual, tentando parecer normal, como se nada tivesse acontecido. Mas Carla já estava lá. E, como sempre, atenta a cada detalhe. — Olha só quem chegou… — disse Carla, cruzando os braços com um sorriso cheio de malícia. — Dormiu bem depois de ontem, amiga? Priscila tentou disfarçar, colocando a bolsa no balcão. — Normal, ué. Carla soltou uma risadinha. — Normal nada. Eu te conheço, Priscila. Tu tá com essa cara desde que entrou… pensando em alguma coisa. Ou melhor… em alguém. Priscila suspirou, pegando algumas peças para organizar. — Você não perde tempo, né? — Nem um pouco. Agora me conta tudo — Carla se aproximou, apoiando os cotovelos no balcão. — O que foi aquilo ontem com o Rafael? Priscila parou por um segundo. Só de ouvir o nome dele, sentiu algo diferente no peito. — Não foi nada demais… Carla arregalou os olhos. — Nada demais? Ele praticamente se declarou na frente de todo mundo! E ainda disse que você era namorada dele! — Ele só falou aquilo pra me defender — respondeu Priscila rapidamente, embora nem ela mesma estivesse tão convencida disso. Carla inclinou a cabeça, analisando. — E você gostou. Priscila não respondeu. Não precisava. O silêncio já dizia tudo. Carla abriu um sorriso ainda maior. — Eu sabia! — Para com isso, Carla… — Não paro, não. Você ficou mexida, sim. E eu vi o jeito que você olhou pra ele depois. Priscila tentou mudar de assunto, mas era impossível. A verdade estava estampada nela. — Ele foi… diferente — admitiu, mais baixo. — Ninguém nunca fez aquilo por mim daquele jeito. Carla suavizou o olhar. — Então pronto. Já é um começo. Antes que Priscila pudesse responder, o telefone da loja tocou. As duas se olharam. — Atende — disse Carla, com um sorriso suspeito. — Vai você. — Nem pensar. Isso aí tem cara de ser pra você. Priscila revirou os olhos, mas caminhou até o telefone, tentando ignorar o nervosismo repentino. — Alô? Houve um pequeno silêncio do outro lado… até que ela ouviu a voz. — Priscila? O coração dela disparou. Era ele. — Rafael? Carla, ao fundo, arregalou os olhos e começou a fazer gestos exagerados, praticamente vibrando. — Sou eu — respondeu ele, com um tom calmo, mas carregado de algo que ela não sabia explicar. — Espero não estar atrapalhando. Priscila se apoiou no balcão, tentando manter a voz firme. — Não… pode falar. Do outro lado da linha, Rafael também estava diferente naquele dia. Ele havia acordado cedo, sem conseguir tirar Priscila da cabeça. Cada detalhe dela parecia mais nítido do que deveria: o sorriso, o jeito meio desconfiado, o olhar que misturava força e vulnerabilidade. Ele não era do tipo que ligava no dia seguinte. Nunca foi. Mas com ela… era diferente. — Eu fiquei pensando em você — disse, direto, sem rodeios. Priscila sentiu o corpo inteiro reagir àquelas palavras. Carla levou a mão à boca, quase gritando em silêncio. — Pensando no quê? — perguntou Priscila, tentando não demonstrar o quanto aquilo mexeu com ela. — Em tudo — respondeu Rafael. — No que aconteceu… no jeito que você ficou depois… e no que eu falei. Ela ficou em silêncio por alguns segundos. — Você falou sério? — Sobre o quê? — Sobre… eu ser sua namorada. Rafael soltou uma leve risada do outro lado. — Naquele momento, eu falei pra te proteger. Mas… — ele fez uma pausa — eu não teria problema nenhum se fosse verdade. O coração de Priscila acelerou ainda mais. Carla já estava praticamente pulando atrás do balcão, tentando ouvir cada palavra. — Você fala isso assim, como se fosse simples… — Pra mim é simples — respondeu ele. — Eu gostei de você, Priscila. E não foi pouco. Ela fechou os olhos por um instante. Aquilo era intenso demais. Rápido demais. Mas, ao mesmo tempo… parecia certo. — A gente m*l se conhece… — Então vamos mudar isso — disse Rafael, com firmeza. — Me dá uma chance. Priscila respirou fundo, sentindo o peso daquela decisão, mesmo sendo algo aparentemente pequeno. — Pra quê? — Pra te levar pra sair. Sem festa, sem confusão… só nós dois. O silêncio tomou conta por alguns segundos. Carla parou de se mexer, esperando a resposta como se fosse a coisa mais importante do mundo. Priscila abriu os olhos devagar. Ela sabia que, ao dizer sim, alguma coisa mudaria. Mas talvez… já tivesse mudado desde a noite anterior. — Tá bom — respondeu, finalmente. Do outro lado, Rafael sorriu, aliviado. — Sério? — Sério. Carla quase comemorou em voz alta, tendo que se controlar. — Então eu passo aí depois do seu trabalho — disse Rafael. — Pode ser? Priscila hesitou por um segundo… mas respondeu: — Pode. — Então combinado. Quando a ligação terminou, Priscila ficou parada, ainda segurando o telefone. Carla correu até ela. — EU NÃO ACREDITO! — Carla! — Você aceitou! Amiga, você aceitou! Priscila não conseguiu segurar o sorriso. — Eu sei… — Isso vai dar história, viu? Priscila olhou para o vazio por um instante, sentindo uma mistura de ansiedade e expectativa. — Eu acho que já começou a dar… E, naquele momento, ela percebeu uma coisa com clareza: Aquilo não era só mais uma paquera. Era o começo de algo que podia mudar tudo.
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