O Golpe no Ego
O silêncio na casa de Pedro e Alice, no topo do Jacarezinho, só era quebrado pelo barulho fraco da televisão ligada na sala.
Maya estava sentada na ponta do sofá, dobrando algumas roupas com cuidado. Por fora, transparecia a calma de sempre; por dentro, a conversa da noite anterior no terraço ainda pesava no seu peito.
A porta da frente se abriu e Melissa entrou, jogando as chaves sobre a mesa. Ela trazia no rosto aquele ar sereno e decidido de quem não devia satisfações a ninguém.
— Já chegou do Alemão, Mel? — Maya perguntou, tentando manter o tom neutro enquanto ajeitava uma peça de roupa.
— Cheguei agora — Melissa respondeu, sentando-se na poltrona ao lado e soltando o cabelo. — Aquele camarote tava quente hoje. Mas o de sempre: o Kael fazendo o papelão dele na frente de todo mundo.
Maya travou as mãos por um segundo, o peito apertando involuntariamente ao ouvir o nome dele.
— O que ele aprontou dessa vez? — perguntou baixo, mantendo os olhos fixos nas roupas.
— O de sempre, Maya. Ficou dando showzinho de ciúme porque eu tava conversando com o Noah — Melissa bufou, balançando a cabeça. — Ele não aceita que o que existia entre a gente acabou faz tempo. Fica insistindo nessa história de promessa de família como se a gente ainda tivesse cinco anos de idade. É chato, é infantil e só faz ele passar vergonha na frente da cúpula.
— O Kael é orgulhoso, Mel... você sabe disso — Maya murmurou, tentando defender o homem que amava, mesmo sabendo que ele não merecia.
— Orgulhoso e cego — Melissa rebateu de pronto, encarando a irmã. — Ele precisa crescer. O Noah é homem de verdade, respeita meu espaço, não fica de cobrança sem sentido. O Kael acha que o morro inteiro tem que girar em torno da vontade dele.
Cada palavra de Melissa era como uma constatação dolorosa para Maya. Ela sabia que a irmã tinha razão sobre a imaturidade e a teimosia de Kael.
Mas o que mais doía em Maya não era o comportamento dele era ver que Kael continuava gastando toda a sua energia, seu orgulho e sua atenção por uma mulher que já tinha virado a página, enquanto ignorava completamente quem estava ali do lado dele, disposta a dar o mundo por ele.
Pouco tempo depois, passos firmes ecoaram no corredor e Nando entrou na sala. Como irmão mais velho e dono do morro, Nando mantinha o olhar atento sobre as duas irmãs, mesmo já morando com Manu no topo do Jacarezinho.
— A conversa tá boa, mas o Kael tá aí fora — Nando avisou, olhando para Melissa. — Ele veio me trazer os relatórios dos acessos da semana e disse que queria falar contigo rapidinho, Melissa.
— Não tenho nada pra falar com ele, Nando — Melissa respondeu na hora, cruzando os braços. — Fala pra ele ir pra casa dele.
— Deixa de marra, Melissa. O cara é nosso primo e meu subchefe. Ouve o que ele tem pra dizer de uma vez e encerra essa p***a — Nando pediu, sem paciência para o clima pesado entre os dois.
Antes que Melissa pudesse contestar, Kael apareceu na porta da sala. A presença dele ocupava o ambiente: a postura rígida, a cara fechada e o olhar carregado de um orgulho que recusava ceder.
Quando seus olhos bateram em Maya, ele desviou o olhar rapidamente, como se a presença dela o lembrasse da bronca que tinha levado no terraço.
— Nando, os papéis tão aqui — Kael disse, entregando uma pasta ao irmão mais velho e primo. Depois, virou-se para Melissa. — A gente precisa conversar, Melissa. A sós.
— Não tem nada pra conversar a sós, Kael — Melissa respondeu firme, sem se levantar da poltrona. — O que tu tinha pra falar, tu já tentou latir lá no camarote do Alemão. Se for pra falar da tal promessa dos nossos pais de novo, poupa o teu tempo e o meu.
Maya se encolheu no sofá, sentindo o ar da sala ficar denso. A humilhação velada que Kael sofria ali era dolorosa de ver, mas a teimosia dele parecia cega a qualquer sinal de dignidade.
— Tu tá fazendo jogo duro à toa — Kael insistiu, a voz baixa e tensa, a arrogância disfarçando a insegurança por trás da rejeição. — Todo mundo no Jacarezinho sabe que a gente cresceu pra ficar junto. Tu tá se queimando indo atrás do Noah só pra me provocar.
Melissa deu uma risada irônica, levantando-se da cadeira e ficando frente a frente com o primo.
— Te provocar? Kael, acorda pra vida! Eu não faço nada por tua causa! — Melissa disparou, a voz calma, mas cortante como lâmina. — Eu tô investindo no Noah porque eu QUERO o Noah. Eu gosto dele. A nossa história acabou. Aceita isso de uma vez por todas e para de passar recibo. Tu é o subchefe dessa p***a, se dá ao respeito!
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Nando apenas balançou a cabeça, sabendo que a irmã não voltaria atrás.
Kael permaneceu estático, os dentes trincados e as veias do pescoço saltadas. O impacto da rejeição direta na frente de Nando e de Maya foi um golpe devastador no seu ego inflado.
Sem dizer mais nenhuma palavra, Kael deu meia-volta e saiu pisando fundo, batendo a porta da frente com força.
— Homem teimoso dá pena — Melissa comentou, suspirando e voltando para o quarto.
Nando pegou a pasta, deu um toque carinhoso no ombro de Maya e também saiu para resolver os assuntos do morro, deixando a caçula sozinha na sala.
Maya ficou parada por alguns minutos, o peito apertado. Ela conhecia a impulsividade e o orgulho de Kael. Sabia que um homem como ele, ferido na sua vaidade e desesperado para não perder o controle, era capaz de cometer loucuras.
O sol da manhã m*l tinha surgido no Jacarezinho quando o burburinho começou a correr pelas vielas. No alto do morro, o clima na casa de Caio e Sara era de puro cansaço e frustração.
Kael tinha passado a noite em claro no terraço, virando garrafas de uísque e moendo o próprio orgulho.
A rejeição dura de Melissa na frente de Nando e Maya ainda queimava em sua pele como uma ferida aberta. Ele se sentia pequeno, impotente e ridicularizado um subchefe cujas vontades eram ignoradas por todos.
Na cozinha, Aurora preparava um café forte enquanto olhava de lado para o irmão.
— Tu devia tomar um banho e ir dormir, Kael — Aurora disse, sem paciência. — Tá com a cara amassada e exalando bebida. O Nando vai te dar um esporro se tu aparecer no miolo do morro desse jeito.
— Não enche a p***a do saco, Aurora — Kael resmungou, a voz rouca, sem tirar os olhos do copo vazio sobre a mesa. — Eu sei muito bem o que eu faço da minha vida.
— Sabe mesmo? Porque parece que tu só sabe passar vergonha atrás da Melissa — Aurora retrucou de pronto, sem medo da cara fechada do irmão. — Ela já te deu o papo retinho. Tu devia era ter vergonha nessa tua cara de homem e seguir tua vida.