Faíscas no Alemão
O movimento na quadra principal do Complexo do Alemão estava a todo vapor. Era noite de baile e de reunião informal da cúpula do Comando Vermelho. A música alta fazia o chão vibrar, mas na área VIP o camarote reservado no alto da estrutura, o clima era de absoluto controle.
Noah, o Sombra, permanecia encostado na mureta de ferro com os braços cruzados, observando a multidão lá embaixo.
Aos vinte e três anos, sua postura séria, o olhar frio e a aura intimidante deixavam claro por que ele liderava o morro. Ao lado dele, Ravi (Rei) mantinha o copo na mão enquanto conversava baixo com Teo (Trovão). O trio de comando do Alemão andava sempre junto, uma engrenagem perfeita e respeitada por toda a facção.
— O movimento tá tranquilo hoje, Sombra — Ravi comentou, dando um gole na bebida. — A rapaziada do Jacarezinho já confirmou que tá subindo pra encostar aqui.
— Tranquilo — Noah respondeu, a voz grave e pausada. — Enquanto o respeito se mantiver, tá tudo certo.
Poucos metros atrás, no sofá de couro do camarote, Sofia e Kiara conversavam animadamente. Mas quem realmente chamava a atenção era Melissa.
Vestindo um cropped preto e jeans justo, a irmã mais velha de Maya esbanjava a confiança de quem sabe o valor que tem.
Com vinte e dois anos, Melissa era dona de si, direta e extremamente decidida. Ela não estava ali por acaso.
Já tinha deixado para trás qualquer memória do passado com Kael e colocado seus olhos em Noah.
Ela se levantou, caminhou com passos firmes em direção à mureta e parou bem ao lado de Noah, apoiando os cotovelos no ferro.
— Olhando a favela como se fosse um rei do topo do castelo, Sombra? — Melissa provocou, com um sorriso de canto e o olhar debochado.
Noah nem piscou, mantendo os olhos na multidão antes de virar o rosto devagar para encará-la.
— Tô trabalhando, Melissa. Diferente de tu, que vem do Jacarezinho até aqui só pra gastar sola de sapato — Noah rebateu, calmo, mas sem dar brecha.
— Eu não venho gastar sola, Noah. Eu venho porque o ambiente aqui é bem mais interessante — ela retrucou sem recuar um milímetro, sustentando o olhar intimidante dele. — E porque você sabe muito bem que quando eu quero uma coisa, eu não desisto fácil.
Noah deu um meio sorriso imperceptível. Ele gostava da audácia e da postura forte de Melissa, mas não facilitava o jogo.
Antes que a conversa prosseguisse, os passos pesados na escada do camarote anunciaram a chegada da diretoria do Jacarezinho. Nando vinha na frente, seguido por Miguel e Kael.
Assim que pisou no camarote, os olhos do Lobo varreram o espaço até travarem na cena: Melissa encurtando a distância entre ela e Noah, provocando o dono do Alemão com aquele sorriso que ele passou a vida tentando conquistar.
A mandíbula de Kael travou na hora. O orgulho dele ferveu, acendendo aquela arrogância impulsiva que ele raramente conseguia segurar.
— Salve, rapaziada — Nando cumprimentou, apertando a mão de Noah, Ravi e Teo em sinal de respeito e lealdade da facção. — Tudo em paz no Alemão?
— Na paz, Coruja — Noah respondeu, cumprimentando Nando e Miguel.
Quando Noah estendeu a mão para Kael, o clima no camarote deu uma leve esfriada. O respeito do Comando estava ali, mas a tensão pessoal era visível para qualquer um.
— Fala, Lobo — Noah disse, com o tom neutro.
Kael apertou a mão dele com mais força do que o necessário, sustentando o olhar.
— Tranquilo, Sombra. Pelo visto o movimento do camarote tá melhor do que o da pista — Kael disparou, lançando um olhar rápido e cheio de veneno para Melissa. — Tem gente que cruza a favela só pra tentar chamar atenção de quem nem tá pedindo.
Melissa nem se abalou. Ela soltou uma risada curta, cheia de deboche, encarando Kael nos olhos.
— Se eu cruzo a favela ou não, o problema é meu, Kael. Tu devia cuidar mais do teu morro e da tua vida em vez de ficar reparando em onde eu p***o minha unha — Melissa respondeu, sem filtro, na cara dele. — A gente não tem mais nada, e tu sabe disso.
— Só tô comentando, Melissa. Promessa de família pra tu não vale nada mesmo Kael provocou, a teimosia dele falando mais alto que a razão.
— Chega dessa p***a, Kael — Nando interveio com a voz firme de dono do Jacarezinho, cortando a discussão antes que ficasse feio. — Viemos aqui pra alinhar os bagulhos da cúpula, não pra ouvir DR de infância.
— Deixa o moleque falar, Coruja — Noah falou, com uma calma calculada que irritava Kael ainda mais. Ele deu um passo à frente, cobrindo o espaço de Melissa com sua presença intimidadora. — O Lobo gosta de latir alto, mas aqui no Alemão a gente resolve as coisas na postura. A Melissa vai pra onde quiser e fica com quem quiser. Ninguém manda nela.
Kael deu um passo na direção de Noah, o peito subindo e descendo com o ciúme e a frustração entalados na garganta. Mas Ravi e Teo deram um passo velado à frente, enquanto Nando colocava a mão no peito de Kael, segurando o subchefe.
— Segura a onda, Lobo — Nando avisou no ouvido de Kael, o tom baixo e severo. — Tu tá passando recibo de o****o.
Kael respirou fundo, trincando os dentes. O orgulho sangrava, mas ele sabia que Nando tinha razão. Estava passando vergonha por uma mulher que já tinha deixado claro que não o queria.
No canto do camarote, observando toda a cena de longe, Aurora tinha acabado de subir com Kiara. O olhar de Aurora era de puro desgosto ao ver a postura do irmão.
Ela pensou imediatamente em Maya, que estava em casa no Jacarezinho, trancada no quarto, suspirando e sofrendo por um homem que continuava cego, queimando por quem não dava a mínima para ele.
— Ele não aprende — Aurora murmurou para si mesma, balançando a cabeça. — Não enxerga nada além do próprio ego.
Kael deu as costas para Noah e Melissa, pegando um copo de uísque com o garçom e caminhando para a mureta oposta do camarote.
Enquanto olhava para as luzes da favela, a imagem do sorriso triste de Maya na noite anterior veio rápido em sua mente a frase dela ecoando no fundo da sua cabeça: "Um dia você vai ver que a única pessoa que se machuca aqui é você mesmo..."
Ele afastou o pensamento com raiva, dando um gole fundo na bebida. Ele ainda era teimoso demais, orgulhoso demais para admitir que Maya já estava coberta de razão.