Eu sinto a sua falta

918 Words
Os dias seguintes não melhoraram. Se tornaram piores. Não por brigas, não por discussões, não por olhares atravessados — mas pela ausência completa de tudo isso. Mariana fazia exatamente o que tinha dito: apenas o trabalho. Chegava, cumpria suas funções com precisão impecável, respondia o necessário, evitava qualquer conversa que fugisse do profissional e, principalmente, não olhava pra ele como antes. Não tinha mais provocação, não tinha mais aquela tensão silenciosa, não tinha mais nada além de distância calculada. E aquilo consumia Miguel de um jeito que ele não esperava. Porque ele já tinha lidado com rejeição antes, já tinha lidado com conflitos muito maiores, com negociações muito mais complexas, mas aquilo… aquilo era diferente. Porque não era um jogo que ele podia virar com estratégia, com dinheiro ou com controle. Era pessoal. Era direto. E, pela primeira vez, ele não tinha vantagem nenhuma. Na quarta noite, ele não aguentou. Desceu até a cozinha já tarde, sabendo que ela costumava organizar algumas coisas antes de subir, e quando entrou, encontrou exatamente o que esperava: Mariana de costas, concentrada em alinhar alguns utensílios como se aquilo fosse a coisa mais importante do mundo. O silêncio entre eles se instalou no mesmo instante, pesado, carregado, e mesmo sem olhar, ela sabia que era ele. — Você tá me evitando — ele disse, sem rodeio, a voz mais baixa do que o normal. Mariana não se virou de imediato. Terminou o que estava fazendo, secou as mãos no pano e só então virou, mantendo uma distância segura entre eles. — Não. Eu tô trabalhando. A resposta veio limpa. Sem emoção. E isso irritou. — Não precisa fingir comigo. Ela cruzou os braços, sustentando o olhar sem recuar. — Eu não tô fingindo nada. Você que não tá acostumado a não ter o que quer. Aquilo acertou. E ele deu um passo à frente. — Não reduz isso a isso. — Então define você — ela rebateu na mesma hora. — Porque até agora, você quer tudo do seu jeito, sem abrir mão de nada. O silêncio ficou pesado. Denso. Miguel passou a mão pelo cabelo, claramente tentando manter o controle, mas já sem a mesma facilidade de antes. — Eu fui atrás de você — ele disse, firme. — Foi — ela assentiu — e saiu do mesmo jeito que entrou: sem decisão nenhuma. Ele travou por um segundo. E ela percebeu. — É exatamente isso — continuou, mais baixa agora, mas muito mais intensa — você quer que eu fique disponível enquanto você resolve sua vida no seu tempo. E eu não vou mais fazer isso. Miguel se aproximou mais um passo, diminuindo o espaço, mas dessa vez ela não recuou. Ficou firme, sustentando o olhar, mesmo com o corpo reagindo à proximidade, mesmo com tudo ainda existindo ali. — Não é sobre tempo — ele disse, mais baixo — é sobre consequência. — Consequência eu já entendi — ela respondeu — eu só não vou ser a única a pagar por ela. O ar ficou pesado. E pela primeira vez… ele não tinha resposta pronta. Mariana respirou fundo, como se estivesse segurando algo que ainda doía, mesmo depois de dias. — Você não sente falta de mim — ela disse, de repente, mais calma, mas olhando direto — você sente falta do que eu te fazia sentir. Aquilo foi direto. E errado. Ou pelo menos… não completamente certo. Miguel deu mais um passo, agora perto o suficiente pra que o calor entre eles voltasse a existir, mesmo contra a vontade dela. — Se fosse só isso, eu não tava aqui. A voz saiu diferente. Mais baixa. Mais real. Ela hesitou por um segundo. E ele viu. — Eu sinto falta de você — ele continuou, sem desviar o olhar — do jeito que você fala comigo, do jeito que você me enfrenta, do jeito que você… — ele parou por um segundo, respirando fundo — não se encaixa em nada que eu já tive. O coração dela acelerou. Mas ela não cedeu. Ainda não. — Isso não muda nada — disse, mais baixo, mas firme. — Muda pra mim. — Mas não muda o suficiente. O silêncio voltou. Pesado. Cheio. Miguel levantou a mão devagar, como já tinha feito antes, como se o corpo dele não tivesse desaprendido aquilo, mas dessa vez… ela segurou. Não com força. Mas firme o suficiente pra parar. — Não faz isso — ela disse, olhando direto pra ele. — Por quê? — Porque você sabe o efeito que tem. Ele inclinou levemente a cabeça, observando ela com intensidade. — E você também sabe o que faz comigo. Aquilo ficou no ar. Perigoso. Mas dessa vez, ela não deixou escalar. Soltou a mão dele e deu um passo pra trás, criando distância de novo. — Isso aqui não é mais sobre sentir — ela disse — é sobre escolher. Miguel ficou em silêncio. E ela completou: — E você ainda não escolheu. Aquelas palavras caíram mais pesadas do que qualquer outra coisa dita até ali. Porque eram verdade. E ele sabia. Mariana respirou fundo, como se estivesse se mantendo firme pela última vez. — Quando você decidir, de verdade… você me procura. Ela virou. Sem pressa. Sem olhar pra trás. Mas dessa vez… não tinha certeza se ele viria. E Miguel ficou ali. Parado. Sentindo algo que já não dava mais pra ignorar. Porque agora não era mais só desejo reprimido. Era ausência. Era perda em andamento. E, pela primeira vez… ele estava atrasado.
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