Finalmente, uma decisão

1219 Words
Miguel não dormiu naquela noite. Ficou sentado na beirada da cama por um tempo que ele mesmo perdeu a conta, os cotovelos apoiados nos joelhos, o olhar perdido em algum ponto fixo que ele nem enxergava direito. O quarto ainda carregava o cheiro dela, a lembrança dela, a presença recente demais pra ser ignorada, e aquilo só deixava tudo mais claro de um jeito incômodo: não era mais só desejo, não era mais só impulso, não era mais algo que ele podia controlar ou encaixar na rotina como se fosse um detalhe. Era ela. E ele não conseguia mais fingir que não era. Passou a mão pelo rosto, respirou fundo e tomou uma decisão que já devia ter tomado há dias, talvez semanas, talvez desde o início. Não dava mais pra manter duas realidades paralelas como se não fossem se cruzar em algum momento, porque já tinham se cruzado, já tinham saído do controle, e continuar adiando só estava piorando tudo. Mariana tinha razão, e admitir isso incomodava mais do que ele gostaria, mas não mudava o fato de que ele precisava resolver aquilo de uma vez. Na manhã seguinte, tudo parecia normal por fora. Mas não estava. Miguel passou o dia inteiro mais direto, mais objetivo, sem os desvios habituais, sem olhar prolongado, sem tentativa de aproximação. Mariana percebeu, claro que percebeu, mas não reagiu, manteve a postura profissional como vinha fazendo, e aquilo só reforçou ainda mais a decisão dele. No fim da tarde, ele mandou uma mensagem para Olívia. Simples. Direta. Convidando para um jantar naquela noite, na casa. Ela respondeu rápido, animada demais, como sempre ficava quando ele tomava alguma iniciativa, e aquilo só deixou mais claro o quanto aquela relação já não fazia mais sentido pra ele. A casa foi preparada como de costume, jantar organizado, ambiente impecável, tudo no lugar — exceto o que realmente importava. Miguel ficou na sala esperando, o olhar mais duro do que o normal, a postura mais fechada, como alguém que já sabia que aquela noite não terminaria bem. Olívia chegou sorrindo. Bonita. Impecável. Como sempre. Entrou como se nada estivesse fora do lugar, como se aquela fosse apenas mais uma noite entre os dois, e se aproximou dele com naturalidade, mas Miguel não correspondeu da mesma forma. Isso foi o primeiro sinal. — O que foi isso tudo? — ela perguntou, olhando ao redor com um sorriso leve — jantar surpresa? Eu gostei. Ele indicou a mesa com a cabeça. — Vamos sentar. O tom já não era o mesmo. E ela percebeu. Sentaram. O silêncio ficou por alguns segundos, pesado, desconfortável de um jeito que não combinava com eles, e Olívia inclinou levemente a cabeça, observando ele com mais atenção. — Tá acontecendo alguma coisa — ela disse, direta. Miguel não rodeou. Não tinha mais espaço pra isso. — Tá. O sorriso dela diminuiu. — Então fala. Ele apoiou os braços na mesa, olhando direto pra ela. — A gente precisa terminar. O silêncio que veio depois foi imediato. E pesado. Olívia ficou parada por um segundo, como se não tivesse entendido, como se aquilo não encaixasse na realidade dela. — Como assim terminar? — ela perguntou, rindo de leve, sem acreditar — isso é alguma brincadeira? — Não. A resposta veio firme. Sem hesitação. E isso quebrou tudo. O olhar dela mudou na hora, o sorriso desaparecendo completamente, dando lugar a algo mais duro, mais afiado. — De onde veio isso? — Já devia ter vindo antes. — Não, Miguel — ela balançou a cabeça, já irritada — não funciona assim. A gente não termina um noivado desse jeito, do nada. — Não é do nada. — Então é o quê? Ele sustentou o olhar. — É decisão. Aquilo inflamou ela. — Decisão baseada em quê? — a voz já subiu um pouco — em quem? O silêncio durou pouco. Porque ela mesma respondeu. — É por causa daquela… — ela soltou um riso sem humor — da faxineirazinha, não é? Miguel não reagiu na hora. E isso foi resposta suficiente. O olhar dela endureceu completamente. — Eu sabia — ela continuou, agora mais alta — eu sabia que tinha alguma coisa errada com aquela garota. Miguel perdeu a paciência. — E se for? — ele disse, direto, sem abaixar o tom. Aquilo foi como gasolina no fogo. — Você só pode estar brincando — Olívia levantou da cadeira de uma vez — você tá jogando tudo fora por causa de uma funcionária? — Eu não tô jogando nada fora — ele rebateu, levantando também — eu tô escolhendo parar de viver uma coisa que não faz mais sentido. — Não faz sentido pra você — ela corrigiu, apontando o dedo — porque pra mim faz, pra sua família faz, pra todo mundo faz! — Pra mim não faz mais. — Porque você se envolveu com ela — a voz dela saiu carregada de raiva — com aquela garota que devia estar limpando o chão e não se enfiando na vida dos outros! Miguel avançou um passo, o olhar escurecendo. — Cuidado com o jeito que você fala dela. — Ou o quê? — ela desafiou, rindo de forma amarga — você vai me defender agora? Ele não respondeu com palavras. Mas o olhar respondeu. E foi o suficiente. Olívia perdeu completamente o controle. O t**a veio rápido. Seco. O som ecoou pela sala. Miguel virou o rosto com o impacto, mas não recuou. Voltou devagar, o olhar completamente diferente agora, frio, perigoso, e segurou o braço dela com firmeza, forte o suficiente pra impedir qualquer outro movimento. — Você perdeu a noção — ele disse, baixo, mas carregado. Ela respirava rápido, descontrolada, mas ainda sustentava o olhar. — Me solta. — Não antes de você se controlar. Foi nesse momento que Olívia viu. O movimento na escada. Mariana. Parada. Assistindo. Os olhos já cheios de emoção, surpresa, dor, tudo misturado. E foi aí que Olívia decidiu machucar. De propósito. Ela puxou Miguel pela camisa antes que ele percebesse a intenção, colando o corpo no dele e beijando com força, sem espaço pra reação imediata, num gesto impulsivo, mas calculado. Miguel travou por um segundo. E esse segundo foi o suficiente. O vaso caiu. O som do vidro quebrando no chão cortou o momento como uma lâmina. Miguel se afastou na hora. O olhar indo direto pra escada. Mariana estava ali. Os olhos marejados. A respiração falhando. A decepção estampada sem qualquer tentativa de esconder. E aquilo… atingiu mais forte do que qualquer t**a. — Mariana… — ele começou, dando um passo na direção dela. Mas ela já estava recuando. — Não — ela disse, a voz quebrando, mas firme o suficiente — não chega perto de mim. Ela desceu rápido, sem olhar pra trás, passando por eles como se aquele lugar já não fosse mais dela, como se tudo tivesse sido arrancado ali naquele instante. — Mariana, espera — Miguel tentou de novo. Mas ela não parou. A porta se abriu. E a chuva caiu forte lá fora. Como se o mundo estivesse acompanhando o caos. Ela saiu sem pensar, sem pegar nada, sem se proteger, deixando a água cair, misturar com as lágrimas, com a raiva, com a dor que parecia grande demais pra caber dentro dela. E dessa vez… ela não voltou.
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