O silêncio depois daquelas palavras não foi vazio.
Foi cheio.
Cheio de tudo que Mariana tinha esperado ouvir e, ao mesmo tempo, duvidado que algum dia ouviria. A chuva continuava caindo forte ao redor deles, encharcando tudo, mas parecia distante, como se o mundo tivesse se afastado só pra deixar aquele momento existir sem interrupção. O olhar dela estava preso no dele, ainda tentando entender, ainda tentando acreditar, porque não era só a declaração em si — era o que vinha junto com ela. Era a decisão, era a escolha, era o fim de tudo que tinha sido confuso até ali.
— Você não pode falar isso assim… — ela disse, a voz mais baixa, ainda carregada de emoção, mas sem desviar o olhar — como se resolvesse tudo de uma vez.
Miguel não recuou nem um centímetro.
— Não resolve tudo — respondeu, firme — mas é a primeira vez que eu tô dizendo exatamente o que eu devia ter dito desde o começo, sem esconder, sem desviar, sem deixar você no meio de nada.
Mariana respirou fundo, sentindo o peito apertar, mas de um jeito diferente agora, menos dor, mais intensidade.
— E amanhã? — ela perguntou, direta — quando isso tudo virar realidade de verdade, quando não for só a gente aqui no meio da chuva… você vai continuar me escolhendo?
Ele se aproximou mais, a mão ainda segurando o rosto dela, agora com um cuidado que não diminuía a intensidade, só mudava o tipo de toque.
— Eu já escolhi — disse, olhando direto nos olhos dela — e não foi agora, não foi por impulso, não foi porque você saiu correndo. Eu só demorei pra admitir o que já era real faz tempo.
Ela fechou os olhos por um segundo, deixando aquilo entrar de verdade, deixando a tensão dos últimos dias finalmente começar a ceder, mesmo que ainda existisse medo ali.
— Eu fiquei com tanto medo de estar me enganando… — confessou, a voz mais baixa — de estar acreditando em algo que não era real.
Miguel aproximou o rosto, encostando a testa na dela, a respiração ainda misturada com a chuva.
— Eu também — respondeu, mais baixo — mas não dá mais pra fingir que isso não existe.
O silêncio voltou, mas dessa vez não era pesado.
Era íntimo.
Era necessário.
Mariana abriu os olhos devagar, olhando pra ele de perto, enxergando algo que não tinha visto antes com tanta clareza.
— Então não me faz voltar praquele lugar de novo — ela disse, firme, mesmo com a voz suave — não me faz ser escondida, não me faz duvidar de novo.
Miguel não hesitou.
— Você nunca mais vai ser escondida — respondeu — e se em algum momento eu fizer você sentir isso de novo… você me cobra, você me enfrenta, você faz exatamente o que fez. Porque foi isso que me trouxe até aqui.
Ela soltou um leve riso, ainda emocionada, mas mais leve do que antes.
— Eu fui bem dura com você.
— Você foi necessária — ele corrigiu, um pequeno sorriso aparecendo — e eu precisava disso mais do que queria admitir.
O olhar dos dois se prendeu de novo, mas agora sem aquele peso de conflito, sem aquela tensão de indecisão. Ainda existia intensidade, ainda existia desejo, mas vinha acompanhado de algo novo: segurança.
Miguel puxou ela mais pra perto, envolvendo a cintura dela com firmeza, e dessa vez não tinha urgência, não tinha pressa. O beijo que veio foi diferente, mais lento, mais profundo, carregado de confirmação, de escolha, de algo que não precisava mais ser escondido.
Mariana respondeu com a mesma entrega, sem medo, sem recuar, as mãos se prendendo nele de forma natural, como se finalmente pudesse fazer isso sem precisar se segurar. A chuva continuava caindo, mas já não importava, porque naquele momento tudo que existia era aquilo, o toque, a respiração, o gosto, a certeza de que, pela primeira vez, estavam do mesmo lado.
— Isso não parece real — ela murmurou contra os lábios dele, ainda próxima.
— Então a gente faz ser — ele respondeu, sem se afastar — do jeito certo dessa vez.
E por alguns segundos…
foi só isso.
Só eles.
Sem passado.
Sem medo.
Sem disputa.
Até o som de palmas cortar o momento.
Lento.
Debochado.
Arrastado.
Os dois viraram na mesma hora.
Olívia estava alguns metros atrás, protegida sob um guarda-chuva elegante, completamente seca em meio ao caos da chuva, enquanto eles estavam encharcados, expostos, reais demais. O olhar dela passeava entre os dois com um sorriso frio, calculado, carregado de desprezo e algo muito mais perigoso.
— Que cena bonita… — ela disse, batendo mais algumas palmas lentamente — quase me emocionei.
Mariana sentiu o corpo tensionar na hora, mas Miguel não soltou ela, pelo contrário, manteve firme, como se não fosse permitir que aquilo quebrasse o que tinha acabado de acontecer.
— Já terminou? — ele perguntou, direto, sem paciência nenhuma.
Olívia inclinou levemente a cabeça, analisando os dois como se estivesse avaliando uma situação que ainda não tinha decidido como atacar.
— Terminar? — ela repetiu, rindo de leve — não, Miguel… eu acho que isso aqui tá só começando.
O olhar dela parou em Mariana, descendo lentamente, como se estivesse marcando cada detalhe.
— Você realmente acha que ganhou alguma coisa aqui? — disse, a voz suave, mas venenosa — acha que ele vai sustentar essa escolha quando tudo começar a cair em cima de vocês?
Mariana sustentou o olhar, mesmo sentindo o peso daquilo.
— Eu não tô competindo com você — respondeu, firme — isso já acabou.
Olívia riu.
De verdade dessa vez.
Mas sem humor nenhum.
— Você ainda acha que isso foi uma competição — ela disse, balançando levemente a cabeça — isso é muito maior do que você consegue enxergar.
Miguel deu um passo à frente, a expressão endurecendo.
— Chega, Olívia.
Ela levantou uma sobrancelha, mas não recuou.
— Você acha mesmo que pode simplesmente me descartar assim? — a voz subiu levemente, mais carregada agora — que pode me substituir e sair andando como se não tivesse consequência nenhuma?
— Eu não tô te descartando — ele respondeu, firme — eu tô encerrando algo que já devia ter acabado.
O olhar dela escureceu.
De verdade.
— Você não faz ideia do erro que tá cometendo.
O silêncio caiu.
Pesado.
E então ela sorriu.
Devagar.
Frio.
Perigoso.
— Mas tudo bem — continuou, ajustando o guarda-chuva com elegância — porque eu vou fazer questão de mostrar pra vocês dois exatamente o que acontece quando alguém tenta me tirar do lugar que é meu.
Mariana sentiu um arrepio subir pela espinha.
Não de medo simples.
Mas de aviso.
— Eu prometo — Olívia completou, olhando primeiro pra Miguel, depois pra Mariana — isso não vai terminar aqui.
E sem esperar resposta, virou as costas e começou a se afastar, o salto firme mesmo com o chão molhado, como se aquela cena inteira não tivesse abalado ela… pelo menos não por fora.
O silêncio voltou.
Mas diferente.
Ameaçador.
Miguel soltou um suspiro baixo, passando a mão pelo rosto antes de olhar pra Mariana de novo.
— Eu não vou deixar ela fazer nada contra você — disse, firme.
Mariana ainda olhava na direção em que Olívia tinha ido, absorvendo, sentindo o peso da promessa.
Mas então voltou o olhar pra ele.
E dessa vez… não recuou.
— A gente enfrenta junto — disse, mais baixo, mas decidido.
Miguel segurou o rosto dela de novo, aproximando com calma, mas com certeza.
— Junto.
E quando ele beijou ela outra vez, mesmo com a ameaça ainda no ar, mesmo com tudo que ainda podia vir…
não tinha mais dúvida.
Porque agora não era mais escondido.
Era escolha.
E dessa vez…
dos dois.