Tensão

872 Words
A casa estava silenciosa quando eles entraram, mas não era o mesmo silêncio de antes. Não era pesado, não era desconfortável. Era íntimo. Era novo. Era como se, pela primeira vez, aquele lugar estivesse alinhado com o que eles realmente eram, sem esconder, sem medo de quem podia ver ou julgar. Mariana ainda sentia a roupa colada ao corpo por causa da chuva, o cabelo escorrendo água pelas costas, mas não se afastou dele em nenhum momento. Pelo contrário, a mão ainda presa na dele parecia firme demais pra soltar agora. Miguel fechou a porta atrás dos dois e virou pra ela devagar, o olhar percorrendo cada detalhe como se estivesse absorvendo aquilo de uma forma diferente, não mais com urgência ou tensão escondida, mas com uma calma intensa, quase possessiva, como quem finalmente podia olhar sem restrição. — Você tá tremendo — ele disse, baixo, aproximando mais. — É frio… — ela respondeu, mas nem ela acreditou totalmente nisso. Ele soltou um leve sopro de riso, aproximando o rosto, a voz descendo ainda mais. — Não é só isso. Mariana sustentou o olhar, o coração acelerando de novo, mas dessa vez não tinha conflito, não tinha dúvida… só aquela tensão boa, viva, que parecia crescer quanto mais ele se aproximava. — E você vai fazer alguma coisa sobre isso? — ela provocou, mais baixa, sem recuar. O olhar dele mudou. Escureceu. Mas não de raiva. De intenção. — Vou — respondeu, firme, segurando a mão dela e puxando em direção ao corredor — vem comigo. Ela não questionou. Não hesitou. Acompanhou. O caminho até o quarto dele pareceu mais curto do que nunca, e quando chegaram, Miguel não parou ali, seguiu direto até o banheiro, acendendo a luz e abrindo o chuveiro sem pressa, como se cada movimento tivesse um propósito claro. O som da água caindo preencheu o espaço, criando uma atmosfera diferente, mais fechada, mais íntima, e Mariana ficou parada por um segundo, observando ele, tentando entender aquele novo ritmo. — Você sempre resolve tudo assim? — ela perguntou, encostando levemente na bancada, os braços cruzados, mas o olhar atento. Miguel virou na direção dela, encostando na pia com calma, analisando ela de cima a baixo sem pressa nenhuma. — Só quando vale a pena — respondeu, a voz mais baixa — e você vale. Aquilo mexeu. Ela tentou esconder com um pequeno sorriso, mas não conseguiu completamente. — Você fala isso com uma facilidade perigosa. — Eu demorei demais pra falar — ele rebateu, se aproximando devagar — agora não vou economizar. Parou na frente dela, perto o suficiente pra que o calor do corpo dele já começasse a substituir o frio da chuva. — Vem — disse, segurando a mão dela de novo. Dessa vez não tinha provocação. Tinha convite. E ela aceitou. Quando entraram debaixo da água quente, o contraste fez Mariana soltar um suspiro involuntário, o corpo relaxando na mesma hora, como se finalmente pudesse soltar tudo que ainda estava preso. Miguel ficou atrás dela por um segundo, as mãos firmes na cintura, sentindo a reação dela, observando sem pressa, como se estivesse absorvendo cada detalhe daquele momento. — Melhorou? — ele murmurou perto do ouvido dela. Mariana inclinou levemente a cabeça pra trás, encostando nele, os olhos fechando por um instante. — Muito… — respondeu, a voz mais baixa, mais solta. A mão dele subiu devagar pelo braço dela, sem pressa, sem urgência, só presença, e aquilo fez o corpo dela reagir de novo, mas agora de um jeito mais calmo, mais profundo. — Você ainda tá tensa — ele disse, quase em tom de constatação. — Depois de hoje… — ela soltou um leve riso — eu acho que tenho direito. Miguel virou ela de frente com calma, segurando o rosto dela com as duas mãos, o olhar preso no dela com intensidade, mas sem pressa. — Então para de pensar um pouco — murmurou — só fica aqui comigo. Mariana sustentou o olhar por um segundo, como se estivesse medindo, avaliando… e então cedeu. Sem resistência. Sem medo. Aproximou o rosto e beijou ele primeiro, um beijo mais lento, mais consciente, completamente diferente da urgência de antes. Miguel respondeu na mesma intensidade, aprofundando aos poucos, mantendo o ritmo, conduzindo sem forçar, deixando que ela acompanhasse, que ela sentisse. A água caía sobre os dois, misturando tudo — calor, toque, respiração — e o mundo lá fora parecia distante demais pra importar. Não tinha Olívia, não tinha ameaça, não tinha consequência naquele momento. Só eles. Só a escolha que tinham feito. Miguel afastou o beijo por um segundo, ainda próximo, a testa encostando na dela. — Isso aqui… — ele murmurou — é como devia ter sido desde o começo. Mariana abriu os olhos devagar, olhando pra ele de perto, sem desviar. — Então não estraga agora — disse, mais baixa, mas firme. Ele negou de leve, um quase sorriso surgindo. — Não vou. E dessa vez… ela acreditou. Se aproximou de novo, se encaixando nele com naturalidade, deixando o momento acontecer sem pressa, sem necessidade de provar nada, só sentindo, só vivendo aquilo que finalmente era deles sem esconder. E mesmo com tudo que ainda podia vir… pela primeira vez… estava leve.
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