Mariana ainda estava na cozinha quando Miguel entrou, já no meio da tarde, com aquela postura controlada de sempre — mas o olhar dizia que vinha problema.
Ela nem precisou perguntar.
— Aconteceu alguma coisa, né?
Ele passou a mão no relógio, como se organizasse os próprios pensamentos antes de falar.
— A Olívia resolveu inventar um jantar aqui hoje à noite. Última hora. Alguns amigos próximos, nada muito grande… mas suficiente pra movimentar a casa inteira.
Mariana soltou um suspiro curto.
— Claro que resolveu.
Miguel quase sorriu.
— Já tem uma equipe de buffet a caminho, então você não vai precisar cozinhar. Mas vai ter que ajudar a servir, organizar, essas coisas.
Ela cruzou os braços, apoiando o peso do corpo na bancada.
— Ou seja… vou ter que lidar com ela.
Ele não respondeu de imediato, só ficou olhando pra ela.
— Eu não vou te obrigar — disse por fim, com a voz mais baixa. — Mas também não vou fingir que vai ser fácil.
Mariana deu um meio sorriso sem humor.
— Eu preciso do emprego, lembra?
— Lembro.
O olhar deles se segurou por um segundo.
E tinha coisa ali.
Coisa demais.
— Só… — ele continuou, agora mais sério — não deixa ela te provocar.
Mariana soltou uma risadinha.
— O senhor já conheceu ela, né?
— Já.
— Então sabe que isso não depende só de mim.
— Eu sei — ele disse, mais baixo ainda — mas depende de até onde você vai.
Aquilo ficou no ar.
E por algum motivo… parecia um aviso maior do que só sobre o jantar.
A casa estava iluminada demais quando a noite chegou.
Música baixa, gente rindo, taças tilintando.
Tudo bonito.
Tudo falso.
Mariana andava de um lado pro outro com a bandeja nas mãos, servindo os convidados. Vestido preto simples, cabelo preso… tentando passar despercebida.
Tentando.
Porque Olívia não deixava.
Ela estava no centro da sala, linda, impecável, cercada por duas amigas que pareciam versões dela mesma — mesmas risadas altas, mesmo olhar julgador.
E quando viu Mariana…
sorriu.
Daquele jeito.
— Ah, olha só… a nova aquisição da casa — disse alto o suficiente pra todo mundo ouvir.
Mariana parou por um segundo.
Respirou.
E continuou andando.
— Vem aqui — Olívia chamou, estalando os dedos como se estivesse chamando um cachorro.
Aquilo fez o sangue de Mariana ferver.
Mas ela foi.
Porque precisava.
— Sim?
Olívia pegou uma taça da bandeja.
— Você até que serve direitinho quando quer… acho que só precisava de plateia.
As amigas riram.
Mariana ficou em silêncio.
— Sabe o que eu acho engraçado? — uma das amigas comentou. — Como ele deixa qualquer pessoa entrar aqui.
— Pois é — completou a outra. — Deve ser fase.
Miguel estava do outro lado da sala.
Observando.
Calado.
Mas olhando.
Mariana sentiu.
E aquilo só deixava tudo mais intenso.
Mais difícil.
— Anda — disse Olívia, entregando a taça vazia de volta — traz mais champanhe.
Mariana virou sem responder.
Mas não deu nem três passos quando ouviu o som.
O estalo.
O vidro quebrando.
Ela virou.
A taça estava no chão.
Champanhe espalhado pelo piso claro.
E Olívia… olhando diretamente pra ela.
— Que desastrada você, hein? — disse, com um sorriso lento.
Não foi acidente.
Todo mundo ali sabia.
Mariana sentiu o estômago revirar.
— Limpa — Olívia completou, dando um pequeno passo pra trás.
O silêncio em volta cresceu.
As pessoas fingindo não ver.
Mas vendo tudo.
Mariana se abaixou.
Pegou um pano.
Começou a limpar.
O rosto quente.
A garganta apertada.
Mas dessa vez… não tinha lágrima.
Tinha outra coisa.
Raiva.
Pura.
E então…
o salto de Olívia entrou bem no meio do líquido.
Espalhando tudo de novo.
— Ai, desculpa… — disse, sem um pingo de arrependimento.
As amigas riram.
Alto.
Aquilo ecoou.
Dentro dela.
Fundo.
E foi aí que alguma coisa virou.
Mariana terminou de limpar.
Devagar.
Sem pressa.
Sem pressa nenhuma.
Levantou.
Ajeitou a postura.
Olhou direto pra Olívia.
Sem abaixar a cabeça.
Sem pedir desculpa.
Sem nada.
Caminhou até a bandeja.
Pegou uma taça cheia.
Voltou.
E antes que alguém entendesse…
jogou o champanhe direto na cara dela.
O som foi seco.
O líquido escorrendo pelo rosto perfeito.
O vestido caro.
O choque.
Silêncio absoluto.
— Você enlouqueceu?! — Olívia gritou, completamente fora de si.
Mariana só respirava.
Pesado.
O peito subindo e descendo.
— Pode me demitir — ela disse, firme. — Mas nunca mais faz isso comigo.
E saiu.
Sem olhar pra trás.
Ela entrou no quarto com força.
A porta quase batendo.
Arrancou o avental e jogou na cama.
Soltou o cabelo de qualquer jeito.
As mãos tremendo.
O corpo inteiro quente.
— Que inferno!
As lágrimas vieram.
Mas agora eram diferentes.
Raiva.
Humilhação.
Orgulho ferido.
Dona Lúcia apareceu na porta, preocupada.
— O que aconteceu, minha filha?
Mariana virou de costas.
— Eu só… fiz besteira.
— Quer que eu fique?
Ela balançou a cabeça.
— Não… só me deixa um pouco sozinha.
A mãe hesitou.
Mas saiu.
E Mariana desabou.
Já era tarde quando a porta bateu.
— Mariana.
Ela reconheceu na hora.
Miguel.
— Pode entrar.
Ele entrou devagar.
Sem pressa.
Sem terno.
Sem aquela armadura toda.
— Eu sei… — ela começou, sem nem olhar pra ele — não precisa falar nada. Eu já sei que tô demitida.
Silêncio.
— Não tá.
Ela virou na hora.
— Como assim?
Ele deu alguns passos pra dentro do quarto.
— Eu não te demiti.
— Mas eu joguei champanhe na sua noiva.
— Jogou.
— Na frente de todo mundo.
— Sim.
Ela franziu a testa.
— E você não tá bravo?
Miguel soltou um riso baixo.
— Na verdade… — ele passou a mão no rosto, quase divertido — eu acho que ela mereceu.
Mariana ficou parada.
Processando.
— Você tá falando sério?
— Tô.
Silêncio.
Denso.
Mas diferente.
— Eu achei que você ia me mandar embora na hora…
— Eu pensei nisso.
Ela engoliu seco.
— E por que não fez?
Ele parou na frente dela.
Perto.
De novo.
— Porque eu não queria que você fosse.
Aquilo bateu.
Forte.
— Isso não faz sentido.
— Faz pra mim.
O olhar dele desceu.
Lento.
Demorado.
Sem disfarçar.
E ela sentiu.
Tudo.
De novo.
— Você devia estar com ela agora — Mariana disse, mais baixo.
— Eu não quero estar com ela.
— Ela é sua noiva.
— Por enquanto.
Silêncio.
O ar ficando pesado.
Quente.
— Isso vai dar problema — ela murmurou.
— Já deu.
Ele se aproximou mais.
E dessa vez…
não parou.
A mão dele segurou o rosto dela.
Firme.
Quente.
— Você me complica — ele disse, a voz baixa, carregada.
— Então me manda embora.
— Eu não quero.
O coração dela disparou.
— Isso é errado…
— Eu sei.
— Muito errado.
— Eu sei.
Mas ninguém se afastou.
E quando ela percebeu…
já era tarde.
Miguel puxou ela de vez.
E o beijo aconteceu.
Forte.
Quente.
Sem cuidado.
Sem freio.
Como se tudo que tava preso desde o começo tivesse explodido ali.
Mariana respondeu na hora.
Sem pensar.
Sem medir.
As mãos subindo, segurando a camisa dele.
O corpo colando.
O ar faltando.
Era intenso.
Era errado.
E era impossível parar.
Quando o beijo quebrou, os dois ficaram ali, próximos demais, respirando pesado.
Sabendo.
Que depois daquilo…
não tinha mais volta.